18 setembro 2009

Estudos sobre a Tristeza - cap. 3: de uma certa compreensão das coisas

TOURO E CAPRICÓRNIO


Era justamente uma liberdade total de espírito o que ele mais admirava nela. A única coisa nela que ele próprio não tinha. Todo o resto era bem parecido, ainda que se manifestasse de formas ímpares. Um certo número de afinidades intelectuais, uma certa sensibilidade artística aflorada, um certo senso de humor sarcástico, uma dose errada de apego às próprias idéias. Tinham poucas pretensões financeiras: ela queria poder comprar seu ócio, e ele apenas um pouco de paz interior, mas não muita. E os dois queriam continuar trabalhando. Muito. E tudo o mais se diferenciava pelas trajetórias anteriores (e, posteriormente, posteriores) que eles seguiram.


Foi uma história infelizmente curta e felizmente intensa, ou vice-versa. Tudo para eles podia ser ambíguo, inclusive isto. Sabe-se que, por mais desconfiados da sorte que ambos fossem, não conseguiram escapar das tantas afinidades instantâneas e atingiram um nível raro, para não dizer incomum, de felicidade. E foi uma felicidade que dava gosto de ver (diziam alguns dos seus amigos) e, mais ainda, de viver. Ela se divertia em pensar que se tratava de um alinhamento dos astros, tanto que ele passou a prestar atenção em horóscopos. Muito rápido, eles passaram de uma forte amizade para um amor declarado, ainda que informalmente, advindo de uma vontade imediatamente eterna de estarem juntos.


Mas por contingências do destino, eles se distanciaram, a princípio fisicamente, e depois aquele sentimento mútuo equilibrado começou a pender para um lado, causando um afastamento maior. Aquela felicidade plena, viciante a tal ponto que tinha feito com que eles esquecessem suas desconfianças, parecia de repente irreconhecível, irrecuperável, inexistente. E houve um fim não-declarado para algo nunca de fato iniciado. E por se amarem tanto, eles tentaram se compreender, se respeitar e se afastar. Para algumas pessoas, aquilo era uma pena. Para eles, era a ordem natural das coisas.


Ele, por sua história e característica, não conseguiu se desligar. Não achou o botão. Ela seguiu sua busca por sua conta própria. E continuou usando e explorando sua liberdade de forma íntegra, como sempre fez, encarando inclusive as consequências disto — pessoa notável, ela. Ele, por sua vez, seguiu na sua inércia produtiva. Não tinha muita escolha e já conhecia seus processos o bastante para saber como se resgatar — ao menos como tentar. Eventualmente, eles se encontravam, e ele tinha a impressão de já estar sobrando na vida dela, e que não havia o que ele pudesse fazer que pudesse trazê-la de volta, por melhor ou pior que fosse. Ele sabia que seu espírito era livre, e que ia demorar para que os dois se unissem, se é que isso ia acontecer. E o tempo, nestes casos, pode tanto curar quanto decretar um estado terminal. Também o tempo era ambíguo para eles.


Ele, racional como ela, resolveu então sistematizar de forma diferente. Em não conseguir se libertar da percepção dos detalhes, da própria presença em espírito, da lembrança e do desejo, chegou a algumas conclusões. Uma primeira é que a felicidade plena, segundo fontes confiáveis, não estava reclusa a uma concepção linear do tempo, tendo ela existido independente do que se tornou depois; não faria sentido, portanto, circunscrevê-la num momento específico, mas integrá-la à totalidade das coisas. Uma segunda conclusão é que a felicidade, plena daquele jeito, havia se restringido a poucos momentos no tempo linear. O que o levou a uma terceira conclusão, colocando a felicidade não como uma regra, mas uma exceção. Um desdobramento disto foi a hipótese de que poucas pessoas teriam chegado ao nível de felicidade que eles chegaram, logo, numa concepção não-linear do tempo, ele deveria se sentir vitorioso por ter conseguido.


Ele decidiu então que, como lembrança ou vaga esperança, amizade ou contraparte, ela faria parte da sua felicidade, e não da sua tristeza.


Isto não tornou sua vida mais fácil. A razão tem lá seus limites. A tristeza, tendo sido estabelecida como regra geral da sua vida, frequentemente lhe fazia recordar de que ele não detinha mais a felicidade. Sentimentos correlatos, como a esperança, tornavam o processo mais difícil. Mas depois de muita prática, ele acabou se acomodando e tocando a vida como dava.


Ela, no entanto, continuava existindo, como sinônimo de felicidade. E mesmo tendo aceitado a tristeza como companheira, ele se pegava pensando muito mais na outra, ela, a felicidade em pessoa. No início, sentiu-se um pouco culpado de estar assim, traindo sua única parceira constante. Depois, ele levou a si mesmo na esportiva e passou a aceitar sua efemeridade, retroalimentando a esperança de um dia voltar a ser plenamente feliz. Foi a forma como ele conseguiu se manter fiel à tristeza: buscando eternamente a felicidade.


Por isso ele continua checando o horóscopo todos os dias.

6 Comments:

Blogger Aquela Que Escreve said...

...e todos os signos continuam buscando, eternamente, a felicidade.

6:18 AM  
Blogger ceciliaurioste said...

Leo, você que me ensinou a ser verdadeira e pessoal na arte. E é o você sabe fazer melhor :)

12:28 PM  
Blogger amandagabriel said...

que boniteza!

3:35 PM  
Anonymous Anônimo said...

felizes os que viveram pra contar tamanha intensidade...

Carmen

7:33 PM  
Anonymous Roberto Menezes said...

Léo, amigo : Por que nós, homens nunca encontramos o tal botão libertador que nos libertará de um projeto amoroso fracassado ? Por que elas desfazem tudo com mais facilidade e tocam a vida ? Por que nós prolongamos a nossa fidelidade (que nada tem a ver com a hipócrita instituição "fidelidade")repito,prolongamos a nossa mania de fidelidade juntando-nos desta vez à tristeza, e continuando para sempre leais a ela. Esse me tocou pessoalmente. E o café ficou amargo. Como o último beijo que dei nela. O 2 e o 1 comento depois. Vou parar por aqui porque o amargo tingiu de cinza até minha alma. Fui! Roberto Menezes

8:28 PM  
Anonymous Roberto Menezes said...

CORRIGINDO O COMENTÁRIO NA ÚLTIMA LINHA ANTES DO MEU NOME:
!...tingiu de cinza até minha aura."

Era iisso que eru queria escrever, já que como o replicante não tenho alma. Mas na condição de errante me deram a chance de uma aura, que nunca pedi e ,muito menos, exigi. Abraço. Roberto Menezes

8:33 PM  

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