<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403</id><updated>2011-11-14T12:48:02.353-04:00</updated><title type='text'>LEITOR ÓTICO</title><subtitle type='html'>Uma tentativa de percepção estética da realidade, o cinema como guia da visão, mas não restrito a si mesmo, assumindo sua abrangência às outras formas de arte, na verdade, sua proveniência, dependência e relação simbiótica com cada uma delas. Enfim, mais uma maneira de enxergar as coisas...</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>52</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-759911028648708811</id><published>2010-05-17T16:48:00.002-04:00</published><updated>2010-05-17T16:49:37.457-04:00</updated><title type='text'>Estudos sobre a Tristeza - cap. 6: da impossibilidade</title><content type='html'>TERCEIRA PESSOA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Henrique foi uma criança que existiu apenas por alguns minutos. Sua mãe sempre brincava de projetar futuros para ela, e sempre incluía uma figura como Pedro Henrique nos seus planos. Invariavelmente, sempre ao conhecer rapazes significativos, não era propriamente Pedro Henrique que nascia, mas outros tipos de Pedro talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Henrique era diferente dos outros Pedros possíveis porque seu pai, que acidentalmente passou pela vida de sua mãe, não inspirava planos. Tinha notadamente um passado efêmero, tão efêmero quanto a própria vida parece as vezes — como no fim foi a vida de Pedro Henrique, ao menos. E por essa característica, a mãe via o pai como uma figura ora frágil, ora libertadora na sua vida. E os poucos planos que fez para ele eram de curta duração, efêmeros como aquela coisa que a atraía nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém o amor entre os dois, apesar de declaradamente oposto à propagação por tempo, espaço, estatuto ou novas criaturas, era tão forte que fez com que a mãe parisse esse Pedro específico, o Henrique, ao menos por alguns minutos. Ela o concebeu, o viu e o nomeou. E era um bom nome, Pedro Henrique. E era uma criança que, apesar das instabilidades dos pais, era feliz, como toda criança potencialmente o é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao receber a notícia da chegada de Pedro Henrique, o pai sorriu sutilmente, gostou do nome e do menino, de cara. Até voltou a cogitar ser feliz chamando uma criança de sua, e aceitou Pedro Henrique como filho — muito embora já soubesse que ele já tinha voltado a não existir. Mas naqueles poucos minutos em que o pai o chamou de filho, Pedro Henrique cresceu e chegou até a adolescência, e fez seu pai recordar do seu avô, que nunca chegaria a conhecer, chegando a se materializar ou não. De toda forma, Pedro Henrique criou uma identidade e passou a trocar idéias com sua mãe e seu pai. Não chegou a escolher uma carreira, mas sabia que no fundo seus pais o amariam e o apoiariam sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por amor à sua mãe, o pai tanto conviveria com a presença ou ausência de Pedro Henrique, até que o amor pelo filho se tornasse eventualmente autônomo. O pai também era dado a planos, porém menos pragmáticos, diferentes dos de sua mãe. Mas, assim como ela, também estava aprendendo a viver sem eles. Mas Pedro Henrique deve ter ficado feliz em saber que existiu por puro amor, e não por conta de um plano, ou de um acidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Henrique se deu conta de que havia sido criado e de que seria lembrado, como toda coisa que existe. Ainda que por mais alguns minutos, ainda que nas recaídas por planos, ainda que nas projeções de certo tipo de felicidade que, mesmo não sendo o tipo eleito por seus pais, não deixava de ser felicidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-759911028648708811?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/759911028648708811/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=759911028648708811' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/759911028648708811'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/759911028648708811'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2010/05/estudos-sobre-tristeza-cap-6-da.html' title='Estudos sobre a Tristeza - cap. 6: da impossibilidade'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-7424267983391594707</id><published>2009-11-18T10:32:00.004-04:00</published><updated>2010-05-11T11:21:13.963-04:00</updated><title type='text'>Estudos sobre a Tristeza - cap. 5: de sacrifícios</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;FURTO INVOLUNTÁRIO&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;É claro que eu já ouvi falar no sorriso da Rita.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E quem não ouviu? Poucos, provavelmente. Isto porque há tempos não pisa na Terra um sorriso tão célebre, tão capaz de representar todos os outros sorrisos, ao mesmo tempo em que os faz sumir. Um sorriso a ser estudado, pois não é um sorriso de boca, que restringe a uma pequena região do rosto uma expressão tão abrangente, mas um sorriso de olhar, rosto, alma. Sorriso que contagia e espanta. Que tranqüiliza e provoca. Bate e assopra. Enigma que não se limita à mera expressão da alegria, mas que também pode esconder uma profunda tristeza, e  que ainda pode significar fragilidade total ou domínio absoluto. Quem pode saber qual emoção o sorriso da Rita esconde? Ou inspira? Porque ficam todos tão deslumbrados que não são capazes de ler através dele. Ou além dele. Impressionante como algo pode permitir nenhuma e tantas leituras ao mesmo tempo. Obra-prima de arte às avessas. Paradoxo retórico, para dizer o mínimo. Paraíso poético, para dizer o máximo. Sorriso portanto como diz a canção, capaz de levar consigo não só o sorriso, mas também o assunto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E assim era o sorriso da Rita. Mas a Rita, nos seus ataques de humanidade, curtia lá os intervalos do seu sorriso. Era quando sorrisos mais banais tentavam se aproximar, e eventualmente conseguiam. Num desses, a Rita bem desprevenida e o sorriso quase hibernando, chega um sujeito banal e consegue ultrapassar o primeiro perímetro. E se torna muito caro à Rita, contentando-se em estar perto, apenas contemplando seu sorriso de uma posição privilegiada em relação aos demais.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Um dia, ou melhor, uma noite, a Rita caminhava com o seu caro banal pelas ruas do Centro, quando foram abordados por uma interferência na existência, que lhe pediu o pouco dinheiro que tinham. E como se era pouco, os desânimos se exaltaram, e sobrou um projétil no peito banal que acompanhava a Rita. Como de costume, a interferência rapidamente some após cumprir a sua função, a de interferir. Pragmaticamente, a situação se configura como trágica. Porém, no fundo, um sonho banal se realiza: morrer nos braços da Rita.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Ele dirige um último olhar às lágrimas da Rita, quase tão belas quanto o seu sorriso. E lhe faz um último pedido, acreditando estar diante de uma morte banal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;“Se é a última coisa que vou ver nessa vida, quero levar comigo teu sorriso.”&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Rita, generosa que é, reuniu suas energias para suplantar a dor e olhar fixamente o rosto que começava a dispersar diante de si, e então, dirigiu-lhe um último sorriso. Quem não estava lá disse ter sido o mais intenso, aquele último sorriso da Rita. Quem estava lá não viu nada. Mas o moribundo banal se deu por satisfeito, expressando-se num leve sorriso antes de se entregar à morte. Levar consigo o sorriso da Rita é privilégio de poucos, talvez de únicos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Mas aí aconteceu uma coisa inesperada: o sujeito banal lá, tendo ido embora com o sorriso da Rita, deixou a Rita assim, desprovida de sorriso, com esse ar melancólico constante, distante, belo, é verdade, porém nem chegando aos pés, muito menos ao rosto do que era antes. Porque antes pelo menos, tinha a opção do sorriso. Agora não. Era só tristeza e, uma vez ou outra, lágrimas.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Sempre disseram que, nesses casos, o melhor a fazer é se acostumar e tocar em frente. São fatos da vida, e ninguém tem como impedir que aconteçam e nem simplesmente apagá-los do livro da existência. Mas, neste caso específico, o da Rita, aquele elemento essencial, o sorriso dela, fez tanta falta que a existência deu um jeito de se reescrever.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Um belo e triste dia, a Rita estava distraída em seus afazeres melancólicos, quando num impulso olhou para o horizonte e distinguiu algo que parecia ser a silhueta de um homem, que se aproximava, e à medida que se aproximava ia trazendo à lembrança da Rita algo familiar, dando-lhe cada vez mais a impressão de já tê-lo visto, mesmo tendo ele uma aparência tão banal, era possível sim reconhecê-lo, e logo a Rita percebeu que se tratava daquele que tinha levado embora seu sorriso, e agora parecia querer trazê-lo de volta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;“Vim devolver teu sorriso. Levei sem querer, me perdoa. Não sabia que meu desejo era tão forte. Ainda bem que aprendi que na vida, e também na morte, tem coisas bem maiores do que a gente. Toma. É teu”, disse ele, sorrindo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E a Rita, depois de muito tempo, sorriu, aceitando o que era seu de volta. Mas um outro instante de melancolia lhe tomou de assalto, e ela disse que seu sorriso nunca seria o mesmo sem ele. Mas o sujeito, apesar de banal, tinha lá seus atributos – não é todo mundo que leva embora assim o sorriso da Rita e depois ainda consegue trazê-lo de volta. E disse, em tom bem convincente à Rita, que a melancolia poderia, sim, pegá-la de surpresa algumas vezes. Mas nesses momentos, era só sorrir, e lembrar que aquela criatura banal seria sempre parte daquele sorriso. E logo ela iria esquecer de lembrar de sorrir.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond; min-height: 13.0px"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Garamond"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E assim, a Rita seguiu vivendo coerente aos seus sentimentos, encantando com seu sorriso toda a parte do mundo que estava à sua vista, e também um pouco além dela.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-7424267983391594707?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/7424267983391594707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=7424267983391594707' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/7424267983391594707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/7424267983391594707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/11/estudos-sobre-tristeza-cap-5-de.html' title='Estudos sobre a Tristeza - cap. 5: de sacrifícios'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-8744907915046401708</id><published>2009-09-27T17:09:00.001-04:00</published><updated>2009-09-28T01:52:11.222-04:00</updated><title type='text'>Estudos sobre a tristeza - cap. 4: do desencontro.</title><content type='html'>&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;ERRANTES&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Havia hibernado por pelo menos 7 horas. Dormiu tão profundamente que os sonhos nem chegaram a incomodar. Rápidos fragmentos eram o máximo: velhos amores beijando velhos amigos, peixes flutuantes voando ao seu lado por sobre uma floresta e uma ida à feira com sua avó ajudando-lhe a escolher as frutas, o que das temáticas lembradas lhe parecia a mais absurda. Nada que se sustentasse em nível equiparável às raras horas de sono que haviam se estabelecido como exceções nas suas noites recentes. Não era comum os sonhos lhe deixarem dormir.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;E como se os sonhos não lhe oferecessem substrato suficiente, executou seu ritual eventualmente diário. Sentou-se ao café e se pôs a observar. Do café, era possível ler os pensamentos dos errantes. Interpretá-los, ao menos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Havia uma menina na esquina da ponte. Ansiosa e de vermelho. Era evidente que esperava alguém e ficou evidente que este alguém não viria. Deve ter fumado uns 7 cigarros antes de sair dali. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Talvez esperasse o rapaz do outro lado da ponte, que olhava o rio não como se quisesse pular, mas como se quisesse fazer parte dele. Parecia estar com preguiça de existir. Parecia-lhe que às vezes nem o rio existia. Guardava uma certa nostalgia de tempos literários, quando o amor transmitia tuberculose ou pneumonia. Será que o órgão nevrálgico do amor eram os pulmões, e não o coração? Pelo peso dos seus suspiros, parecia óbvio — não fosse o aperto no peito, este invisível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não era o rapaz que ela esperava, afinal, pouco depois ela voltou com outro maço, num ângulo possível de enxergá-lo. E não era ela por quem perdia seu olhar: o rapaz gostava de rapazes, desde que não fosse ele mesmo. Enquanto procurava o isqueiro na bolsa, posicionando-se recostada ao mesmo poste de antes, balbuciava no vazio, antecipando frases que nunca seriam ditas. Acendeu o cigarro e retomou sua espera, olhou ocasionalmente para o homem sentado num banco próximo, desviando-se em seguida de volta ao vazio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Estava absorto em sua leitura, mas não completamente. Apoiava o livro no encosto do banco com uma das mãos, liberando as coxas e o colo para uma cabeça imaginária, lendo um outro livro imaginário, acariciando-lhe distraidamente com seu corpo imaginário. Sua imaginação lhe bastaria, caso não sentisse acidentalmente uma falta da matéria, denunciada por derivações do olhar para o horizonte, e passeios no ar próximo com sua mão livre.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Havia pontos comuns entre os errantes: a cabeça baixa, erguendo-se apenas para procurar algo que nunca estava lá. O peso dos suspiros, o olhar se diluindo no infinito do horizonte, desintegrando qualquer intenção concreta, uma impaciência para com a existência, confronto contínuo entre constatações sobre sua brevitude e sua eterna fuga da finitude — uma fuga boba e covarde, pensavam os errantes, tão covarde quanto um egocentrismo mínimo, uma parca vontade de ser.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Mas a impaciência da menina da esquina, porém, era mítica, tão difícil quanto fácil de distinguir. Não era possível ler seus lábios, mas era possível destacar sua fúria quase incontida misturada com uma melancolia avassaladora, equilibrando (neutralizando?) seu comportamento de forma extremamente cruel. Vencida, finalmente, pelos cigarros e por uma lágrima, ela se foi definitivamente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;E do café, de repente a vista se tornou o horizonte, reconhecendo-se sozinha, o olhar caindo sobre a xícara vazia em meio a um suspiro pesado e uma taquicardia súbita. "Preciso tomar menos café", pensou. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Talvez devesse pensar menos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN-BOTTOM: 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-8744907915046401708?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/8744907915046401708/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=8744907915046401708' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/8744907915046401708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/8744907915046401708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/09/estudos-sobre-tristeza-cap-4-do.html' title='Estudos sobre a tristeza - cap. 4: do desencontro.'