07 junho 2006

Mundo Errado

No que se refere à idade das pessoas, costuma-se dizer que o que vale é o espírito. De uns tempos pra cá, tenho me sentido meio velho. Na verdade, caquético e ranzinza, pra ser mais preciso. O que me faz pensar que o problema sou eu, e não o mundo – pois é, tenho tido crises de humildade também.

Já escrevi neste espaço sobre o perigo de gerar expectativas sobre um filme, sobretudo adaptações (vide os posts Grandes Expectativas e A máscara apenas sorri), e tenho me flagrado meio intolerante com algumas das coisas recentes que tenho visto. Novamente, uma outra adaptação de quadrinhos, desta vez evidentemente blockbuster, X-Men 3 – O confronto final, de Brett Ratner. O que me chamou a atenção é que não há em torno do filme uma unanimidade negativa como no caso de Código Da Vinci, de Ron Howard – muito pelo contrário, muitos amigos meus, inclusive com gostos afins, gostaram muito do que viram. Enquanto via o filme, porém, não pude deixar de me aborrecer (muito!!!) com as costumeiras frases feitas e tiradas cômicas no meio de uma situação dramática significativa.

Mas todos já conhecem bem o gênero blockbuster de ação e sabem que isto faz parte. Então, por que o meu evidente desconforto? Bom, veio-me à cabeça um outro exemplo, este até mais blockbuster ainda: Tróia, de Wolfgang Petersen. O filme é, na opinião deste espírito antigo que insiste em falar, fuleragem do começo ao fim – com um notável intervalo, porém, que vale todo o sacrifício do resto do filme; uma cena esplêndida tanto do ponto-de-vista técnico quanto dramático mesmo: a fatídica batalha entre Heitor e Aquiles (vividos, respectivamente, por Eric Bana e Brad Pitt). Quem ainda não viu o filme e deseja saborear a surpresa não-existente do desfecho, pode pular o próximo parágrafo.

Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos (alguns diriam “depois de Jack Bauer”, talvez), imbatível em qualquer combate, se porta diante dos muros de Tróia, reivindica com ódio saindo pelos poros do corpo seu direito à vingança pela morte do seu irmão nas mãos de seu oponente mais habilidoso, Heitor. Este último, figura fundamental para a defesa de seu povo, sabe que o direito é lícito e que não tem outra escolha senão aceitar o desafio, mesmo sabendo estar caminhando para a morte certa: nenhuma criatura mortal teria a menor chance num duelo individual com Aquiles. De fato, é o que acontece: mesmo apresentando uma resistência admirável, Heitor é morto por um Aquiles ileso, no máximo um pouquinho mais suado.

O que é interessante notar é que nesta batalha não são feitas concessões: sem piadinhas, sem alívios, sem a mínima incoerência no sentido de dar as costumeiras esperanças ao público, muito embora este esteja aparentemente desesperado por elas. A cena é montada como deve ser: intensa, séria, definitiva, caminha numa única e inevitável direção. Ninguém, personagens ou espectadores, está a salvo, numa situação confortável. É isso que me fez pensar que valeu a pena pagar o ingresso e resistir ao resto do filme. Ponto pro Petersen (para Romero, talvez?).

Comparando com outros filmes do gênero, tipo X-Men ou, como já escrevi, Batman Begins (certamente um filme melhor do que todos os exemplos aqui citados), de Chris Nolan, vemos que a problemática se baseia nessa lógica, essa do conforto. É como se a platéia só pudesse ficar tensa até um certo ponto, a partir dali coisas ruins poderiam acontecer e ela poderia começar a babar e querer morder-se a si mesma, sei lá - o que equivaleria a sair da sala ou não indicar o filme a um amigo, prejudicando sua bilheteria.

Interessante como a imagem da arte está vinculada ao entretenimento, que por sua vez está vinculada ao conforto. Quando Picasso exibe para Braque a sua Les Demoiselles d’Avigon, pintura que inaugura o cubismo, este reage com nojo. Logo, ao observar e tentar entender melhor, percebe a beleza por trás da forma bizarra, e se torna o outro grande nome do estilo pictórico. O mecanismo de procurar atribuir sentido ao que a obra oferece termina dando a Braque uma possibilidade ímpar não apenas de se expressar, mas de entender o mundo por um outro ponto-de-vista, e de elaborar para si um outro meio de percepção de beleza.

