11 fevereiro 2009

Pequenas expectativas

Uma pequena reflexão sobre trailers, peças promocionais e quadrinhos

Infelizmente, o cinema tem perdido pra ligeiramente alucinada quase-rotina de trabalho, o que diminui minha presença dentro das salas. No entanto, semana passada tive que tirar uma tarde para assistir dois filmes em sequência, escolhidos para relatório por meus alunos na Universidade Católica. Sempre interessante a experiência da sala, por mais que ainda existam pessoas extremamente mal-educadas que atendem o celular logo atrás de você e quando alguém do lado reclama a tal pessoa replica com um estúpido "os incomodados que se mudem". Falta de noção é mesmo um problema social, mas tudo bem, vamos em frente.

Outra oportunidade é verificar quais os filmes que estão por vir, já que ainda não me habituei completamente a seguir feedreaders da vida nem buscar na web as peças promocionais dos próximos lançamentos. Acho que este tipo de trabalho já esteve melhor, por sinal, visto que campanhas excepcionais já venderam filmes muito ruins — e o contrário normalmente é remediado por um a curiosidade cinéfila. Por outro lado, alguns trailers são muito sinceros ao passar o "espírito" da produção vindoura.

Já que falei em espírito, começo justamente pela adaptação do universo do grande Will Eisner, figura fundamental para a história das histórias em quadrinhos. O filme "The Spirit", homônimo à série protagonizada pelo mais famoso personagem do quadrinista, foi adaptado para as telas pelo também quadrinista Frank Miller. A estética, de alto contraste e cores rebaixadas que enfatizam alguns elementos com cores mais fortes, já se revela como um desdobramento do estilo visual estabelecido por "Sin City" (2005), dirigida por ele e por Robert Rodriguez. Pelo trailer, inclusive, dá pra notar que a mesma afetação se repete, com frases de efeito soando como clichês e ação hiperbolizada pelo próprio universo de procedência da história — ao comentar "Sin City", certa vez, destaquei que essa afetação se dá porque o cinema tem um dado de realidade que as HQs não têm, mesmo quando o contexto dramático é fantasioso: algo de fato acontece na frente da câmera, que é capaz de tornar perfeitamente distinguível um texto aparentemente falado de um texto evidentemente escrito. Acho que a elegância de Will Eisner em descrever a decadência merecia um tratamento um pouco mais sofisticado, enfim.

Parênteses: com todo o respeito ao trabalho de Frank Miller, sobretudo nos quadrinhos dos anos 80 ("A queda de Murdock", "A volta do Cavaleiro das Trevas", "Batman - Ano 1", etc.), confesso que ele tem me decepcionado nas suas recentes incursões. Acho que ele ocupou um posto de consagrado e está apenas se permitindo americanizar histórias clássicas ("Os 300 de Esparta") ou encher de ideologia cenários quase amorais ("Holy terror, Batman!"). Tudo muito longe daquelas narrativas intensas que flertavam com o underground de outrora.

Voltando à linha de raciocínio, agora há pouco passei por um multiplex que exibe dois displays com os personagens principais de "Watchmen", de Zack Snyder — outra adaptação de uma célebre série de quadrinhos, escrita por Alan Moore (que ainda está merecendo uma boa adaptação para o cinema) e desenhada por Dave Gibbons. As frases promocionais, escritas ao lado de cada personagemm, tentam resumir suas essências dentro da história. Uma pena que fazem isso de forma tão mecânica que todos eles, dotados de extrema profundidade na obra original, terminam soando um pouco estereotipados. Parte do jogo de divulgação, infelizmente. Esperamos que isso não reverbere no filme, muito embora, a julgar novamente pelos trailers que vi, esse tipo de concessão  tenha se tornado a regra.

Em suma, isto tudo pra dizer que, é claro, vou tentar assistir a esses filmes — essas histórias fazem parte da minha história, sejam como referências artísticas, sejam como obras que me tocaram enquanto leitor. Mas vou manter minhas expectativas em baixa — já me decepcionei muito tendo adotado a postura contrária. Neste sentido, só tenho a agradecer à forma rasa como a propaganda tem tratado os filmes. O que vier é lucro...

2 Comments:

Anonymous Missionário José said...

Essas adaptações me matam...

6:39 PM  
Blogger Verbena Hybrida said...

Falando-se de filmes adaptados de quadrinhos...

O primeiro que vemos achamos tosco e estranho, principalmente estas "afetações". Mas de certa maneira, passamos a incluir este modo de apresentação como parte integrante dos herois.

Ou seja, adaptações de quadrinhos, ame ou odeie.

No caso de Watchmen, eu saí do filme sedenta dos personagens, que foram mostrados de forma rasa e quase imbecil. Em outras discussões, se chegou a conclusão que o filme teria que ter umas 6h para que, de fato, fosse bem contado, assim como os Sr. dos Aneis e Matrix (este último eu ignoro).

9:20 AM  

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