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-1062477763696374465</id><published>2009-09-18T16:17:00.003-04:00</published><updated>2009-09-19T16:19:32.647-04:00</updated><title type='text'>Estudos sobre a Tristeza - cap. 3: de uma certa compreensão das coisas</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;TOURO E CAPRICÓRNIO &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Era justamente uma liberdade total de espírito o que ele mais admirava nela. A única coisa nela que ele próprio não tinha. Todo o resto era bem parecido, ainda que se manifestasse de formas ímpares. Um certo número de afinidades intelectuais, uma certa sensibilidade artística aflorada, um certo senso de humor sarcástico, uma dose errada de apego às próprias idéias. Tinham poucas pretensões financeiras: ela queria poder comprar seu ócio, e ele apenas um pouco de paz interior, mas não muita. E os dois queriam continuar trabalhando. Muito. E tudo o mais se diferenciava pelas trajetórias anteriores (e, posteriormente, posteriores) que eles seguiram.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Foi uma história infelizmente curta e felizmente intensa, ou vice-versa. Tudo para eles podia ser ambíguo, inclusive isto. Sabe-se que, por mais desconfiados da sorte que ambos fossem, não conseguiram escapar das tantas afinidades instantâneas e atingiram um nível raro, para não dizer incomum, de felicidade. E foi uma felicidade que dava gosto de ver (diziam alguns dos seus amigos) e, mais ainda, de viver. Ela se divertia em pensar que se tratava de um alinhamento dos astros, tanto que ele passou a prestar atenção em horóscopos. Muito rápido, eles passaram de uma forte amizade para um amor declarado, ainda que informalmente, advindo de uma vontade imediatamente eterna de estarem juntos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Mas por contingências do destino, eles se distanciaram, a princípio fisicamente, e depois aquele sentimento mútuo equilibrado começou a pender para um lado, causando um afastamento maior. Aquela felicidade plena, viciante a tal ponto que tinha feito com que eles esquecessem suas desconfianças, parecia de repente irreconhecível, irrecuperável, inexistente. E houve um fim não-declarado para algo nunca de fato iniciado. E por se amarem tanto, eles tentaram se compreender, se respeitar e se afastar. Para algumas pessoas, aquilo era uma pena. Para eles, era a ordem natural das coisas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Ele, por sua história e característica, não conseguiu se desligar. Não achou o botão. Ela seguiu sua busca por sua conta própria. E continuou usando e explorando sua liberdade de forma íntegra, como sempre fez, encarando inclusive as consequências disto — pessoa notável, ela. Ele, por sua vez, seguiu na sua inércia produtiva. Não tinha muita escolha e já conhecia seus processos o bastante para saber como se resgatar — ao menos como tentar. Eventualmente, eles se encontravam, e ele tinha a impressão de já estar sobrando na vida dela, e que não havia o que ele pudesse fazer que pudesse trazê-la de volta, por melhor ou pior que fosse. Ele sabia que seu espírito era livre, e que ia demorar para que os dois se unissem, se é que isso ia acontecer. E o tempo, nestes casos, pode tanto curar quanto decretar um estado terminal. Também o tempo era ambíguo para eles.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Ele, racional como ela, resolveu então sistematizar de forma diferente. Em não conseguir se libertar da percepção dos detalhes, da própria presença em espírito, da lembrança e do desejo, chegou a algumas conclusões. Uma primeira é que a felicidade plena, segundo fontes confiáveis, não estava reclusa a uma concepção linear do tempo, tendo ela existido independente do que se tornou depois; não faria sentido, portanto, circunscrevê-la num momento específico, mas integrá-la à totalidade das coisas. Uma segunda conclusão é que a felicidade, plena daquele jeito, havia se restringido a poucos momentos no tempo linear. O que o levou a uma terceira conclusão, colocando a felicidade não como uma regra, mas uma exceção. Um desdobramento disto foi a hipótese de que poucas pessoas teriam chegado ao nível de felicidade que eles chegaram, logo, numa concepção não-linear do tempo, ele deveria se sentir vitorioso por ter conseguido.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Ele decidiu então que, como lembrança ou vaga esperança, amizade ou contraparte, ela faria parte da sua felicidade, e não da sua tristeza.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Isto não tornou sua vida mais fácil. A razão tem lá seus limites. A tristeza, tendo sido estabelecida como regra geral da sua vida, frequentemente lhe fazia recordar de que ele não detinha mais a felicidade. Sentimentos correlatos, como a esperança, tornavam o processo mais difícil. Mas depois de muita prática, ele acabou se acomodando e tocando a vida como dava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Ela, no entanto, continuava existindo, como sinônimo de felicidade. E mesmo tendo aceitado a tristeza como companheira, ele se pegava pensando muito mais na outra, ela, a felicidade em pessoa. No início, sentiu-se um pouco culpado de estar assim, traindo sua única parceira constante. Depois, ele levou a si mesmo na esportiva e passou a aceitar sua efemeridade, retroalimentando a esperança de um dia voltar a ser plenamente feliz. Foi a forma como ele conseguiu se manter fiel à tristeza: buscando eternamente a felicidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Por isso ele continua checando o horóscopo todos os dias.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-1062477763696374465?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/1062477763696374465/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=1062477763696374465' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/1062477763696374465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/1062477763696374465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/09/estudos-sobre-tristeza-cap-3-de-uma.html' title='Estudos sobre a Tristeza - cap. 3: de uma certa compreensão das coisas'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-7937647025638652296</id><published>2009-08-25T12:07:00.001-04:00</published><updated>2009-08-25T12:09:46.482-04:00</updated><title type='text'>Estudos sobre a tristeza - cap. 2: da sensação de não-pertencimento</title><content type='html'>A MENINA TORTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que foi no parto. A posição estava complicada e ela teve que sair à fórceps. E quando saiu, já saiu torta. E do jeito que nasceu, ficou. Cresceu. Demorou pra aprender a sentar, a aprender a andar, a aprender. A falar, nunca. Não que não lhe fosse necessariamente possível, apenas porque o que tinha a dizer não parecia fazer o menor sentido. Porque pra ela o mundo era torto. Todo mundo era, menos ela — o que a levou a concluir que era seu o problema. Ela era torta, não burra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus pais, desde que perceberam a situação, ou seja, muito cedo, tentaram fazer de tudo para desentortá-la. Operações plásticas, medidas drásticas, terapias de curta, média e longa duração — e ela parecia estar sempre fora de lugar. Aí eles tiveram a perspicácia (ou falta de uma) de parar de tentar desentortá-la e tiveram a idéia (ou falta de uma) de entortar o mundo ao seu redor, para ver se pelo menos ela se sentia menos torta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, veio um arquiteto com fama de torto pra entortar as coisas. E os designs pareciam ser todos sob medida. Animados que estavam com o resultado, os pais simplesmente encaixavam a menina em tudo que era móvel torto, de tudo que era jeito. E nem perceberam direito que a menina permanecia torta, mesmo entre coisas tortas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O arquiteto, entusiasmado com as possibilidades criativas, resolveu construir uma casa torta para a menina. Escolheu uma encosta junto a um precipício, e projetou uma casa calculando a angulação exata de entortamento, de modo a preencher perfeitamente as necessidades da menina. E a casa ficou lindamente torta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acontece que o coeficiente de entortamento da casa estava quase correto, não fosse por um valor negativo em relação ao coeficiente da menina. E a menina, ao tentar pular para dentro de casa, terminou caindo no precipício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que poderia ser um final trágico para a menina terminou tendo um efeito torto: ao cair, a menina se sentiu, nos seus últimos momentos, totalmente consertada. E ao se tornar um fantasma e ficar morando entre o limbo da existência e as brechas dimensionais, ela curiosamente passou a se sentir em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E hoje a menina é um fantasma não-torto e feliz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-7937647025638652296?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/7937647025638652296/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=7937647025638652296' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/7937647025638652296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/7937647025638652296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/08/estudos-sobre-tristeza-cap-2-da.html' title='Estudos sobre a tristeza - cap. 2: da sensação de não-pertencimento'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-3368032553363570603</id><published>2009-08-10T07:45:00.000-04:00</published><updated>2009-08-10T07:48:02.920-04:00</updated><title type='text'>Estudos sobre a tristeza - cap. 1: de memórias, saudades e afins</title><content type='html'>   &lt;meta name="Title" content=""&gt; &lt;meta name="Keywords" content=""&gt; &lt;meta equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"&gt; &lt;meta name="ProgId" content="Word.Document"&gt; &lt;meta name="Generator" content="Microsoft Word 2008"&gt; &lt;meta name="Originator" content="Microsoft Word 2008"&gt; &lt;link rel="File-List" href="file://localhost/Users/leofalcao/Library/Caches/TemporaryItems/msoclip/0/clip_filelist.xml"&gt; &lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;o:officedocumentsettings&gt;   &lt;o:allowpng/&gt;  &lt;/o:OfficeDocumentSettings&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:trackmoves&gt;false&lt;/w:TrackMoves&gt;   &lt;w:trackformatting/&gt;   &lt;w:punctuationkerning/&gt;   &lt;w:drawinggridhorizontalspacing&gt;18 pt&lt;/w:DrawingGridHorizontalSpacing&gt;   &lt;w:drawinggridverticalspacing&gt;18 pt&lt;/w:DrawingGridVerticalSpacing&gt;   &lt;w:displayhorizontaldrawinggridevery&gt;0&lt;/w:DisplayHorizontalDrawingGridEvery&gt; 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Às vezes, achava que não passava disso: um fragmento. Morava longe de sua cidade natal, não tinha parentes ou amigos ali. Amores muito menos. Porém, na ordem de suportar a solidão, havia se auto-rogado uma maldição: viver apenas de lembranças, até que um fato completamente novo lhe quebrasse o feitiço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Essa maldição era muito menos mística do que podia parecer. Muito pelo contrário, tratava-se de algo extremamente racional: em vez de encarar os fatos como novos, ele passou a remetê-los a eventos do seu passado. E passou, assim, a ver as novidades de cada dia como rotina, ou repetições de acontecimentos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;No início, não foi tão fácil — ele tinha que se policiar e se forçar a pensar um pouco. Ia pro escritório ao longo de um rio desconhecido que cortava a cidade, e pensava, saudoso: "na minha cidade tinha um rio." Chegava no trabalho e se deparava com um problema, e então dizia a si mesmo: "já resolvi esse problema pelo menos umas mil vezes." Voltava pra casa e reposicionava os móveis, deixando-os na mesma configuração de sua casa anterior. Olhava para a sua cama e se forçava a ver o amor de sua vida dormindo tranquilamente, dando-lhe um beijo de boa noite antes de voltar pra sala e tomar uma taça de vinho (velho hábito), esperando o sono chegar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Foi um esforço árduo, mas valeu a pena: logo, o rio era o seu, o trabalho era o seu, a casa era a sua, o amor era seu. E a vida, assim, era a sua.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;E por viver de lembranças, ele era o homem mais feliz do mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Até que um dia, estava ele tranquilo chegando no trabalho, a uma coisa completamente nova se apresentou. Era um problema sem precedentes, sem aviso prévio que fosse, jurisprudência muito menos. Uma coisa que ele sempre temeu em toda a sua vida recente: um fato completamente novo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Habituado que estava a acessar suas memórias, ele passou um bom tempo procurando uma experiência que pudesse aplicar ao problema. Tempo perdido, de fato, o fato era novo. E sendo algo que pedia uma resolução imediata e eficaz, ele teve que se esforçar muito para sair do seu labirinto de memórias e pensar naquilo especificamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Até que ele conseguiu. Lembrou que suas lembranças eram lembranças, ou seja, acontecimentos do passado, e não do presente, do futuro muito menos. Então, olhou o problema de frente e o resolveu. E assim, o fim do expediente chegou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;E ele voltou pra casa achando o rio estranho. Ao sacar o chaveiro para abrir a porta do prédio, pensou que ele pesava mais do que de costume. Subiu as escadas até o fim, e teve que descer dois lances de volta, tendo errado o andar. Mal conseguiu reconhecer a porta de seu apartamento. e quando abriu, seu amor não estava lá. Nem dormindo, desperto muito menos. Achou o vinho diferente e o sono, naquela noite, não chegou mesmo depois de uma garrafa inteira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;E ele lembrou que estava só. E as lembranças se tornaram uma cruel tensão entre eventos outrora felizes em si e o estatuto de serem, afinal, apenas lembranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt;"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;E por viver de lembranças, ele era o homem mais infeliz do mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt; &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-3368032553363570603?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/3368032553363570603/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=3368032553363570603' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3368032553363570603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3368032553363570603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/08/estudos-sobre-tristeza-cap-1-de.html' title='Estudos sobre a tristeza - cap. 1: de memórias, saudades e afins'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-1722228829947283548</id><published>2009-07-17T10:07:00.001-04:00</published><updated>2009-07-17T10:08:37.736-04:00</updated><title type='text'>Estudos sobre a Tristeza - prólogo</title><content type='html'>&lt;div&gt;A CARTA QUE EU NÃO DEVERIA ENVIAR&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;Nesta,&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;Pensei em não escrever nunca mais. Pensei em ser o rapaz bonzinho que sempre me submeti a ser, ora por amor, ora por mania de submissão mesmo, ora por nunca me achar grande coisa e portanto me considerar mais útil sendo parte da vida dos outros do que da minha própria. Acho que isso sempre terminou sendo muito confuso na minha cabeça. A coisa é que acabei de ver uma história de amor muito piegas porém muito bela e apresentada de forma bastante imaginativa (algo que por si me instiga) e como de costume tendo a procurar alguém pra compartilhar algo muito bom que sinto. Afinal de contas, algo de bom não serve pra mim. Eu não mereço. Não sozinho. Hoje eu tive essa nítida impressão.