01 janeiro 2006

Ferraris, replicantes e frankensteins

Jean-Claude Carrière é um roteirista no sentido mais expressivo. É um cara que parece não ter pretensões de dirigir, só escrever histórias, submetê-las às visões de vários diretores. Já trabalhou com Buñuel, Brook, Forman e muitos outros. Além disto, é um ensaísta, com um estilo bem particular, sem uma construção linear de raciocínio – porém capaz de deixar bem claro sua opinião sobre os assuntos que se propõe a discutir.

Em seu “A linguagem secreta do cinema”, ele coloca uma questão que, no fim, diz respeito à direção. Defendendo que a história deve ser contada de maneira simples, para envolver ao máximo o público com a trama, planos inusitados e cortes vertiginosos deveriam ser evitados, pois chamariam a atenção para si, ao invés de continuar expondo a narrativa de forma clara e fluida. É como um ator entrando com uma peça excessivamente extravagante no meio de uma cena realista de uma peça de Tchekov. Aí, haveria uma quebra de estilo, que aqui nesta coluna certa vez já caracterizamos como mau-gosto.

Até aí, tudo bem: enquanto quebra de estilo, a inserção de planos e seqüências menos “comportadas” num filme que aponta o contrário resultaria, a princípio, num problema de fluência narrativa. No entanto, Carrière termina levantando uma outra questão, que diz respeito a linhas mais abrangentes de caminhos de estilo. Toda a história pode ser contada em planos simples? É só isto que importa? O espectador deve se interessar exclusivamente pela história, e não pela exploração dos limites de sua percepção? Ou será o contrário: dada a nossa maturidade de leitura audiovisual, precisamos de estímulos cada vez mais complexos, extremos e totalitários, ampliando mais e mais a nossa capacidade de apreciação estética, e com ela, a absorção plena de uma narrativa mais expressiva, em aspectos cada vez mais diversos?

Voltei minha atenção, como sempre, para experiências mais ou menos recentes, e cheguei à conclusão (nunca necessariamente correta) de que há um aspecto no Cinema que conduz essa problemática: a montagem. Justamente por ser tão específica da gramática audiovisual, chegando muitas vezes a ser a linguagem cinematográfica em si, a montagem foi um dos aspectos que mais se complexificou à medida que a indústria fílmica foi se desenvolvendo e conquistando o mundo. Basta pensar nos planos fixos da sua gênese (das fotos em movimento dos Lumière ao teatro filmado de Méliès) e no vertiginoso ritmo de montagem dos filmes e videoclips atuais. A diferença de ritmo, estilo e significação é evidente.

Interessante que, quando estava relendo alguns trechos do livro de Carrière, foi justamente na época do Oscar, cada vez mais irritantemente previsível. No entanto, sendo expressão máxima da indústria cultural do Cinema, esta cerimônia pode servir como um prato cheio de análise e tendências de mercado. Dos indicados ao prêmio de melhor montagem, havia três favoritos: “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, montado por este senhor magistral e já citado aqui Walter Murch; “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, editado pelo Daniel Rezende (antítese do Murch); e, por fim, o grande vencedor, “Senhor dos Anéis – o Retorno do Rei”, de Peter Jackson, cuja montagem ficou a cargo da dupla Annie Collins e Jamie Selkirk.

Bem, na minha visão, parece-me que há diferenças fundamentais entre as três peças – diferenças de estilo mesmo, que podem até clarear alguns pontos da nossa discussão até aqui. Para guiar meu raciocínio, resolvi criar metáforas para expressar as três diferentes formas de concepção da montagem. O que me veio à cabeça foram três máquinas (na verdade, três sistemas automatizados) em particular: uma Ferrari, um Replicante e o Frankenstein.

A Ferrari, para aficionados por Fórmula 1 como eu (sim, apesar de não ser muito ligado em carros, resisto bravamente ao Galvão Bueno e não perco uma corrida), consiste numa máquina próxima da perfeição, um organismo quase infalível de funcionamento cuja performance é confiável e extremamente versátil. Neste tipo de máquina, não há um aspecto específico que salta forçando a atenção para si (não tem o motor mais potente, nem o melhor sistema de largada e muito menos a melhor composição dos pneus), mas o equilíbrio é a tônica, fazendo com que tudo funcione sincronicamente de modo a minimizar as falhas e aprimorar o resultado final. Nesta categoria metafórica, encaixa-se “Cold Mountain”, ou melhor, o grande profissional de cinema que é Walter Murch. À parte um certo melodrama por trás da história, o filme não tem uma montagem espetacular, não carrega em si a cara de inovação e ousadia própria da oficial mentalidade semi-adolescente que dita as percepções midiáticas atuais. Ao contrário, a exemplo do que propunha Carrière, nos proporciona belas seqüências, comunicadas na sua plenitude, priorizando justamente a história e seus sentidos dramáticos. Ganha pelo equilíbrio, pela sutileza e sofisticação dos cortes. Domínio técnico não é o bastante, precisa de muita sensibilidade narrativa – coisa que o Sr. Murch tem de sobra.