Neste caso, um hábito de tentar ver algo de uma maneira mais complexa termina, ao contrário do que pensa a maioria, aumentando as possibilidades de apreciar uma obra ao invés de restringí-las. É claro que, numa outra chave de leitura, pode-se pensar o contrário: tudo que não seja minimamente complexo termina soando banal, lugar-comum, medíocre, raso e, portanto, ruim. Talvez seja isso que esteja acontecendo comigo, no fim das contas. Fico eu aqui, nadando contra a maré, achando que os filmes estão cada vez piores, os programas de TV cada vez piores, os breaks comerciais e outdoors cada vez piores, enquanto que, dentro da lógica “é disso que o povo gosta”, tudo isso termina sendo a inegável regra, e não a execrável exceção.

Aí fico sonhando com um mundo onde talento redunda em sucesso, onde a lógica é do compartilhamento e não da imposição, do respeito à diferença e não da obrigatoriedade da padronização, enfim. Um mundo onde a arte é feita sem frases feitas fora de contexto, sem melodramas desnecessários, sem o consumo acrítico de uma ideologia maliciosamente entranhada em cada peça de comunicação. Um mundo onde as pessoas consomem arte, e não apenas se distraem com ela.

E, é claro, um mundo sem rabugice tipo esta minha, enfim.

12 Comments:

Anonymous Rafael Araújo said...

Realmente essa cena de Tróia traz uma das melhores brigas da história do cinema, e olhe que eu sou fã dos filmes de Bruce Lee e Van Damme. O ingresso valeu cada centavo só por essa cena.

Outra coisa, Leo... Entre muitas outras críticas, muita gente reclamou da rapidez dos acontecimntos nas cenas de O Código Da Vinci. Mas aí eu pergunto: tinha outra maneira de fazer esse filme sem mutilar ainda mais a história do livro?
Eu acho que não, mas criticar é fácil.

10:23 AM  
Anonymous Diego Rocha said...

Leo Falcão em crise? Tá, eu tive uns flashes

dessa "so called" crise, mas não diria que se

trata de um espírito velho, mas de um espírito

em amadurecimento. Imagino como um espírito

adolecente, com toda o problemática da

adolecência.

Só registro aqui a minha raiva de X-3 em uma

cena. A mulher travando a porta do carro

enquanto Magneto passava. Desnecessário pra

dizer o mínimo.

Sobre a comparação com o surgimento do cubismo,

bem, ele não apareceu no meio da cultura de

massa. Picasso não esperava lucro e fama, como

muitos cineastas (que morrem pobres e dos quais

não ouvimos falar porque eles não buscavam

fama). Eu só não tenho certeza até que ponto os

envolvidos no processo cinematográfico o

consideram (ou o tratam como) uma arte.

Eu discordo desse comentário de que os filmes,

novelas, programas, comerciais e peças

publicitárias. Primeiro que isso soa como

generalização, segundo que gosto é muito

pessoal, e convenhamos que você não é

público-alvo para essas produções.

Ah, e se você encontrar o caminho para essa

Arcádia de que fala no final do texto me dá um

toque.

Abração,
-Diego

10:23 AM  
Anonymous Carolina Seabra said...

... esse mundo agente constrói

... o caminho cada um descobre o seu, guiando-se apenas pelo sentimento mais autêntico que houver em si e não, meramente, baseando-se em referenciais externos, submetendo-se a padronizações apenas pelo desejo de ser aceito.

mas é por esse último caminho que a maior parte das coisas vem sendo construídas... entendo isso como opção (nem sempre muito consciente).

9:30 PM  
Blogger Bernardo "garou" Queiroz said...

Eu por outro lado gostei de X3. Tem seus problemas, tanto como adaptação quanto em roteiro. Nada contra as tiradas mais cômicas (Já que isso faz parte do espirito dos comics originais), em particular quando se trata do Fera, e Wolverine na mão de alguns roteiristas. Seria impossivel fazer a adaptação alá sin-city (quadrinho por quadrinho...) por ser uma historia demasiadamente confusa. Prefiro X2, achei que o Brian Synger realmente fez diferença.