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;A gente construiu algo muito bonito, posso ousar dizer. E a gente estava construindo algo melhor ainda, posso ousar dizer também. Mas parou no meio, infelizmente. Por escolha sua e por respeito meu, que no fim das contas, trata-se de uma escolha. Enfim, tudo é compreensível, era um espaço que você — e acredito que eu também — precisava, pra colocar o juízo no lugar e tocar a vida em frente. Sair da maldição da transição e pensar com clareza. Pensar um pouco em si, essa criatura tão esquecida no fundo da cabeça.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;O fato é que a distância metafísica (aquela maior que a física) de fato surtiu um certo efeito, mas não funcionou completamente, feliz ou infeliz mente. Eu me distraí, mas não me esqueci. E aí me abandono à escrita numa noite de quinta como se fosse uma noite de sábado, entregando-me à quarta taça de vinho despejando poemas em prosa, ou prosa com intenção poética, que parece ser o máximo que posso extrair. &lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;É fácil falar que o tempo vai dizer. Difícil é admitir que o futuro está em aberto, e que o presente é agora, e que o passado já foi, já deu, morreu, por menos linear que seja o tempo. Eu descobri recentemente que me arrependo apenas do que fiz de errado ou do que não fiz de certo. Do que me trouxe dor, por escolha ou permissão minha, eu não me arrependo. Acho que isso diz muito de mim. &lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;Percebi que estou morrendo e que não quero perder mais nada da vida. Mesmo que seja sozinho.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;Mesmo que seja com alguém.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;Desejo&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;que você seja feliz&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;como o poema que você deseja ser&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;e o poema que eu&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;Desejo&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;escrever&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;.&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;Atenciosa e sinceramente,&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica; min-height: 14.0px"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;…&lt;/p&gt; &lt;p style="margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Helvetica"&gt;(um personagem a ser inventado)&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-1722228829947283548?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/1722228829947283548/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=1722228829947283548' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/1722228829947283548'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/1722228829947283548'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/07/estudos-sobre-tristeza-prologo.html' title='Estudos sobre a Tristeza - prólogo'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-8514786755027333016</id><published>2009-07-06T14:40:00.003-04:00</published><updated>2009-07-10T09:28:00.714-04:00</updated><title type='text'>Questões Arcaicas (Futuros Antigos - parte 2)</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Num post antigo, falei de algumas vantagens de andar de ônibus. Hoje em dia, além da questão ecológica (menos veículos por combustão nas ruas e tal) e do mencionado tempo pra pensar na vida, escutar música e ler, eu acrescentaria um outro: forçar você a sair cedo de casa e consequentemente chegar mais cedo no trabalho. No caso, eu era o primeiro professor a chegar no curso de comunicação da Universidade Católica, então tinha tempo de preparar as coisas com tranquilidade e também bater um papo com a segunda professora a chegar, Neide Mendonça, uma senhora adorável que leciona português há muitos anos, e que como eu está revoltada com a reforma ortográfica. Se pensamentos afins matassem, as particularidades idiomáticas da CPLP estariam salvaguardadas diante do enterro definitivo das mudanças propostas. Mas, enfim, nem tudo é perfeito…&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Pensei nisto esta semana porque, numa dessas viagens de ônibus, cheguei à conclusão de que o meu português já se tornou arcaico. E percebi que minha tecnofobia chegou finalmente ao meu domínio da língua. Consequentemente o avanço da assim dita pós-modernidade não se resume às questões tecnocráticas, mas ao cotidiano comum mesmo. Tenho uma certa resistência em deixar de acentuar algumas coisas e só aboli o trema porque ainda não encontrei uma tecla de atalho neste computador. Enfim, outro processo contemporâneo que me faz me sentir mais velho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Chegando ao meu destino depois dessa viagem (o chá de fraldas de Jr. Black, amigo músico e ator aqui de Recife), tive uma conversa bem interessante com Jarbas Jácome, músico e mestre em computação, sobre arte e mídias digitais. Ele me falou de um evento que vai acontecer por estes dias em São Paulo, o &lt;a href="http://www.file.org.br/"&gt;FILE&lt;/a&gt; - Festival Internacional de Linguagem Eletrônica. Em pauta, exibições de peças multimídia, hipermídia e afins, além de discussões bem avançadas sobre linguagem artística ou expressiva, sem se preocupar muito sobre o que define ou não uma obra como "arte" ou "mero entretenimento". De fato, uma das coisas que saiu na conversa foi pensar nos games (jogos eletrônicos) como a provável forma de arte mais popular nas próximas décadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Lembrei de um livro que comecei a ler nos meus primeiros passos na pesquisa de narrativas para jogos, &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;&lt;a href="http://www.vancouver.wsu.edu/fac/peabody/game-book/Coverpage.html"&gt;The Art of Computer Game Design&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;, de Chris Crawford, dedicava o primeiro capítulo inteiro a justificar a opinião de que o design de jogos pra computador era, de fato, uma forma de arte. Os argumentos, pelo que me lembro, eram bem frágeis e superficiais, e acho que cairiam na mesma impertinência que algum filósofo iluminista ou hegeliano pudesse colocar hoje em dia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Pensei, então, num &lt;a href="http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R0598-1.pdf"&gt;artigo&lt;/a&gt; que escrevi para o Intercom em 2007, refletindo sobre essa transição não apenas do conceito de arte, mas da sua própria função na sociedade atual. Quem estiver a fim de ler mais detidamente um artigo escrito para um simpósio acadêmico (portanto, chato) pode clicar no link acima, mas pra resumir, eu cito alguns filósofos contemporâneos (Lebrun, Dubois, Benjamin) que falam de uma perda material da arte a partir das técnicas de reprodução (imprensa, fotografia, cinema), e da necessidade premente de se pensar em novos padrões para sistematizar a respeito de nossa leitura estética de uma obra qualquer, já que o próprio conceito de arte se encontraria em transição.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Relendo o artigo hoje de manhã, percebi que muita coisa já caducou, ou já passou pra um outro estágio de reflexão mesmo. A própria pertinência em discutir autenticidade e autoria pode ser posta em questão, sob o risco de tornar a arte um rótulo ao invés de um conceito com função social. E acho que o pensamento estético ainda merece um lugar mais profundo na nossa vida, enfim. Desta forma, cabe admitir que a leitura de uma obra em toda a sua complexidade deve pressupor alguns elementos a mais, antes inexistentes na forma de consumirmos arte. E isso passa por um monte de processos sociais, econômicos, políticos, informacionais, educacionais, comunicacionais e por aí vai.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Enquanto isso, penso no meu lugar como professor e artista. Somando esta elocubração mental prolixa às minhas recentes incursões na linguagem teatral, descobri que posso transformar minha tecnofobia num conflito estilístico que, de fato, me mova dentro dessas novas expressões que vão surgindo. Ao invés de escapar dos meus medos, refugiando-se no meu arcaismo natural, posso me confrontar com eles, ora ganhando, ora perdendo, mas sempre em diálogo. Pode ser um caminho possível (talvez o único) pra não me sentir tão fora de tempo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Mas vou continuar escrevendo em português antigo. Old habits die hard… Paciência! E um pouco de excentricidade anciã um espírito velho como o meu pode ter, não?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-8514786755027333016?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/8514786755027333016/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=8514786755027333016' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/8514786755027333016'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/8514786755027333016'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/07/questoes-arcaicas-futuros-antigos-parte.html' title='Questões Arcaicas (Futuros Antigos - parte 2)'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-6819791408286093780</id><published>2009-06-30T16:55:00.000-04:00</published><updated>2009-06-30T16:56:03.186-04:00</updated><title type='text'>Life Shift</title><content type='html'>&lt;!--StartFragment--&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Se você for ao primeiro post do ano, vai ver que nada do que eu tinha proposto pra mim de fato aconteceu. O que deveria marcar o fim de um tabu que já dura 15 anos (o de não ter férias, enfim) terminou se tornando um ano de mais trabalho ainda. Tudo bem, quem me conhece sabe que não sou de reclamar de trabalho, até gosto de uma maneira quase obsessiva, mas eu realmente esperava ter um tempinho pra descansar e espairecer um pouco. Este tempo terminou vindo dentro do trabalho, quando para me familiarizar com a linguagem teatral — na qual estou me aventurando por estes dias —, passei 10 dias no Rio de Janeiro vendo muita coisa boa e ruim. Por sorte, mais coisa boa mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Esta recente incursão no universo do teatro, que se deu tanto de forma prática (assistindo a peças e criando e trabalhando com os atores) quanto de forma teórica (criando tempo pra ler referências generosamente e competentemente dadas por pessoas queridas), me obrigou a estabelecer mais alguns parâmetros de criação mediante o trabalho em uma nova linguagem. Curiosamente, na minha cabeça a criação em teatro tem funcionado mais próxima da literatura do que do cinema, o que me fez ficar mais afeito às questões da palavra, seja esta prosaica ou poética. De fato, fiquei um pouco me lamentando de ter-me posicionado mais como prosista do que como poeta, daí toda a minha tendência prolixa neste espaço em detrimento de uma forma estética mais sintética, parece.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Enfim, viagens retóricas à parte, tenho me surpreendido com alguns momentos e comportamentos meus. Digamos que minhas expectativas pessoais também sofreram transformações radicais nos últimos meses, e isto é claro afeta o trabalho, ainda mais de quem tem a expressão humana como ofício. Alguns amigos têm estranhado a oscilação de humor e aspecto que tenho tomado, fruto também dos ups and downs usuais de vida e trabalho. Então cheguei a conclusão de que tenho vivido estes processos muito intensamente, de uma forma um pouco mais exagerada do que tinha vivido antes. Talvez seja a idade, ou o espírito, não sei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;De toda forma, tenho notado também que por mais intensa que esteja a minha vida e por mais importância e peso que tenha dado às coisas, tenho aprendido a lidar com meus mecanismos. Neste sentido, o teatro, enquanto reflexão constante e direta sobre emoções e sentimentos (que ocorre num certo tipo de teatro verborrágico, com poucos elementos cênicos e foco dramático exposto de forma escancarada ao público), tem me ajudado bastante. Tem feito, de certa forma, me tolerar por estar me extinguindo, ao mesmo tempo em que diminuo o ritmo, contemplando as coisas de forma mais delongada, ainda que profunda. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;A conquista de uma intimidade com o meio parece mesmo que só pode advir de uma vivência plena, que no meu caso pressupõe um envolvimento criativo, e não apenas contemplativo. E então notei que lembro de todos os momentos intensos do meu dia enquanto estou passando o texto com os atores, enquanto penso em soluções de cena e caminhos de pontuação dramática, enquanto concebo não mais recluso a uma tela bidimensional mas a um espaço que, embora limitado, se torna infinito na sua relação imediata com o público. Parece uma espécie de triunfo do sensorial diante do cognitivo, sem é claro desconsiderar a complexidade de fruição que o cinema também propõe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;Isto pra dizer que tenho me consumido, sim — mas por outro lado, tenho aproveitado melhor meus momentos de trânsito entre uma atividade e outra. Tenho caminhado mais, e mais devagar. Tenho visto mais coisas. Tenho tido mais idéias. Mais angústias também, mas em compensação mais vontade de fazer as coisas darem certo. E sentindo o tempo cada vez menor, sinto um momento cada vez mais potente. E ao contrário do que se poderia esperar, estou ansiosíssimo pra voltar a trabalhar com cinema depois dessa experiência toda.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="EN-GB"&gt;E longa vida ao teatro. Muito prazer em conhecer…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;!--EndFragment--&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-6819791408286093780?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/6819791408286093780/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=6819791408286093780' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/6819791408286093780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/6819791408286093780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/06/life-shift.html' title='Life Shift'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-4271930704142330345</id><published>2009-05-11T10:38:00.004-04:00</published><updated>2009-05-11T10:57:09.563-04:00</updated><title type='text'>A volta dos vivos-mortos</title><content type='html'>Algumas pessoas têm perguntado sobre minha ausência nos últimos meses, depois dos primeiros posts de um ano que parecia promissor — ao menos em termos de assiduidade neste espaço. Bemm, dramas pessoais à parte, estou tentando retomar, aos poucos, minha produtividade analítica. Para impressões mais imediatas e fugidias, comunico que estou finalmente utilizando o &lt;a href="http://twitter.com/leofalcao"&gt;Twitter&lt;/a&gt;, com comentários rápidos e pequenas frases de efeito efêmero.&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No mais, confesso uma certa impaciência em ir fundo em certas questões. De toda forma, a necessidade expressiva está voltando forte, o que pode influenciar positivamente nas próximas semanas. No mais, estou viajando pra Miami por conta do convite ao meu último curta para a mostra competitiva do 13th Brazilian Film Festival. O Zoom da TV Cultura me convidou para fazer uma vídeo crônica, minha primeira, espero, de muitas. Quem sabe não tomo gosto pela coisa?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;De fato, apesar das frustrações iniciais, este parece mesmo ser um ano de primeiras vezes. Além da vídeo crônica, fui convidado para dirigir um espetáculo teatral e estou escrevendo um primeiro documento de game design (que serve de roteiro para um jogo). Também devo realizar meu primeiro trabalho como ilustrador de livro, a convite do Silvio Meira, autor do projeto. Nesse contexto, minhas férias tão esperadas após 15 anos foram novamente para o limbo da espera. Tudo bem, nunca fui de reclamar de trabalho mesmo...