12 julho 2006

O bom, o mau e o feio

Aspectos retóricos de outra paixão nacional

Bom, segundo post esta semana, pra compensar o atraso vergonhoso em relação à minha penúltima contribuição ao blog. E já que estamos em paixões nacionais, vou emendar com um outro hábito social imediato do brasileiro: novela. Isto porque não apenas a copa acabou, mas também a novela das oito. E antes que vocês perguntem se sou, assim como no caso do futebol, um apreciador de novelas, a resposta é não. Mas sou um interessado nos efeitos da mídia no público.

E muita polêmica girou em torno de Belíssima, de Sílvio de Abreu, por conta do assim dito inusitado fato dos malvados se darem bem no final. Bia Falcão (a personagem, não minha prima Beatriz, que é super do bem), após uma vida de malvadezas, safa-se do Brasil e vai morar feliz em Paris. Alguns expressaram revolta, outros acharam bem-feito diante da mal-planejada estratégia de captura (burra demais pra ser levada a sério, eu diria). No dia seguinte, milhares de espectadores comentavam com conhecidos e amigos o empolgante capítulo final. Comigo não foi diferente.

Um amigo citou uma entrevista que o autor deu à Veja (putz, já tive fontes melhores, mas tudo bem), em que declarava estar impressionado com a perspectiva moral da sociedade brasileira. Dizia que, numa das tantas pesquisas populares que definem os rumos deste gênero narrativo, as pessoas estavam mais interessadas nos personagens que se davam bem a qualquer custo do que nos retos de caráter, os bonzinhos que sempre se fodem. E atribui-se à impunidade escandalosa e escancarada dos últimos tempos este tipo de perspectiva. Bem, eu não digo nem que sim, nem que não. Mas tenho minha própria teoria.

Antes, uma advertência, como de praxe: meus comentários estarão imbuídos de uma certa ideologia estética, digamos, e sempre vão ser de um cara que não é um profundo conhecedor do assunto justamente por não ter paciência de romper a primeira etapa do gosto comum ao estilo da obra. Ou seja, não agüento mais ver novelas, porque na minha opinião, elas decaíram muito, justamente nesse processo de deixar de ser uma narrativa relativamente autônoma para ser totalmente influenciada por pesquisas de opinião baseadas na lei do menor esforço. No mais, todo mundo já sabe que eu sou um chato mesmo. Aqui vai:

Ao contrário de achar simplesmente que essa possível (até provável) opinião popular seja reflexo dos escândalos de impunidade do país, parece-me que o problema ético (sim, existe um problema ético nisto tudo, por mais pós-modernos e relativistas que sejamos) neste caso específico reside mais no fato de que os personagens maus são mais interessantes, justamente por expressarem mais claramente desejos humanos, egoístas e egocêntricos (personagens mais conflituosos e complexos, portanto, como a mente humana é), em contraponto a um bom comportamento socialmente pré-estabelecido, desprovido de sentimentos, questionamentos internos e desejos próprios.

Acho que o problema está justamente na construção dos personagens bonzinhos. Eles terminam sendo meras repetições de valores politicamente corretos, ao invés de uma posição ideológica ou moral que se movimente dentro e a partir de uma certa personalidade, com todos os seus dramas internos postos. É a clássica diferença entre arquétipos e estereótipos: no primeiro caso, o comportamento de um personagem é movido por certas características intrínsecas; no segundo, comportamentos externos são atribuídos ao personagem conferindo-lhe não uma personalidade, mas um mero modo de agir. Seria como dizer que a ação de um arquétipo acontece de dentro pra fora, enquanto a dos estereótipos ocorre de fora pra dentro. Arquétipos são profundos e críveis. Estereótipos não.

Isso me faz lembrar, por exemplo, de Rachel Dawes (vivida por Katie Holmes), a personagem mais chata de Batman Begins (2005), de Chris Nolan – já mencionado neste espaço anteriormente (ver o post Grandes expectativas). A moral engessada, expressão evidente de um sistema inquestionável, cheio de regras, é totalmente oposta ao conceito do herói autônomo, movido por uma psicose de base extremamente humana, que se coloca à margem da lei. Um mínimo sentimento de vingança que Bruce Wayne possa ter pelo assassino de seus pais é duramente repreendido pela sua amiga de infância, que conheceu seus pais, mas parece não ter tido nenhum tipo de envolvimento pessoal forte o suficiente para ao menos colocar a compreensão acima da sua subserviência à moral estabelecida. Wayne, expressão maior de sentimentos nossos, com toda a sua ambigüidade e força, nos fala mais alto. Dawes consegue apenas reforçar o teor de um discurso imposto e acrítico.

O que me faz pensar que talvez precisemos de melhores personagens bonzinhos, menos ingenuamente construídos, ou simplesmente melhor equilibrados. Isto em qualquer instância narrativa. Sílvio de Abreu levanta, sem dúvida, pontos importantes ao estabelecer o contraditório cenário político-cultural do país como possível causa da inversão de valores do espectador. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que qualquer paradigma de comunicação é simbiótico, é influenciado ao mesmo tempo que influencia. Acredito sempre na profundidade, na crítica, na expressão sincera como chave necessária para nossa formação moral e ética. É quando vemos as coisas por vários lados, e procuramos de fato entender qual a verdade que nos rodeia. Seja ela qual for.

4 Comments:

Anonymous Fabíola Romão said...

Eu também acredito que o comportamento do público não seja apenas reflexo da safadeza nossa de cada dia. O público quer mais verdade. Gente real com seus altos e baixos.

2:20 PM  
Anonymous Lia Falcão said...

Muito bem lembrada a simbiose dos paradigmas de comunicação com as espectativas do povo. Dai saem as descartáveis (ou não!) "tendências" de comportamento. Verdade seja dita, também, Silvinho de Abreu escapuliu de uma boa mandando a tal da Bia Falcão pra Paris que a parta. Ficasse ela aqui, eu mesma a teria estrangulado. Já não aguentava mais o povo me chamar de Bia Falcão! Belíssimo texto, Leo.

1:26 PM  
Blogger abelhuda said...

"..burra demais pra ser levada a sério.." e desde quando aquela novela conseguiu ser levada a sério? patética demais.

os personagens, todos caricaturas. irritante demais.

5:36 AM  
Blogger Labirinto de intuições said...

Certamente
personagens bonzinhos mais estruturados na criação e, digo, mais desequilibrados no comportamento singular de seres imbuídos de formas diversas além da carne que os completa e a caneta que tenta os descrever.

10:46 AM  

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