Sobre seu estado de velhice... hehe. Sei o que você quer dizer. :)

9:09 AM  
Anonymous d meira said...

apesar de todos os comentários ruins, eu achei o código um filme bom. e tenho dito.
tu é meio ranzinza pra filmes mesmo, mas acho que nem poderia deixar de ser, né?
e sobre a arte/conforto, o mundo precisa abrir os olhos. resta saber quem vai abrir os olhos do mundo. ele não parece querer ver.

7:24 AM  
Blogger Natty said...

Texto mais oportuno para o momento turbulento de faculdade que estou vivendo não havia!
A inteligencia das pessoas está sendo colocada em check, bem como sua capacidade de mais complexas interpretações. Já que tocou no assunto de que "é bom pq vende", te recomendo aqui uma leitura (digamos que um pouco técnica, mas esclarecedora) Dialética do Esclarecimento..ou..Eclipse da Razão..Theodor Adorno e Max Horkheimer respectivamente...
Bem vindo a Industria Cultural meu querido..onde a cultura do povo é tida como mercadoria..subestimando e atrofiando a capacidade de estética (aqui conotado como sentidos-visão, audição, percepção-..se quiser te explico melhor isso).
Quando atrofiada a estética, junto com ela perdemos o controle de saber o que é bom e o que é imposto a ser bom!
é isso aí!
há braços

12:27 AM  
Blogger Leo Falcão said...

Hmm... Tá, conheço os textos, e pra ser sincero, me aborrece um pouco o radicalismo do discurso de Adorno e Horkheimer. No caso, acho que há um autor que equilibra melhor a posição ideológica da Escola de Frankfurt (certamente importante para a discussão sobre indústria cultural), que seria o Walter Benjamin.

Mas a proposta deste texto era levantar as questões éticas de forma didática e pessoal - não gostaria de mover a discussão de volta a Frankfurt, cujas idéias (não as intenções), na boa, me parecem ultrapassadas. Neste caso, alguns textos clássicos de Eco, Panofsky e Morin me parecem mais adequados. Bom, fica aí a sugestão.

De toda forma, acho a sua paixão pelo tema muito bacana - são questões necessárias a qualquer profissional de comunicação, e certamente é algo que deve estar presente nas nossas mentes desde a graduação.

E vamos nos falando. Um abraço,

2:42 AM  
Blogger Labirinto de intuições said...

Discurso poético, informal, estético, crítico, de humor fino, finíssimo. Reflexivo e cortante em seus aspectos, sem falar na consistência... Para uma espectadora que gostou de X-men e continuou a gostar depois da leitura, amou mais a dispersão dos sentimentos pulsantes.

12:08 AM  
Blogger Lu said...

Bem.. eu acho que quando você vai ao cinema ver um filme como X3 é preciso ter em mente que certamente vão haver muitos clichês e frases feitas. É até divertido ficar completando o final delas antes dos personagens :P
Que velho que nada, Leo.. é compreensível que alguém como você não consiga não criticar o mundo.. ele anda por caminhos tortos mesmo, mas sempre há as excessões e é nelas que devemos nos guiar :)

6:50 PM  
Anonymous Lia Falcão said...

Hmmm. Ranzinzice nué velhice...Humpft!

2:42 PM  
Blogger abelhuda said...

bem, eu acho que não tenho mais paciencia para cinemas (principalmente multiplex). não sei se são as cadeiras, as pessoas que só querem um motivo pra comer pipoca ou as conversinhas paralelas. mal o filme começa e eu não vejo a hora de sair daquela sala. talvez até um pré-sofrimento por um possível filme ruim e sem graça.

não vi superman o retorno, cars, não tenho mais nem paciencia pra ver desenho animado, não vi nem li o codigo da vinci (e tô cagando pra isso), sou da turma que acha o dan brown um farsante e já não acho mais que a pessoa tem que se abrir pra todos os formatos e assistir conformada mais um filminho de uma mega produção engordando ainda mais sua bilheteria assinando embaixo o interesse por essas produções mercenárias, só pra dizer que viu ou poder formar uma opinião sobre aquilo, quiçá tentar tirar alguma novidade ou detalhe cinematográfico que preste.

mas bem, acho que de chato e ranzinza todo mundo tem um pouco, apenas há momentos em que elas se sobressaem demais. e acho que agora foi o meu caso. mas isso passa. ou não.

6:20 AM  
Anonymous Anônimo said...

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2:19 PM  

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