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No mais, para os que desejam textos um pouco mais complexos, publiquei no início do ano um &lt;a href="http://www.musicarecife.com/generos/genero/5"&gt;artigo&lt;/a&gt; para um portal de música daqui do Recife, fazendo relações afetivas entre música e cinema.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E por enquanto é isto. Espero que esses processos todos rendam pensamentos instigantes e que um novo post surja dentro em breve.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Obrigado a todos e vamos nos falando.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-4271930704142330345?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/4271930704142330345/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=4271930704142330345' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/4271930704142330345'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/4271930704142330345'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/05/volta-dos-vivos-mortos.html' title='A volta dos vivos-mortos'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-1094226086605818685</id><published>2009-02-11T11:52:00.003-04:00</published><updated>2009-02-11T17:36:49.866-04:00</updated><title type='text'>Pequenas expectativas</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Uma pequena reflexão sobre trailers, peças promocionais e quadrinhos&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Infelizmente, o cinema tem perdido pra ligeiramente alucinada quase-rotina de trabalho, o que diminui minha presença dentro das salas. No entanto, semana passada tive que tirar uma tarde para assistir dois filmes em sequência, escolhidos para relatório por meus alunos na Universidade Católica. Sempre interessante a experiência da sala, por mais que ainda existam pessoas extremamente mal-educadas que atendem o celular logo atrás de você e quando alguém do lado reclama a tal pessoa replica com um estúpido "os incomodados que se mudem". Falta de noção é mesmo um problema social, mas tudo bem, vamos em frente.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Outra oportunidade é verificar quais os filmes que estão por vir, já que ainda não me habituei completamente a seguir feedreaders da vida nem buscar na web as peças promocionais dos próximos lançamentos. Acho que este tipo de trabalho já esteve melhor, por sinal, visto que campanhas excepcionais já venderam filmes muito ruins — e o contrário normalmente é remediado por um a curiosidade cinéfila. Por outro lado, alguns trailers são muito sinceros ao passar o "espírito" da produção vindoura.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Já que falei em espírito, começo justamente pela adaptação do universo do grande Will Eisner, figura fundamental para a história das histórias em quadrinhos. O filme "The Spirit", homônimo à série protagonizada pelo mais famoso personagem do quadrinista, foi adaptado para as telas pelo também quadrinista Frank Miller. A estética, de alto contraste e cores rebaixadas que enfatizam alguns elementos com cores mais fortes, já se revela como um desdobramento do estilo visual estabelecido por "Sin City" (2005), dirigida por ele e por Robert Rodriguez. Pelo trailer, inclusive, dá pra notar que a mesma afetação se repete, com frases de efeito soando como clichês e ação hiperbolizada pelo próprio universo de procedência da história — ao comentar "Sin City", certa vez, destaquei que essa afetação se dá porque o cinema tem um dado de realidade que as HQs não têm, mesmo quando o contexto dramático é fantasioso: algo de fato acontece na frente da câmera, que é capaz de tornar perfeitamente distinguível um texto aparentemente falado de um texto evidentemente escrito. Acho que a elegância de Will Eisner em descrever a decadência merecia um tratamento um pouco mais sofisticado, enfim.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Parênteses: com todo o respeito ao trabalho de Frank Miller, sobretudo nos quadrinhos dos anos 80 ("A queda de Murdock", "A volta do Cavaleiro das Trevas", "Batman - Ano 1", etc.), confesso que ele tem me decepcionado nas suas recentes incursões. Acho que ele ocupou um posto de consagrado e está apenas se permitindo americanizar histórias clássicas ("Os 300 de Esparta") ou encher de ideologia cenários quase amorais ("Holy terror, Batman!"). Tudo muito longe daquelas narrativas intensas que flertavam com o underground de outrora.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Voltando à linha de raciocínio, agora há pouco passei por um multiplex que exibe dois displays com os personagens principais de "Watchmen", de Zack Snyder — outra adaptação de uma célebre série de quadrinhos, escrita por Alan Moore (que ainda está merecendo uma boa adaptação para o cinema) e desenhada por Dave Gibbons. As frases promocionais, escritas ao lado de cada personagemm, tentam resumir suas essências dentro da história. Uma pena que fazem isso de forma tão mecânica que todos eles, dotados de extrema profundidade na obra original, terminam soando um pouco estereotipados. Parte do jogo de divulgação, infelizmente. Esperamos que isso não reverbere no filme, muito embora, a julgar novamente pelos trailers que vi, esse tipo de concessão  tenha se tornado a regra.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Em suma, isto tudo pra dizer que, é claro, vou tentar assistir a esses filmes — essas histórias fazem parte da minha história, sejam como referências artísticas, sejam como obras que me tocaram enquanto leitor. Mas vou manter minhas expectativas em baixa — já me decepcionei muito tendo adotado a postura contrária. Neste sentido, só tenho a agradecer à forma rasa como a propaganda tem tratado os filmes. O que vier é lucro...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-1094226086605818685?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/1094226086605818685/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=1094226086605818685' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/1094226086605818685'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/1094226086605818685'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/02/pequenas-expectativas.html' title='Pequenas expectativas'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-2841916585585220188</id><published>2009-01-31T21:59:00.003-04:00</published><updated>2009-02-01T01:57:26.576-04:00</updated><title type='text'>This is how the perfect human falls...</title><content type='html'>A frase-título deste post faz referência a um momento muito particular do filme citado no post anterior, &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;As 5 obstruções&lt;/span&gt;. Aqui estou usando como motor para uma rápida reflexão.&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Hoje eu quase quebrei meus óculos, caindo bêbado no sofá de casa depois de ter chegado de uma festa. Ia me deitando esquecido que eles estavam no meu rosto, quando meu flatmate alertou para tirá-los, já em franco movimento descendente. Consegui salvá-los bem a tempo, minha cabeça caindo no sofá logo após tê-los removido com a mão direita. Foi por muito pouco!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mas isso não me fez pensar a respeito das habilidades que desenvolvemos quando estamos em estado alterado. Lembrei apenas como eu gosto dos meus óculos, e seria um transtorno muito grande ficar sem eles. Isto porque a moda atual dita que os óculos em geral devem ser daqueles retangulares e estreitos; óculos de aro arredondado como os meus já não são encontrados com tanta facilidade. Digo por experiência própria: já faz algum tempo que procuro para fazer meus óculos de reserva e não encontro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pois é, por mais que a gente esteja num tempo em que a pluralidade é a regra, ainda temos que conviver com certas ditaduras de estilo. Parece que a moda continua demodê. Tomara que ela se pós-modernize logo...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-2841916585585220188?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/2841916585585220188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=2841916585585220188' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/2841916585585220188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/2841916585585220188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/01/this-is-how-perfect-human-falls.html' title='This is how the perfect human falls...'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-7161375230615539252</id><published>2009-01-28T23:39:00.000-04:00</published><updated>2009-01-28T23:42:38.448-04:00</updated><title type='text'>Estado Crítico</title><content type='html'>Até pouco tempo atrás, eu tinha uma reação estranha a certos filmes muito bons: vinha um forte pensamento de nunca poder realizar algo tão maravilhoso quanto eles, o que resultava num desânimo imediato em relação ao meu trabalho. A um dado momento, tive a sorte de passar algumas outras experiências que me fizeram entender que o melhor a fazer é ser humilde o bastante para apenas fazer o seu, sem se pautar tanto na comparação com outras obras, primas ou não. Diga-se de passagem, uma coisa é a referência, outra é a influência e outra ainda é o juízo de valor a partir delas. Particularmente, me vêm à memória duas dessas experiências — dois filmes, pra ser mais exato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro é "As 5 obstruções" (De Fem benspænd, 2003), um filme em que Lars von Trier divide a direção com seu objeto de estudo documental — o seu conterrâneo Jørgen Leth. No processo de documentação de um jogo criativo bem peculiar, os dois diretores fazem um lindo debate sobre arte e expressão. Naturalmente, o filme me marcou muito, e quando me peguei pensando que nunca faria algo tão bom e que seria melhor parar, um outro pensamento se apressou em se contrapor à minha autodepreciação megalomaníaca: esse filme só dá ainda mais vontade de fazer cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo pensamento positivo me assaltou numa sessão mais recente: a estréia no Recife do filme "Crítico" (2008), de Kleber Mendonça Filho. Sendo o autor de natureza dupla, ele investiga com paixão a relação entre realização e crítica, o que no fim das contas é uma chave de leitura do "conflito" entre artista e público. Foi maravilhoso dar ouvidos aos dois lados, o que me faz constatar que a crítica é também, a exemplo de um filme, uma exposição de seu autor. No fim das contas, todos têm, em maior ou menor medida, um amor especial pelo cinema. E assim arte e público crescem juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este último, por sinal, me fez constatar que, numa operação de avaliação estética de uma obra cinematográfica, não é apenas o cineasta que está exposto, mas também o crítico. Seu texto é sua obra, seu parecer é tão revelador quanto o trabalho do diretor que está avaliando. Lembrei dessa constatação porque estive recentemente em um festival e vi muitos colegas se queixando a respeito de um certo crítico, que de fato escrevia mal. Não pude sentir nenhum tipo de fúria por ele, mesmo ele tendo evidentemente achado meu filme ruim (uma coisa, aliás, não tem nada a ver com a outra, muito embora a maioria das pessoas ache que sim); o máximo que fiz foi lamentar que sua visão crítica ainda fosse tão superficial e presa a estereótipos — sim, o crítico também tem estereótipos e clichês. Pessoalmente, como realizador, acho que não há nada melhor do que uma boa crítica, ainda que destrutiva mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pena que, mesmo no âmbito da crítica, seja difícil escapar do lugar-comum. Fico com os dois exemplos citados, emblemas perfeitos de uma relação sadia entre arte e apreciação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-7161375230615539252?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/7161375230615539252/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=7161375230615539252' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/7161375230615539252'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/7161375230615539252'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/01/estado-critico.html' title='Estado Crítico'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-3367535899864106034</id><published>2009-01-19T09:57:00.002-04:00</published><updated>2009-01-19T10:05:29.714-04:00</updated><title type='text'>Boas-vindas</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Aproveitando a chuva pra escrever. Por representar o vazio, o cinza do dia é sempre inspirador...&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Primeiro post do ano, tentando me disciplinar (tarefa difícil!) pra conjugar este compartilhamento de impressões com a empenhativa vivência que as fornece. Um amigo meu, no intuito de me ajudar a escrever coisas mais curtas e mais constantes, até me sugeriu fazer um &lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;twitter&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;. Como qualquer tecnófobo que se preze, repliquei: "o que é um twitter?" "Uma espécie de miniblog que você pode alimentar a partir de várias mídias — até mesmo do seu celular." "Acho sofisticado demais pra mim." Nestas horas, noto que já faz algum tempo que estou soando como um velho. Costumo repetir que o que vale é o espírito: o meu deve estar com uns 85, mais ou menos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51);"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style=" "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Conversando com uma amiga que está morando na Cidade do Porto, Portugal, revelei que um dos meus principais projetos este ano é tirar férias. Se você ler meu último post do ano passado vai entender que isso não acontece já faz algum tempo, de modo que temo pela integridade do universo em executar algo tão paradoxal. E nesta pequena brincadeira de onipotência, eu disse estar mais preocupado em tirar minhas férias em julho do que com a integridade do universo: "já que estamos na pós-modernidade, em tempos de subjetividade absoluta, dane-se o universo, pelo menos por um momento". Especulando as possíveis consequências, ela imaginou ser este o motivo de estar nevando no Porto depois de 22 anos. "Seria o universo dando as boas-vindas à pós-modernidade?" Bem, quando comecei a escrever este post, chovia torrencialmente no Recife — o que me faz pensar que as boas-vindas não sejam tão "boas" assim. De toda forma, a seu modo, o universo está recepcionando esta assim chamada pós-modernidade, ou este nosso tempo, que seja. Como já foi dito por aqui, no entanto, os tempos são os tempos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;* * *&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="  "&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 14px/normal Times; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E é isto, por enquanto. Vou tentar manter observações e comentários curtos, intercalando com as verborragias mentais de costume. Nesta semana ainda, vou postar um artigo que escrevi para o portal de música da Prefeitura do Recife, sobre música no cinema. E assim vamos trocando.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 14px/normal Times; min-height: 18px; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; font: normal normal normal 14px/normal Times; color: rgb(51, 51, 51); "&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;E como estamos ainda em janeiro, bom ano pra todos!...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"   style="color: rgb(51, 51, 51);  font-family:Times;font-size:14px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-3367535899864106034?