17 julho 2009

Estudos sobre a Tristeza - prólogo

A CARTA QUE EU NÃO DEVERIA ENVIAR

Nesta,



Pensei em não escrever nunca mais. Pensei em ser o rapaz bonzinho que sempre me submeti a ser, ora por amor, ora por mania de submissão mesmo, ora por nunca me achar grande coisa e portanto me considerar mais útil sendo parte da vida dos outros do que da minha própria. Acho que isso sempre terminou sendo muito confuso na minha cabeça. A coisa é que acabei de ver uma história de amor muito piegas porém muito bela e apresentada de forma bastante imaginativa (algo que por si me instiga) e como de costume tendo a procurar alguém pra compartilhar algo muito bom que sinto. Afinal de contas, algo de bom não serve pra mim. Eu não mereço. Não sozinho. Hoje eu tive essa nítida impressão.


A gente construiu algo muito bonito, posso ousar dizer. E a gente estava construindo algo melhor ainda, posso ousar dizer também. Mas parou no meio, infelizmente. Por escolha sua e por respeito meu, que no fim das contas, trata-se de uma escolha. Enfim, tudo é compreensível, era um espaço que você — e acredito que eu também — precisava, pra colocar o juízo no lugar e tocar a vida em frente. Sair da maldição da transição e pensar com clareza. Pensar um pouco em si, essa criatura tão esquecida no fundo da cabeça.


O fato é que a distância metafísica (aquela maior que a física) de fato surtiu um certo efeito, mas não funcionou completamente, feliz ou infeliz mente. Eu me distraí, mas não me esqueci. E aí me abandono à escrita numa noite de quinta como se fosse uma noite de sábado, entregando-me à quarta taça de vinho despejando poemas em prosa, ou prosa com intenção poética, que parece ser o máximo que posso extrair. 


É fácil falar que o tempo vai dizer. Difícil é admitir que o futuro está em aberto, e que o presente é agora, e que o passado já foi, já deu, morreu, por menos linear que seja o tempo. Eu descobri recentemente que me arrependo apenas do que fiz de errado ou do que não fiz de certo. Do que me trouxe dor, por escolha ou permissão minha, eu não me arrependo. Acho que isso diz muito de mim. 


Percebi que estou morrendo e que não quero perder mais nada da vida. Mesmo que seja sozinho.

Mesmo que seja com alguém.


Desejo

que você seja feliz

como o poema que você deseja ser

e o poema que eu

Desejo

escrever

.


Atenciosa e sinceramente,



(um personagem a ser inventado)

15 Comments:

Blogger Carlos Nealdo said...

Este comentário foi removido pelo autor.

10:19 AM  
Anonymous Alexandre da Maia said...

Adorei o texto, Leo. Muito tocante. E vamos discutir a não-linearidade do tempo.

Abração

10:30 AM  
Anonymous http://tapadehumor.blogspot.com said...

Parabéns pelo texto, Léo.
Abraços.

10:34 AM  
Blogger dfenelon said...

...la verdad es que la vida ya es una perdida de tiempo, y aun perder tiempo en ella seria una perdida de sensatez.........NO PIERDAS NADA, CON O SIN!

Muy bueno el texto o sea LA CARTA!

11:18 AM  
Blogger Jéssica said...

é pura impressão, ou de fato seu texto é uma alegoria?
suas metaforas tomam conta?
adorei o texto..
indicação de um conhecido.
abraços

11:41 AM  
Anonymous Vanessa said...

Gostei muito do texto, senti-me parte dele também.
Abraços,
Vanessa

1:06 PM  
Blogger Carmen said...

Você tocou num assunto impossível de se desdenhar... "A carta" é escrita milhares de vezes por dia, pensada, imaginada ou simplesmente sentida... Não sei nada de arte, mas gostei de contemplar...

1:08 PM  
Blogger bárbara said...

"me considerar mais útil sendo parte da vida dos outros do que da minha própria"

já diria Madonna: "I´m not sorry. It´s human nature!"

Muito bom! Parabéns!

=*

1:22 PM  
Blogger Aquela Que Escreve said...

Onde se encontra uma realidade comum: "sempre me submeti a ser, ora por amor, ora por mania de submissão mesmo, ora por nunca me achar grande coisa e portanto me considerar mais útil sendo parte da vida dos outros do que da minha própria."

Cartas foram feitas para serem enviadas. No mais, nada mais importa.

2:19 PM  
Blogger Carol said...

"Eu descobri recentemente que me arrependo apenas do que fiz de errado ou do que não fiz de certo. Do que me trouxe dor, por escolha ou permissão minha, eu não me arrependo. Acho que isso diz muito de mim."

Por um breve momento achei que o personagem já existia... Eu o reconheceria em mim.

Adorei o texto, Leo.

10:30 AM  
Blogger d meira said...

bravo!

1:13 PM  
Blogger Flávia said...

Este comentário foi removido pelo autor.

1:32 PM  
Anonymous Allan Machado said...

O presente é o autor do passado...
e tenho dito! Empolguei, desculpa!

8:04 PM  
Blogger Fabíola Melo said...

"É fácil falar que o tempo vai dizer. Difícil é admitir que o futuro está em aberto, e que o presente é agora, e que o passado já foi, já deu, morreu, por menos linear que seja o tempo."

A não-linearidade do tempo, que tanto nos faz ir e voltar...

Belo texto!

1:52 PM  
Blogger amandagabriel said...

nunca enviada ou extraviada?
chegou atrasada, amassada, sem remetente.

5:55 PM  

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