O Replicante é uma referência ao melhor filme de Ridley Scott (creio que já disse isto nesta coluna), “O Caçador de Andróides” (“Blade Runner”, 1982). No filme, o termo se aplica a andróides ultra-avançados, construídos para serem escravos dos humanos. Para tanto, foram feitos praticamente à sua imagem e semelhança, exceto por apresentarem aptidões físicas bem mais apuradas e teoricamente serem desprovidos de emoção. Apesar de evidentemente destoantes dos humanos normais, sua semelhança básica – tão organicamente integrada com a essência humana de buscar a liberdade, ou o livre arbítrio, que a teologia judaico-cristã define como principal diferença entre os homens e as demais criaturas – os impele a usar de suas habilidades peculiares para tentarem se fundir ao universo que foram colocados à parte. Têm essa característica, portanto, de buscar o essencial da existência através de atributos espetaculares – numa disposição, inclusive, de se extinguir no processo (existe algo mais humano que isto?). Transpondo para a nossa discussão, classifico como “replicantes” os filmes que foram concebidos dentro de uma estética “espetacular”, porém que trazem em si essa clara busca pela essência, numa narrativa concisa e plenamente integrada ao estilo. Vêm à minha mente filmes de Tarantino como “Pulp Fiction” (1996?), Kalatozov com o excelente “Quando voam as cegonhas” (“Letjat zhuravili”, 1957) e, mais recentemente, o “Cidade de Deus”, do Fernando Meirelles. Isto porque a estética assim chamada “publicitária” (planos precisos e expressivos, ritmos de edição variantes, porém tendendo a algo mais dinâmico, e outros aspectos estilísticos impecavelmente planejados e dispostos na tela), está, na minha modesta opinião, plenamente integrada à estrutura narrativa, ajuda a contar a concha de retalhos narrativos que se monta para formar uma história única e consistente. O Daniel Rezende conseguiu apresentar um estilo bem particular que se integrou perfeitamente à função narrativa que a montagem deve desempenhar, muito embora disto muitos pareçam procurar esquecer hoje em dia.

Ao grande vencedor da noite, o óbvio “Senhor dos Anéis – o Retorno do Rei”, coube o posto de Frankenstein da nossa discussão. Isto porque a montagem, evidentemente espetacular, não só pelos efeitos visuais mas também pelo seu próprio estilo (o que é escancarado nas seqüências de batalha), contrasta com o compromisso de contar uma história complexa e conhecida. É justamente no ponto narrativo que peca a montagem da adaptação de Tolkien, o que é expresso numa das piadinhas iniciais de Billy Crystal na própria cerimônia do Oscar: “Nada mau, onze indicações, uma para cada final”. Há, então, uma quebra de estilo do que se propõe o filme e do que se é imposto como estilo visual. A narrativa deixa eventualmente sua coesão para dar lugar a um estilismo exacerbado, muitas vezes não contribuindo para a clareza dramática da história. Assim como filmes deste tipo, a figura do personagem de Mary Shelley é algo apenas próximo de um ser humano, com alguns aspectos funcionais, porém, como um todo, inconstante, cheio de quebras (tanto no aspecto externo quanto no funcionamento do seu próprio organismo).

O engraçado disto tudo é que, por aquela problemática colocada por Carrière no início, filmes “Ferrari” seriam os mais fiéis à linguagem cinematográfica enquanto forma narrativa de arte. No entanto, é preciso levar-se em conta nosso contexto histórico contemporâneo, sobretudo nosso atual ambiente midiático mesmo. Nele, nossos sentidos pedem algo próximo do limite, rápido, expressivo, enfim, espetacular. Neste sentido, há mais espaço para Replicantes e, principalmente, para “Frankensteins”, já que o conteúdo parece já não ter mais tanta importância em relação ao estilo.

Um pena, porque é justamente entre os filmes com montagens “Ferrari”, não-espetaculares, que encontramos maior consistência narrativa. E independente de qualquer outra coisa, nelas está contida a consciência que qualquer profissional de Cinema deve ter: a obra é o que importa Tudo deve estar a serviço dela, e não se deve ressaltar um aspecto em particular. Neste sentido, se uma montagem replicante se mostra necessária ao filme, então que seja feita uma montagem replicante. Senão, então é porque a própria história pede pra você segurar a onda e não destilar estilo sem razão. Melhor ser uma Ferrari comportada do que correr o risco de se tornar um Frankenstein. Afinal, nem sempre é um piloto brilhante quem temos que ajudar a cruzar a reta de chegada. E todo piloto merece ter ao menos essa chance.

Melhor então contar com a melhor máquina possível.

(publicado originalmente no Webzine Vitrolaz)

1 Comments:

Blogger Chris said...

Caro Leon,
Foi muito gratificante e engrandecedor ler essa sua narrativa sobre Ferraris,replicante e Franksteins.... Como vc, também sou professor, só que de Produção cinematográfica, profissão que exerço há mais de 40 anos...concordo em gênero,numero e grau de seu ponto de vista sobre arte...pois apesar da praticidade da minha matéria, ela é parte integrante do todo da arte cinematográfica..... Estarei dando uma oficina de produção neste ano de 2010 no Festival de cinema de Recife....ficaria muito feliz se pudesse conhecê-lo pessoalmente....
Chris Rodrigues, autor do livro O CINEMA E A PRODUÇÃO.

6:22 PM  

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