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/3367535899864106034/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=3367535899864106034' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3367535899864106034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3367535899864106034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2009/01/boas-vindas.html' title='Boas-vindas'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-5643687010699926732</id><published>2008-12-02T06:29:00.003-04:00</published><updated>2008-12-03T19:56:29.991-04:00</updated><title type='text'>Balanço do ano</title><content type='html'>Posts curtos. Vivo me repetindo isto já faz um tempo. Talvez seja mesmo hora de recomeçar (não do zero, mas do 1,3) aproveitando o último mês do ano. E como este ano balançou muito - consegui bater meu recorde de número mínimo de posts - vou fazer uma rápida análise do que fiz e do que ainda falta fazer.&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Antes de tudo, este foi o ano em que não consegui, pela 14ª vez consecutiva, não tirar férias. O pessoal diz que eu, workaholic incorrigível, me orgulho do fato. Bom, não mesmo: realmente estou sentindo falta e resolvi que vou viajar em janeiro, deixando o documentário que estou fazendo na mão do montador e só pensando nele quando eu voltar depois de... 5 dias! É, pois é, férias mesmo só em julho. Mas vai rolar.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Este ano também marcou minha segunda licença de professor na Universidade Católica, onde dou aula já há 4 anos. Foi por uma boa causa: estava concluindo minha especialização em estudos cinematográficos (cuja monografia foi finalizada no Carnaval deste ano) e o meu mestrado em design lá na Universidade Federal, que não sei como, consegui terminar em um ano e dois meses. Reflexões metafísicas sobre o tempo caberiam, mas estou preferindo ser o mais objetivo possível neste post.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pois é, além da vida acadêmica, tive que lidar com um agitado ano profissional - especialmente se contarmos do último trimestre do ano passado para cá: uma microssérie (&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Santo por acaso&lt;/span&gt;, infelizmente subestimada pela própria TV que a encomendou e com corte final à minha revelia), um curta (&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;A vida é curta&lt;/span&gt;, que ainda estou aprendendo a gostar e que a receptividade do público e os prêmios recentes talvez contribuam para isto), um longa (&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Guia prático, histórico e sentimental da cidade do Recife&lt;/span&gt;, filme não-concluído tratado pela mídia com certa indiferença e pelo público com certo deslumbramento) e uma campanha política (pois é, ainda por cima sou simpatizante do comunismo desde a adolescência e acredito que Olinda está em boas mãos).&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Fora tudo isto, meu novo projeto, &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Sem rosto&lt;/span&gt; - documentário cujo tema ainda preciso guardar em certo segredo - tem exigido muito do meu tempo. Viagens que todo mundo acharia ótimas têm na verdade sido empenhativas e cansativas, porém produtivas no fim das contas. Estou reclamando não.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mas no balanço do ano, bom, deu pra dar uma organizada nas coisas, disparar muitos projetos, mas ficou tudo no empate com a falta de férias e de uma qualidade de vida que ainda sinto falta. Mais tempo pra mulher, pra família, pros amigos, pra ir ao cinema, pra ler, pra tocar guitarra, pra passear com o cachorro, pra cuidar da saúde, pra pensar besteira (não o tipo de besteira que penso aqui, mas aquele tipo mais inconsequente mesmo), e pra procurar o trema neste teclado antes que a reforma ortográfica resolva abolí-lo de vez.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Deste modo, espero que o ano que vem, além de ser o ano em que eu tenha concluído mais alguns projetos importantes pra mim, seja o ano em que eu tenha voltado para a capoeira e tenha no processo perdido 6 quilos, que eu tenha visto pelo menos 5 filmes por mês e que ao menos 2 sejam interessantes, que eu tenha viajado sem estar preocupado com a pauta do dia seguinte e sem necessariamente ter que enquadrar um monumento de maneira inusitada, que eu tenha ficado mais tempo com Cecilia, Dra. Tânia, Karina, Gustavo, Ju, Saulo, Edu, Tia Sílvia, Vovô e Vovós, Raquel, Fernando, Nina, Felipe, Gabi, Kleber, Emilie, Thiagos diversos com e sem "h", amigos comuns em geral e em específico e etc.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E que, principalmente, seja o ano em que eles tenham ficado mais tempo comigo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pois é, feliz ano novo!...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-5643687010699926732?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/5643687010699926732/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=5643687010699926732' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/5643687010699926732'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/5643687010699926732'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2008/12/balano-do-ano.html' title='Balanço do ano'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-6273963386741118507</id><published>2008-06-14T09:35:00.003-05:00</published><updated>2008-06-14T10:55:58.694-05:00</updated><title type='text'>Obsolescência (Futuros Antigos - parte 1)</title><content type='html'>Sem desculpinhas. Vou escrever quando der e pronto. Tentar manter simples e constante, anyway, as usual. Vamos lá...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi que tinha iniciado uma série aqui no blog chamada "Modernidade Ultrapassada". Bem, me parece que o próprio conceito de modernidade já não cabe mais nem em termos de metáfora, enfim. Vou preferir retomar essas discussões sobre o tempo em que estamos - este, que está sempre misturado com o que está por vir - sob a chancela de "Futuros Antigos", que me parece mais abrangente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, estou escrevendo um artigo para terminar os créditos do Mestrado que tem justamente o mesmo título. Nele, faço um paralelo entre o histórico da ficção científica enquanto gênero narrativo e a própria história da humanidade, considerando o peso do imaginário tecnológico como condutor não apenas da filosofia, mas de certas configurações sociais mesmo. Velha viagem de cineasta deslumbrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que motivou este post foi uma discussão interessante que apenas iniciamos no recente CineDesign, evento aqui em Recife que reuniu alguns realizadores, técnicos e estudiosos desta interface entre cinema e design, cada vez mais intricada. No único dia que tive condições de ir, o Rodrigo Minelli - figura interessantíssima, realizador e professor de Minas - deu uma palestra acompanhada de diversos exemplos muito legais sobre o uso de mídias móveis como forma de expressão. Falou do contexto cultural destes novos meios, e das características de linguagem que ele exige: peças curtas, enquadramentos mais fixos e fechados, necessidade de uma imagem mais soberana do que nunca. Uma fruição efêmera como os nossos tempos, rápida, intensa, fugidia. O cinema como conhecemos já parece tão distante disto, que é inevitável pensar um pouco na vida e no futuro do meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei de uma conversa recente entre o Kleber Mendonça Filho e o Lula Queiroga lá no Sistema Jornal do Commércio de Comunicação. Falávamos um pouco de mercado e do cinema pernambucano, em como estamos num momento prolífero e expressivo, em como estamos sendo vistos como a produção mais vigorosa do país, em como tudo tem contribuído pra essa exposição toda. Chegamos, é claro, na questão mercado: Kleber atribuía essa exposição à diversidade intrínseca e profundidade expressiva dos realizadores pernambucanos, justamente por estarem desatrelados de um mercado estabelecido e portanto ligados a referências mais diversas e possibilitados de experimentar mais nos aspectos temáticos e estilísticos. Ao mesmo tempo, estabelecer um mercado que permita pessoas a viverem só de cinema, meta antes improvável, parece cada vez mais impossível. Veio à tona uma pergunta de Lírio Ferreira há dois anos num festival: “Pra quem a gente faz cinema?” Essa ausência de um mercado sistemático parece mesmo ser o preço que temos a pagar por nossa celebrada “vigorosidade” de produção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversando com o Rodrigo Minelli esta semana, essa impressão me veio mais forte ainda. Perguntei-lhe como pensar num futuro para o audiovisual se parece que o próprio conceito de futuro, diante de uma infinidade de formatos e meios de produção, parece não ser mais pertinente. Vale mais a pena pensar em vários presentes que se alternam e se sucedem rapidamente, do que propriamente vislumbrar qualquer espécie de futuro. A resposta não poderia ter sido mais adequada para iniciar uma discussão. Sua opinião é de que o cinema como conhecíamos está fadado a ser superado, e que não recomenda ninguém começar a trabalhar com cinema nos nossos tempos. Curioso comentar isto justamente num evento sobre cinema, focado em estabelecer relações de mercado mais íntimas entre áreas afins. De toda forma, dentro de uma certa linha evolutiva, ele está mais do que certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto não necessariamente quer dizer aceitar uma certa postura apocalíptica em relação ao cinema. O desenvolvimento técnico, expressivo e mercadológico do cinema mostrou não ser linear em muitas coisas que se dava como certo: 3D, cheiros exalados na sala ou projeções em 180º foram experiências que não foram pra frente, porque o público em geral preferiu manter a tela reclusa, projetada numa única parede, como se fosse necessário evitar a imersão total, preservando esse distanciamento. De fato, foi esse hábito que permitiu nossa relação com o cinema se tornar minimalista, diminuindo cada vez mais as telas, numa volta improvável ao cinetoscópio do fim do século XIX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, sabe-se lá o que vai ser daqui pra frente. Melhor estar mesmo aberto a tudo. Eu, no entanto, resolvi relaxar e me reconhecer como uma pessoa possivelmente obsoleta, advinda do século passado mesmo, com uma certa expectativa de produção e de apreciação em relação ao cinema. Espero que no meu asilo tenha pelo menos um home theater e uma videoteca razoável. Ou, pelo menos, que eu possa apagar as luzes e ver algo no meu laptop antes de dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;For the records, a abordagem deste tema está apenas começando. Abraços...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-6273963386741118507?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/6273963386741118507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=6273963386741118507' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/6273963386741118507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/6273963386741118507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2008/06/obsolescncia-futuros-antigos-parte-1.html' title='Obsolescência (Futuros Antigos - parte 1)'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-4361930208188415149</id><published>2008-03-14T05:22:00.002-05:00</published><updated>2008-03-14T05:50:12.927-05:00</updated><title type='text'>Estado Contemplativo</title><content type='html'>Isto pode soar um pouco nostálgico, proselitista ou selvagem. Pode escolher um, mais de um, e mesmo todos, como quiser. Ou pode substituir qualquer um deles por “sincero”. Aqui vai:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É provável que Chiara Lubich tenha sido uma das figuras mais influentes do século XX, mesmo sem ter freqüentado os spotlights dos livros de história recente ou periódicos acadêmicos e populares que legitimam as informações circulantes na cultura ocidental. Em 1943, no norte da Itália (portanto bem no meio da 2ª Grande Guerra), ela instituiu um estilo de vida que viria a inspirar a fundação de um &lt;a href="http://www.focolare.org/"&gt;movimento&lt;/a&gt; dentro da Igreja Católica, e que logo tomou proporções maiores do que a própria Igreja, manifestando-se nas mais diversas culturas e concepções – até mesmo agnósticas e ateísticas, diga-se de passagem. Ela e os seus alcançaram essa abrangência indo ao cerne da questão: o amor em suas mais diversas formas iria salvar o mundo. Inspiração cristã, mas que encontra ecos em quem tem outras fés, ou mesmo em quem não tem, especialmente quando nos abstrairmos de preconceitos nossos e alheios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais interessante disso tudo é ter contribuído para uma diferente perspectiva da fé católica, por séculos tão conservadora – a fé, mais do que um mecanismo social cerceador, regulador, punitivo muitas vezes, deveria ser vista como uma atitude prática, aplicada a cada momento para a construção de um mundo melhor possível –, sem de fato fazer barulho a respeito. A própria vida, vivida de forma verdadeira, deveria fazer suas propostas e mostrar um caminho a ser seguido. Dentre tantas inspirações geradas dessa postura, uma particularmente me é cara: a &lt;em&gt;contemplação&lt;/em&gt;. Muito já foi dito sobre isto, por concepções religiosas e humanistas. De São Tomás de Aquino a Hegel, e depois outros investigadores da apreensão da mensagem artística, há coisas belíssimas e instigantes escritas a respeito – de maneira que eu vou me resumir a uma percepção prática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto de dizer que um dos principais atributos de um artista é a capacidade de observação, do macro aos detalhes. É penetrar numa situação, extrair dela algo que é mais do que se apresenta, estar sensível às suas interpretações e a partir de então apresentar uma essência. Reler a realidade. E expressar-se em silêncio. O silêncio fala, como todos sabem, mas poucos sentem. Recolher-se para estar aberto ao outro, e sentir que há algo a dizer a respeito, ainda que seja muito pouco. E deixar que esse dito seja por sua vez contemplado e relido novamente, numa constante atitude de liberdade, aqui também vivida de forma prática. Em outras palavras, reduzir a percepção ao discurso, para que o discurso amplifique uma percepção outra. Para o artista, é entregar sua voz ao silêncio. Para o apreciador, é preencher-se desse silêncio expressivo. Quem fala é a obra, emblema do que é feito, representação em si de uma contemplação inicial que se torna uma contemplação póstuma e que inspira outras contemplações, vivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso dizer que esse pressuposto para a atividade artística eu aprendi com Chiara. Por mais controversa que seja a minha fé, foi dessa parte da minha história que eu tirei este cerne. Nada sistematizado ou premeditado em livros ou sermões – a vida, simplesmente, fala por si. Especialmente quando paramos para contemplá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chiara morreu hoje aos 88 anos, por volta das seis horas da manhã, horário romano – era madrugada no Brasil. Fim sereno de uma vida linda, para dizer o mínimo, perfeito exemplo de uma legítima contemplação ativa. Grazie di tutto, amica, sorella, madre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E che tutti siano uno.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-4361930208188415149?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/4361930208188415149/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=4361930208188415149' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/4361930208188415149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/4361930208188415149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2008/03/estado-contemplativo.html' title='Estado Contemplativo'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-3729190929411671095</id><published>2008-03-02T16:13:00.005-05:00</published><updated>2008-03-04T22:00:43.674-05:00</updated><title type='text'>Metal Sutil</title><content type='html'>&lt;em&gt;Reflexões sobre estatuetas e gigantes de metal...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como prometi, vou tentar fazer meus posts mais freqüentes, mesmo que sejam mais curtos. Aproveitando o Oscar deste ano, normalmente tão cheio de polêmicas e surpresas, pensei em comentar nada sobre a festa em si – este ano prejudicada em preparação pela longa greve de roteiristas –, pouco sobre alguns vencedores (considerando os poucos filmes que vi devido ao pouco tempo que infelizmente dispus), mas sobretudo algumas escolhas da Academia, que me suscitaram algumas reflexões sobre como o cinema, arte técnica por excelência, representa e reapresenta a nossa percepção da realidade. Nessa análise, entra também meu lado pessoal de quem não leva o Oscar tão a sério, mas que continua torcendo pelos seus favoritos, na eterna utopia de que um dia a indústria e a cinefilia possam convergir – quem não estiver interessado nessa parte, já que este blog não se propõe a ser um depositório de críticas, pode pular o próximo longo parágrafo, na boa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princípio, a escolha por &lt;em&gt;Onde os fracos não têm vez&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;No country for old men&lt;/em&gt;, de Joel e Ethan Coen), me deixou muito feliz, bem como os prêmios de roteiro e direção. Sou fã praticamente incondicional dos Coen, quem me conhece sabe. Mas também sou um grande admirador do Paul Thomas Anderson, de &lt;em&gt;Sangue Negro &lt;/em&gt;(&lt;em&gt;There will be blood&lt;/em&gt;), descobrindo recentemente numa lista de discussão cinéfila que sou uma das 5 pessoas que gostou de &lt;em&gt;Embriagado de amor &lt;/em&gt;(&lt;em&gt;Punch Drunk Love&lt;/em&gt;, 2002). Confesso que, sabendo que os Irmãos Coen já haviam ganho melhor roteiro e caminhavam para o melhor filme, estava torcendo pelo Anderson, que nos presenteou com obras-primas como &lt;em&gt;Boogie Nights &lt;/em&gt;e &lt;em&gt;Magnolia&lt;/em&gt;. Enfim, de toda forma, foi legal ver dois representantes legítimos de um cinema americano independente (em estilo) subir no palco e discursar com certa desconfiança daquele universo glamourizado. Outra premiação que reconheço não se tratar de uma injustiça foi pra atriz coadjuvante. Tilda Swinton, sem dúvida, subiu cheia de méritos por sua atuação sutilíssima em &lt;em&gt;Conduta de risco &lt;/em&gt;(&lt;em&gt;Michael Clayton&lt;/em&gt;), aquele limite entre a pessoa que faz deliberadamente suas escolhas mais por sucumbir à pressão do sistema do que propriamente por falta de ética intrínseca. No entanto, eu estava torcendo pela Cate Blanchett (vencedora na mesma categoria em 2005 por &lt;em&gt;The Aviator&lt;/em&gt;, de Scorcese, duas vezes candidata na noite), e por um único prêmio possível para um filme que gostei muito: &lt;em&gt;I’m not there&lt;/em&gt;, de Todd Hayes. No mais, torci pela linda animação &lt;em&gt;Persepolis&lt;/em&gt;, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, mesmo sabendo que &lt;em&gt;Ratatouille&lt;/em&gt;, de Brad Bird, era a barbada da noite – era querer demais ir contra todo um gênero e um estilo estabelecido na indústria, ainda mais quando o filme é pelo menos razoável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maior injuriação veio mesmo nas categorias técnicas, o que me reporta às tais reflexões de que falei. Um amigo meu, que teve suas opiniões corroboradas por muitos do grupo com quem eu assistia à cerimônia, achou que o grande injustiçado da noite foi &lt;em&gt;Transformers&lt;/em&gt;, de Michael Bay. Um dos favoritos em 3 categorias (efeitos visuais, edição de efeitos sonoros e som), terminou não levando nada – e meu amigo havia pontuado algo bem interessante: era possível sentir o peso do metal no asfalto, as engrenagens mutantes se encaixando, dando à nossa visão de um robô virtual completamente integrado à paisagem “real” um ar de verossimilhança que, mesmo na banalização de composições digitais no cinema atual, não deixa de ser impressionante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a eventual injustiça cometida com &lt;em&gt;Transformers &lt;/em&gt;e a conseqüente premiação de seus concorrentes nos revele algo, porém. Nas categorias de som, o metal sutil no asfalto perdeu para a emulação das situações assim vistas como reais de &lt;em&gt;The Bourne Ultimatum&lt;/em&gt;, de Paul Greengrass. Parece que parte da técnica do cinema, desde sua gênese, ainda entra nessa tendência, a de traduzir o mais perfeitamente possível as nossas percepções sensorias na reprodução da tela, ao invés de assumir certas virtualidades e permitir a criação de novos efeitos, atribuindo-lhes uma realidade toda sua, algo tão comum nos nossos tempos (grande mérito, aliás, de um vencedor que um pouco inverteu essa lógica: &lt;em&gt;Matrix&lt;/em&gt;, dos Irmãos Wachowsky, em 2000).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em relação aos efeitos visuais, essa lógica parece completamente contraditória: o vencedor, &lt;em&gt;The Golden Compass&lt;/em&gt;, de Chris Weitz, materializa o universo fantástico bastante peculiar do romance de Philip Pullman, tentando conjugar ciência e magia num mesmo contexto narrativo. Trata-se, de fato, de um mundo à parte, regido não pela nossa física materialista, mas por elementos mágicos que colocam a metafísica exposta como pressuposto. Em contraste com &lt;em&gt;Transformers&lt;/em&gt;, mesmo dentro de uma concepção evidentemente e assumidamente ficcional, ele se distancia de uma emulação da percepção realista, praticamente admitindo dentro de si uma textura digital à qual nosso olhar já está tão familiarizado. A aceitação e assimilação dessas texturas é vista, muitas vezes, como um sinal dos tempos: trata-se de uma acomodação dos sentidos aos numerosos estímulos proporcionados pela invasão das novas mídias na cultura contemporânea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Azar dos robôs alienígenas e do pelo-menos-competente Michael Bay: ao ser um emblema quase perfeito de um ponto de transição na história da percepção cinematográfica, ficou no meio-termo, e não se valeu de nenhum dos lados de sua intersecção. Tudo bem, o filme não é lá essas coisas mesmo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-3729190929411671095?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/3729190929411671095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=3729190929411671095' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3729190929411671095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3729190929411671095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2008/03/metal-sutil.html' title='Metal Sutil'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-3499682306154880123</id><published>2008-02-18T22:31:00.002-05:00</published><updated>2008-02-18T22:46:04.380-05:00</updated><title type='text'>Realidade Suspeita</title><content type='html'>Faz uns dois anos mais ou menos, na ocasião do lançamento no Recife do documentário &lt;em&gt;Pro dia nascer feliz &lt;/em&gt;(2005), o diretor João Jardim se viu diante de uma pergunta inusitada: uma espectadora, impressionada com a articulação discursiva das crianças entrevistadas no filme, interrogou-lhe qual teria sido o critério para definir o espontâneo e o planejado nos textos do filme, certa de que ele detinha o controle da verbalização dos personagens. Ele respondeu que tudo no filme era espontâneo, e que seu trabalho foi simplesmente dar coesão ao discurso através da montagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco tempo antes, o filme &lt;em&gt;O fim e o princípio &lt;/em&gt;(2005), de Eduardo Coutinho, havia estreado na mesma sala, também contando com a participação do diretor num debate após a exibição. Enquanto o filme de Jardim apresentava uma temática clara, um exame crítico e didático sobre o estado do ensino fundamental no Brasil, o documentário de Coutinho falava de um tema mais abrangente e mais livre, expondo a comunidade de parentes idosos no interior da Paraíba mais como uma chave de leitura do que propriamente um foco temático. No debate que se seguiu, de fato, Coutinho admitiu que estava mais interessado na “dramaticidade” dos entrevistados diante da câmera do que propriamente na construção de um discurso temático ou didático. (Esse ponto de vista, por sinal, é radicalizado no seu mais recente trabalho, &lt;em&gt;Jogo de cena&lt;/em&gt;, no ano passado)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais ou menos na mesma época, estava em exibição nos cinemas brasileiros um documentário cubano chamado &lt;em&gt;Suíte Havana &lt;/em&gt;(2003), de Fernando Pérez. Sobre um tema musical constante, vários personagens apresentam suas rotinas e anseios ao público, claramente num jogo expositivo em muito similar a um reality show. Apesar de uma evidente intervenção estética e expressiva (seja na decupagem de cada uma das cenas, ou mesmo na performance das pessoas retratadas), o fato dos personagens interpretarem “eles mesmos” deu à peça uma conotação de conexão com a realidade, o que, unindo-se à intenção do realizador, terminou por caracterizar o filme como um documentário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes três exemplos mostram a dificuldade de se encontrar uma característica específica do gênero documentário nos dias de hoje; muito tem-se discutido sobre o que, de fato, diferencia um filme documentário de uma ficção. Algumas chegam a desconsiderar qualquer diferenciação de gênero, propondo uma quebra total de limites conceituais entre um e outro: elementos dramáticos e expressivos, sempre presentes, vêm sendo mais percebidos na medida em que o documentário abandona uma forma disfarçada de discurso autônomo para admitir um estilo proposto pelo realizador. Essa atitude expressiva desmascara a ilusão de que o discurso do documentário é um reflexo imparcial da realidade. Ao mesmo tempo, coloca em cheque a própria existência do termo “documentário”, pois abre espaço para uma visão restrita aos elementos dramáticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As poucas discussões sobre o assunto normalmente levantam pontos frágeis, colocando a natureza da linguagem documental numa condição de assumir um discurso reflexivo, auto-referente, metalingüístico. Bom, a ficção também usa dessa reflexividade muitas vezes, inclusive dentro de uma forma convencionalmente própria a um documentário, simulando um discurso de realidade que leva o público a se lembrar do outro gênero. Se tradicionalmente, ficção e documentário são termos opostos, neste momento histórico eles parecem estar cada vez mais mesclados. Essa troca de perspectivas no nível da construção do discurso, no entanto, parece mais atribuída a uma escolha estilística do que propriamente uma convergência conceitual: há, claramente, a intenção de usar elementos de estilo de um gênero no outro, com pretensões expressivas distintas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta pensar em filmes como &lt;em&gt;Ilha das Flores &lt;/em&gt;(1989)¸de Jorge Furtado, e &lt;em&gt;A bruxa de Blair &lt;/em&gt;(1999), de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez. No primeiro caso, para expor um certo extrato da realidade para o público (classicamente, uma atitude atribuída ao documentarista), o realizador usa de uma forma literária, narrativa e descritiva, com uma complexidade discursiva humorística que se distancia formalmente do documentário convencional, confundindo-o com uma ficção ou, num ponto conceitual mais próximo, uma crônica assumida. Já no segundo, os realizadores se valeram de elementos de linguagem típicos do documentário para dar a uma trama ficcional o status de algo “real”, acrescentando-lhe uma tensão dramática que talvez nunca estivesse presente na trama em si, não fosse essa conotação de que o fato haveria ocorrido. A reflexividade, no caso, se torna uma metalinguagem de si mesma, e funciona mais como elemento de construção dramática e menos como um limiar conceitual de gêneros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me faz remeter à tal experiência, antecipada no post anterior, que me inspirou a postar este documentário. Semana passada li, na Época, por sugestão de uma amiga, a matéria sobre um menino que se suicidou com o auxílio de chatrooms e websites. Ela me chamou a atenção justamente porque havia visto meu filme de 2004, &lt;em&gt;TheLastNote.com &lt;/em&gt;(quem tiver curiosidade e não se incomodar com a tela pequena, pode vê-lo em &lt;a href="http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1897"&gt;http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1897&lt;/a&gt;), que fala justamente de um serviço na internet para pessoas que desejam se suicidar. O roteiro havia sido escrito em 2002 e era uma obra de ficção, eu pensando ingenuamente na coisa mais cínica que pudesse haver na web neste processo de mercantilização e perda total de intimidade a que estamos expostos no nosso tempo. À parte o fato de que tais chatrooms e sites já existiam até antes do roteiro, fiquei pensando em como a ficção antevê formas documentais, e como nossas fronteiras gerais (não apenas em conceitos de gêneros artísticos) estão cada vez mais frágeis e diluídas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Uma ressalva também à matéria em si: acho impressionante que a discussão tenha simplesmente girado em torno de uma moralidade que remete a tempos e padrões anteriores. Preocupava-se em incriminar as pessoas que estavam conectadas e tentando, ingenuamente ou não, ajudar o menino a se matar – sem se levantar o ponto de que elas próprias poderiam também estar precisando de atenção e compreensão. Acho que a moral ainda é válida, e apenas útil para a sociedade se for rígida, assim como a ética como conhecemos, porém a análise jornalística de uma problemática desse tipo não pode ser tão unilateral, mesmo que seja necessário se tomar partido de algo – estamos, no entanto, em tempos de diálogos também. Vale mais, me parece, estabelecer os pontos cruciais da questão e abrir pra discussão, aprofundando nossa própria opinião sobre as coisas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-3499682306154880123?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/3499682306154880123/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=3499682306154880123' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3499682306154880123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3499682306154880123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2008/02/realidade-suspeita.html' title='Realidade Suspeita'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-7307652932391845232</id><published>2008-02-18T14:57:00.001-05:00</published><updated>2008-02-18T15:39:18.219-05:00</updated><title type='text'>Ressurgindo das cinzas. Ou melhor, da quarta-feira de cinzas...</title><content type='html'>Ano começando (passou o Carnaval, finalmente), resolvi tomar vergonha na cara e mais uma vez tentar tornar este espaço um pouco mais ativo. Mesmo que eventualmente eu escreva pouquinho, fale de coisas mais pessoais do que propriamente acadêmicas e tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cogitei, por exemplo, começar justificando minha tradicional ausência carnavalesca, revelando que adoro o período de festas porque os cinemas estão vazios e a casa tranqüila pra escutar jazz, ler e escrever – de fato, aproveitei pra concluir minha atrasadíssima monografia de especialização. No entanto, este ano, pela primeira vez, cogitei a possibilidade de mudar a minha fantasia costumeira que sempre uso em blocos como “&lt;em&gt;Enquanto Isso na Sala de Justiça&lt;/em&gt;” , que é a de &lt;em&gt;Homem-Invisível&lt;/em&gt;, pra exercitar um pouco minha criatividade dentro do espírito de Momo (nota para não-pernambucanos e outros alienígenas: o bloco sai todo ano no domingo de Carnaval em Olinda e tem como mote para as fantasias o tema de super-heróis e outros personagens de ficção). No fim das contas, só imaginei fantasias que muito pouquíssima gente ia entender – e menos gente ainda ia achar engraçado. Pensei em, tipo, tirar onda com a febre de fantasias baseadas no filme &lt;em&gt;Tropa de Elite &lt;/em&gt;(2007) e a figura do seu protagonista, o Capitão Nascimento, e criar a minha prória: uma longa barba branca, capa, avental de couro e boina, portando uma besta carregada com uma flecha de desentupidor de pia, me apresentando como o “Capitão Renascimento”, líder da Tropa Elíptica, numa referência obscura a Leonardo da Vinci. Ainda bem que poupei todo mundo disto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu disse que ia escrever pouquinho e sobre coisas não-acadêmicas apenas “eventualmente’, de modo que aproveitei uma reportagem que li na Época na semana passada pra retomar algumas reflexões acerca das fronteiras entre ficção e documentário, antevistas num artigo que escrevi na especialização e que aqui apresento em versão bem reduzida e adaptada à perspectiva do blog. Para não me delongar demais e suscitar uma maior interatividade, vou me centrar mais em levantar questões do que propriamente respondê-las, omitindo justamente a parte das conclusões e uma certa viagem que considero acadêmica demais para este espaço. Vamos ver no que dá...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-7307652932391845232?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/7307652932391845232/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=7307652932391845232' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/7307652932391845232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/7307652932391845232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2008/02/retomando.html' title='Ressurgindo das cinzas. Ou melhor, da quarta-feira de cinzas...'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-3421729849341183295</id><published>2007-05-23T21:53:00.000-05:00</published><updated>2007-05-23T21:56:54.923-05:00</updated><title type='text'>Uma incursão ficcional...</title><content type='html'>&lt;em&gt;Diante da problemática irremediável do tempo, terminei apelando para meus arquivos de ficção como um paliativo à minha falta de assiduidade autoral reflexiva. Boa leitura!...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;AS CRIATURAS DA NOITE - Parte 2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, Marco se cansou – mais do que de costume - de sonhar toda noite com coisas que nunca aconteceriam. Resolveu fazer uma greve de sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia uma boa idéia. As pessoas, naquela época, faziam greve de tudo. Se estavam insatisfeitas com o trabalho, não demorava muito e tudo parava. Se alguém ficava insatisfeito com a vida, logo ameaçava não comer mais nada até alguma providência ser tomada. Sendo assim, o que haveria demais em se deixar de dormir simplesmente, se justamente os sonhos, inevitáveis às condições de repouso, eram o problema?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Marco fez assim mesmo. Ficou dias e dias sem dormir. É claro que depois de algum tempo a coisa foi ficando complicada. Quer dizer, apesar de toda a reflexão, fundamentação e clareza de exigências, Marco não podia deixar de dar umas cochiladas. Afinal de contas, era humano como todo mundo. E os sonhos, que não eram bobos nem nada, aproveitavam justamente esses deslizes para esboçar pequenas incursões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Marco era persistente. E fiel às suas idéias. Esses momentos não duravam muito, e mal o sonho estava armado, Marco já acordava, frustrando horas e horas de sono perdido (para os sonhos e para ele).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Páreo duro, esse, de Marco contra os sonhos. E a coisa foi se acirrando, se acirrando, sem nenhuma negociação, por nenhuma das partes interessadas – e desinteressadas. E Marco foi insistindo na sua greve até não precisar mais dormir, e viver seus sonhos na vida real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí foi um problema, porque nem todo mundo estava a fim de saber dos sonhos de Marco, e Marco, que não dormia pra não ter que ver seus sonhos, tinha que lidar com eles todos os dias, enquanto estava acordado. Ou seja, sonhava sem descansar, o que não era em absoluto de seu interesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que Marco teve a melhor idéia que ele poderia ter: dormir. E os sonhos ficavam sem saber o que fazer, sem Marco para vê-los na vida real. E resolveram se recolher ao sono de novo. Só que isto acontecia justamente quando Marco estava acordando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim pelo resto dos dias: os sonhos perseguindo Marco, que nunca estava dormindo ou acordado para eles. E Marco, até hoje, vive sem sonhar. Ou melhor, fugindo dos seus sonhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-3421729849341183295?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/3421729849341183295/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=3421729849341183295' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3421729849341183295'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/3421729849341183295'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2007/05/uma-incurso-ficcional.html' title='Uma incursão ficcional...'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-5143871014353476593</id><published>2007-04-03T08:48:00.000-05:00</published><updated>2007-04-03T08:56:02.172-05:00</updated><title type='text'>Eu não odeio cinema.</title><content type='html'>&lt;em&gt;Reassumindo o espaço depois de um longo e tenebroso verão...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro que estava me disciplinando, tentando pensar em textos menores, pra poder aumentar minha assuidade por aqui. Infelizmente, nem só de blog vive um cérebro, e um monte de coisas surgiram na frente pra que eu novamente ignorasse involuntariamente este espaço. Quando vê, o caramujo já está na PQP e já se passaram três meses desde o último post. Mas, enfim, cá estamos de volta, tentando novamente compensar o atraso. Vamos ver no que dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de algum tempo examinando os processos de percepção e relações sociais desta nossa época virtual (algo ao que pretendo continuar atento), resolvi que voltaria a falar do que em primeiro lugar inspirou a própria existência deste blog, e minha própria insistência em continuar pensando e pontuando certas questões. Pois é, vou voltar a falar de cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, cabe um primeiro esclarecimento, já presente no título deste post. Minha posição crítica em relação a boa parte dos filmes sobre os quais amigos, alunos e recém-conhecidos me perguntam não se dá por conta de eu não gostar de cinema, como muitos dizem, e como seria natural o senso  comum pensar. Aliás, a figura do crítico freqüentemente é referenciada à imagem do chato, do descontente com as coisas, do cara que não relaxa e fica só metendo o pau, que termina ganhando a fama de não apreciar a “sétima arte”. Longe de mim me colocar na posição de crítico de cinema – sou mais realizador e cinéfilo (talvez até acadêmico) do que propriamente crítico. De toda forma, não nego, minha posição é crítica, sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é que, pensando bem, todo mundo é um pouco crítico. Todo mundo tem uma posição ou uma opinião a respeito de filmes, então está exercendo a expressão de sua impressão estética, de sua relação com uma certa obra. E quando alguém expressa que não gosta da maioria dos filmes que vê, é comum aplicarmos fórmulas matemáticas ou lógicas estatísticas e inferir simplesmente: “você não gosta de cinema!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, aqui vai minha real e óbvia posição: se critico tanto os filmes, não é porque não gosto de cinema – muito pelo contrário. É por &lt;em&gt;amar o cinema&lt;/em&gt;, por esperar muito mais dele do que um simples acessório pra comer pipoca ou algo que eu possa interromper para atender o celular, que espero de um filme, no mínimo, uma imersão intensa. Eu espero que ele transponha minhas defesas e reservas, que ele me fale diretamente e de forma forte, sem deixar questões pela metade, sem me empurrar uma ideologia goela abaixo e, mais importante, sem me impedir de &lt;em&gt;pensar sobre ele&lt;/em&gt;. Sim, acho que o filme é também um convite ao pensamento. Não sempre um pensamento crítico ou técnico, mas sobretudo afetivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, recado dado, dêem descontos pela minha nerdice em comentar certos aspectos, e percebam que conhecer questões teóricas e técnicas não me restringem na apreciação de um filme – simplesmente me abre outras possibilidades de leitura. Acho que essa é a riqueza da coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fiquem atentos, já tem um novo texto a caminho. Espero postar na semana que vem (tenham fé, a esperança morre, mas é a última...).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-5143871014353476593?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/5143871014353476593/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=5143871014353476593' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/5143871014353476593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/5143871014353476593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2007/04/eu-no-odeio-cinema.html' title='Eu não odeio cinema.'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-116615699365100252</id><published>2006-12-14T23:25:00.000-05:00</published><updated>2006-12-14T23:37:35.106-05:00</updated><title type='text'>Perspectiva Cósmica</title><content type='html'>&lt;em&gt;Relatório de um pequeno exercício de abstração.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meados de uma tarde atrasada de quinta-feira, dirigindo pra casa com Cecília no banco do carona, passamos à frente de um grande parque no Recife, e retardo o carro com uma freada suave para deixar passar um sujeito ímpar como tantos outros, aspecto sujo de mendigo apesar do corpo aparentemente saudável exibido pela ausência da camisa. Os cabelos desgrenhados antecipavam uma certa dispersão extrema, confirmada segundos depois pela conclusão de que ele falava sozinho, discutindo energicamente com o nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Possivelmente, outros carros com os movimentos ralentados por conta do sujeito em questão caminhando sem rumo tenham simplesmente ficado no estereótipo (que talvez lhe seja adequado) e dito: “Que cara doido!”  Eu, de fato, pensei o mesmo, mas logo depois um pensamento verbalizado me tomou a palavra: “Esse cara é a humanidade”. Diante do olhar curioso de Cecília (e talvez de um leitor posterior deste blog), rapidamente me fiz explicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagine que um explorador alienígena, cuja raça cientificamente avançadíssima já tenha descoberto, entre outras coisas, como navegar distâncias interestelares e como prolongar suas vidas de modo a tirar proveito disto. E imagine que uma sede de conhecimento similar àquela que carregamos o tenha levado a observar com particular interesse um certo planeta azul brilhante em meio a um deserto galáctico inóspito e improdutivo. E agora imagine que ele tenha observado com tanta curiosidade e esmero nossa história que seja capaz de perceber todo esse processo de mundo virtual que está sendo criado via avanços nas ciências da computação – enfim, isto que venho insistindo em discutir por aqui com meu deslumbramento tecnofóbico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso amigo tem consciência das infinitas dimensões do Universo. E na sua jornada pelo conhecimento, tomada na direção da expansão dos limites das informações, já esteve em lugares que o &lt;em&gt;Guia do Mochileiro das Galáxias&lt;/em&gt; de Douglas Adams ainda não registrou. Seria possível esperar que ele olhasse para a espécie aparentemente dominante da Terra e estranhasse a sua atitude de, em vez de estar tentando abranger seu alcance de conhecimento para além dos limites de sua atmosfera, estar criando um mundo endógeno, para uso interno, e complexificando este mundo cada vez mais. E talvez sentisse a vontade de chegar, segurar firmemente o eixo do planeta e chacoalhá-lo com energia, repetindo: “Saia daí de dentro! Há um universo aqui fora!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, ao invés disto, ele simplesmente pegasse sua espaçonave, desse ré e arrancasse para um outro fim do universo, pensando com seus botões brilhantes: “Que planeta doido!”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-116615699365100252?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/116615699365100252/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=116615699365100252' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/116615699365100252'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/116615699365100252'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/12/perspectiva-csmica.html' title='Perspectiva Cósmica'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-116529429217093094</id><published>2006-12-04T23:50:00.000-05:00</published><updated>2006-12-04T23:51:32.183-05:00</updated><title type='text'>Tempo de Sonhar</title><content type='html'>&lt;em&gt;Abstração pós-orgânica e outros termos estranhos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Li outro dia no blog do Silvio Meira uma nota sobre o modafinil, uma droga que faz com que o tempo de 4 a 5 horas de sono tenham uma equivalência ao descanso de 8 a 10 horas, desenvolvido para pessoas que precisam ter atenção desperta pronlongada, como soldados, programadores de software ou workaholic insones obsessivos como este que vos fala. Interessante que a própria existência de drogas como essa parte de uma concepção em que ‘dormir’ não está contido no conceito de ‘viver’ – para muita gente, de fato, é perda de tempo (falo por mim também).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia me pareceu, a princípio, tentadora, mas fiquei pensando em outros possíveis desdobramentos. Afinal de contas, o sono, mesmo sendo uma perda de tempo real para uns, tem lá suas atribuições, certo? Além da mais óbvia, de repousar o corpo e a mente de uma jornada inevitavelmente intensa, preparando para uma próxima igualmente empenhativa, existe a questão do sonhar. Pelo que sei, o sonho corresponde a uma parte muito pequena do nosso sono, sendo restrita ao nível 2 ou 3, quando nossas pálpebras estão se mexendo rapidamente (o popular &lt;em&gt;Rapid Eyebrow Movement &lt;/em&gt;, que deu nome a uma banda americana bastante conhecida). Mas, e se a diminuição de sono, proposta por drogas como o modafinil, for proporcional em suas fases? A conseqüência imediata seria diminuir o tempo de sonhar, minimizando suas funções fisiológicas, lúdicas e simbólicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo, esta última conclusão pode não ser cientificamente comprovada (mesmo levando em conta a proporcionalidade na matemática ou a própria fisiologia do sono). Porém, pode servir também como metáfora para os nossos tempos. Uma metáfora, à primeira vista, contraditória em vários aspectos: enquanto alguns de nós aceitam, passiva ou ativamente, esta submissão total às rotinas de trabalho e produtividade (de modo a assumir o tempo desperto como o tempo vivido), inclusive dormindo naturalmente menos que a maioria das pessoas, outros, precisando de mais horas de sono, teriam de se ver obrigados a consumir a tal droga, “igualando” a quantidade (ou possibilidade) de atividades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta perda de espontaneidade existencial pode (1) não dar conta de uma lacuna relativa entre as pessoas, já que o tempo criativo é tão subjetivo e pessoal quanto necessidades fisiológicas de mais ou menos horas de sono, como também pode (2) gerar mais um elemento de stress e tensão, fazendo com que haja uma obrigatoriedade de tornar o tempo adicional útil; ou, ainda, (3) promover uma espécie de “abstração pós-orgânica”, ou seja, uma necessidade de gerar idéias, detectar desejos e reler a realidade não mais dentro do nosso tempo biológico, mas de um tempo artificial, auto-imposto, pondo a perder o próprio conceito de “abstração”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a contradição maior parece vir na forma de contexto histórico mesmo. Se pensarmos no século XIX, quando os meios de comunicação de massa ganharam força na sociedade como expressão de uma certa ideologia do sistema capitalista cada vez mais arraigado, vemos uma forma de organização que se direcionava para a conformação de crenças e bens. Ou seja, a lógica de uma “sociedade industrial” ditava o que as pessoas tinham que consumir, já que os produtos e as idéias eram concebidos em série, numa linha de montagem que vai do sentido literal ao metafórico.&lt;br /&gt;Um século e meio depois, vemos os meios de massa se tornando “novos meios”, expressão de um outro tipo de organização social: os meios não são mais padronizados para uma “massa” – fatores como interatividade, automação e maleabilidade fazem com que o consumo seja configurado em termos personalizados, aproximando-se da utopia da sociedade de indivíduos únicos. Neste contexto “pós-industrial”, é a customização dos bens e idéias que impera, uma multiplicidade de escolha de consumo oferecida pelas novas tecnologias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ligando com a questão da droga do sono, ou seja, mais uma ferramenta técnica manipulando a rotina humana, surge o paradoxo: estaríamos usando nosso tempo útil adicional como forma de igualar comportamentos e conseqüentes produtividades (lógica industrial) ou para dar conta de uma necessidade nossa enquanto indivíduos (lógica pós-industrial)? Não tenho a resposta imediata, mas me parece que, de um jeito ou de outro, estaríamos sujeitos a um sistema que nos cobra eterna produtividade e submissão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa, parece que eu me tornei apocalíptico, de repente. Vou tentar aliviar, preservando minha personalidade e individualidade e não tomando o tal remédio, continuando com minhas 4 ou 5 horas naturais de sono, e mantendo meus hábitos workahólicos, já que eles são parte de mim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E prometo continuar sonhando...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-116529429217093094?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/116529429217093094/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=116529429217093094' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/116529429217093094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/116529429217093094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/12/tempo-de-sonhar.html' title='Tempo de Sonhar'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-116198613158073396</id><published>2006-10-27T16:54:00.000-05:00</published><updated>2006-10-27T16:59:07.480-05:00</updated><title type='text'>Filosofia Popular Brasileira</title><content type='html'>&lt;em&gt;Sobre o direito de compartilhar pensamentos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia eu voltando de uma palestra em Olinda, no banco de carona do carro da instituição que me fez o convite. A conversa com o motorista, Seu Valdir, estava àquele ponto às voltas sobre partidas de futebol, assunto que me coloca numa posição mais de observador do que  contribuinte de idéias. De repente, aquela pequena pausa de esgotamento de um assunto, o silêncio dominando um instante tão infinito quanto breve, até que alguém puxe o próximo tópico. No caso, Seu Valdir foi mais rápido do que eu, atacando com a frase “O tempo é um negócio engraçado”. E após o “É...” ritualístico da minha parte, ele prosseguiu falando do tempo que gasta sentado naquele mesmo banco, e da distância diária que percorre por dia, não tanto queixando-se e nem achando bom, mas apenas comentando, no fundo, sobre a relatividade das coisas. A minha atenção, reflexo do hábito social entre dois interlocutores, fez com que eu mesmo não me desse conta do tempo e logo me encontrasse diante de casa, despedindo-me de Seu Valdir, agradecendo a chegada segura e a conversa agradável e desejando-lhe uma boa noite, uma boa semana, uma boa vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me dessa experiência ao retomar o contato com um de meus ídolos da pós-adolescência (ou seja, minha vida como aluno de graduação universitária): o filósofo alemão Walter Benjamin. O que mais me atraía nele, desde aquela época, era a forma sem amarras como discorria sobre questões da percepção estética, muito focado nas relações entre obra, autor e espectador. De fato, muitas das questões da chamada pós-modernidade receberam sua atenção especial num momento histórico em que esse conceito nem existia. Mas, enfim, gostava dessa forma de pensar e escrever sem necessariamente recorrer às instituições formais do pensamento – uma “filosofia marginal”, como alguns chamam. Percebi, por exemplo, que é basicamente o que faço aqui neste espaço, falando de coisas sem citar fontes bibliográficas de reflexão, muitas vezes porque elas não existem senão na observação cotidiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí, pensando demais como de costume, fiquei ligando o Benjamin ao Seu Valdir. O primeiro lançou mão da sua capacidade de instrumentalizar seu pensamento e um talento incrível para escrever para se tornar um filósofo, só tardiamente reconhecido pela academia. O segundo, é motorista, e algum biógrafo ocasional talvez nos fale mais de como ele chegou até ali, muito embora isso seja improvável – vivemos numa cultura glamourosa, extremamente seletiva em quem considerar de interesse público. Mas de toda forma, no momento em que Seu Valdir disse “O tempo é um negócio engraçado”, ele estava se equiparando a Benjamin, e a Baudrillard, Foucault, Santo Agostinho e Aristóteles, e a tantos outros filósofos. Baseado na  observação, reflexão e impressão acerca do mundo que está ao seu redor, Seu Valdir postulou uma verdade específica, ou, de forma dialética, estabeleceu uma síntese, abrindo a discussão e passando a bola para a intervenção do seu interlocutor, no caso, eu, que por medo de mim mesmo preferi calar, temendo um debate mais complexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a atitude de Seu Valdir não é isolada. Observando bem, todo mundo filosofa: pensa sobre sua realidade, elabora conceitos, estabelece uma chave de leitura própria. Às vezes faz isso de forma sistemática, mais fácil de ser compartilhada e, sendo tão complexa quanto coerente enquanto argumentação, bastaria encontrar as tais referências bibliográficas para obter reconhecimento acadêmico. Mas na maioria das vezes não. E essa filosofia, que existe à margem do reconhecimento acadêmico – e que talvez assim deva permanecer, pois, no fim das contas, tudo precisa de parâmetros para existir – vai sobrevivendo e sendo compartilhada de forma no mínimo interpessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei em escrever um manifesto sobre essa FPB (Filosofia Popular Brasileira, usando o termo mais como trocadilho retórico do que propriamente com pretensões acadêmicas). Mas isso seria ir contra a própria razão de existência desse tipo de filosofia, a de não ter sistematização. Mais do que uma filosofia marginal, a FPB é uma filosofia amadora: pensa-se apenas pelo prazer, pela necessidade, pelo hábito ou, simplesmente, pelo uso pleno da nossa liberdade. De forma que a partir de hoje, seguindo o exemplo de Seu Valdir, vou me considerar um filósofo amador. Pelo menos, até passar por um curso profissionalizante ou um supletivo, e comece a pensar nisto como profissão. Mas por enquanto, deixa assim que tá massa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-116198613158073396?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/116198613158073396/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=116198613158073396' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/116198613158073396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/116198613158073396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/10/filosofia-popular-brasileira.html' title='Filosofia Popular Brasileira'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-115996222886294033</id><published>2006-10-04T06:43:00.000-05:00</published><updated>2006-10-04T06:48:55.930-05:00</updated><title type='text'>Previsão do Tempo</title><content type='html'>Dando continuidade às costumeiras especulações sobre o futuro em tempos pós-modernos (ou como preferirem chamar esta época maluca), eu me peguei chegando a conclusões meio estranhas ultimamente. Sobretudo neste contexto de eleições gerais, este cívico dever de exercer um direito, contraditório em si somente em países como o Brasil. Anyway, fiquei pensando sobre onde essa coisa toda vai parar dentro de uma lógica mais ou menos tosca, hiperbolizando processos que estão acontecendo agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho falado aqui  sobre tecnofobia, convivência e convergência virtual, seres humanos pós-orgânicos e tudo o mais que nossos antigos futuros nunca sonharam. Seria natural assimilar essa tecnocracia sutil e paulatinamente nas nossas vidas, e nossas relações dependendo cada vez mais dela, e redefinindo na verdade nossos parâmetros de pensamento e convivência. É um processo que já está acontecendo, como muitos já sabem e já vivem, enfim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, uma outra coisa me veio à cabeça quando soube que o mais votado deputado estadual em Pernambuco é um popular pastor evangélico. Não me interpretem mal, não quero criticar a fé de ninguém – mas sempre achei questionável essa coisa de usar a fé para conduzir uma carreira política. A história já provou várias vezes que isso pode se tornar um perigoso equívoco. E, de toda forma, pautar uma plataforma política valendo-se apenas da fé das pessoas me parece tão grave quanto declarar-se representante inquestionável da ética, sem apresentar propostas, fatos ou atitudes em favor disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um jeito ou de outro, fico pensando em outra parcela da população brasileira que engrossa suas fileiras e se sofistica cada vez mais em seus mecanismos: os crentes nessa fé religiosa cega. Ela se contrapõe, de certa forma, àquele modelo humano tecnocrático, que redimensiona, relativiza e rediscute as relações sociais. Mesmo tendo acesso à tecnologia e aos meios diversos de acesso a cyberculturas, essa ideologia neocristã termina formando um universo autosuficiente, com cultura própria, regras próprias e condutas próprias – cultura, regras e condutas que, não raramente, restringem certas liberdades permitidas por aquela outra sociedade, a tecnocrática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que nossa versão oficial de futuro apocalíptico vai ser essa? O velho conflito entre fé cega e ciência cega? Será que estamos falando de uma perspectiva mágica e religiosa voltando a se contrapor a uma visão técnica e cética do mundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tava pensando nisso quando o ônibus (de vez em quando essas reflexões ocorrem dentro dele, como vocês sabem) parou no sinal, numa parte da cidade em que sempre rola um engarrafamento básico. Um carro destes que só funciona com som alto destilava uma música “popular” falando algo sobre “raparigas”, “cabarés” e outros termos que dizem a mesma coisa: um macho querendo comer uma fêmea, enfim, sem usar de sutileza ou elegância para isso, mas valendo-se apenas do contexto hegemônico de gênero em que vivemos. Seria uma terceira corrente, corroborando para uma sociedade intermediária em que as mulheres só têm vez para serem submissas aos desejos dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me imediatamente de um artigo em que Laura Mulvey, um dos maiores nomes no estudo de cinema da atualidade, descrevia o prazer estético da experiência cinematográfica como uma repetição de processos sexuais, postulados anteriormente por Freud, que a fizeram chegar a uma conclusão preocupante: a mulher como objeto diante de um olhar predominantemente masculino. Mais uma forma de repressão de gênero, enfim, só que totalmente legitimada pela nossa sociedade de hoje. Ou pelas nossas sociedades de hoje. Se isso é freqüente dentro do cinema, essa forma de arte que chama à reflexão tanto quanto é item fundamental de sobrevivência cultural, avalie nos contextos demagógicos e acríticos das mídias de massa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vislumbrando essas possibilidades (ainda bem que se tratam apenas de possibilidades, pelo menos por enquanto), confesso que fiquei bem preocupado com o nosso mundo pós-apocalíptico. Se a hipérbole especulativa virar regra, vamos viver num mundo que nem Heinlein, Asimov ou Koontz poderiam pensar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece, novamente, que a realidade imediata é capaz de superar a mais fértil imaginação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-115996222886294033?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/115996222886294033/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=115996222886294033' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115996222886294033'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115996222886294033'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/10/previso-do-tempo.html' title='Previsão do Tempo'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-115742508808025063</id><published>2006-09-04T21:55:00.000-05:00</published><updated>2006-09-04T22:09:25.810-05:00</updated><title type='text'>Amor Livre (parte 1)</title><content type='html'>&lt;em&gt;Sobre os modos de ver e amar o cinema.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mencionei no meu post anterior que comecei na especialização em estudos cinematográficos, não? Pois é, finalmente tentando formalizar e organizar algumas informações que reuni no decorrer destes anos de trabalho, procurando transformá-las em, quem sabe, conhecimentos. Vamos ver no que dá... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A movitação deste texto de agora partiu da aula inaugural do curso, ministrada por João Luiz Vieira, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense. Confesso que demorei um pouco pra entrar no ritmo a princípio lento, mas que logo (talvez por conta da tomada de ritmo do próprio palestrante) a coisa ficou muito interessante. Um dos pontos abordados – e que certamente será assunto polêmico durante todo o decorrer do curso – é o advento das chamadas “novas mídias”, que crescem vertiginosamente e vão, aos poucos e aos muitos, modificando a nossa relação com a forma de arte mais significativa do século XX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mais saudosistas clamavam pela preservação (conceitual ou ideológica, que seja) do “verdadeiro cinema”, aquela do evento social em que um grupo heterogêneo recém-reunido se reúne dentro de uma sala escura para se entregar totalitariamente a uma experiência estética audiovisual, diante de uma tela de cerca de 9 metros por 3, som preferencialmente em boas condições e uma cópia em película contendo inúmeros fotogramas subseqüentes sendo projetados rapidamente um após outro num único ponto, causando-nos a ilusão de uma única imagem em movimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preocupação lícita – sem dúvida, trata-se de uma belíssima experiência, que aos nossos tempos e a outros também pode ser considerada até necessária para uma prática social que permita um aprofundamento estético de forma coletiva, uma reflexão múltipla simultânea, única e diversa ao mesmo tempo, numa imprevisível influência de percepção recíproca. Enfim, o cinema como ainda gostamos de conceber, como ainda enxergamos como ideal, como ainda amamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A contra-argumentação veio em forma de história –  a justificativa antropológica de evitar a palavra “evolução” nos seus textos. Esta etimologicamente quer dizer, afinal, a “melhoria” na passagem de um estágio para outro. Ora, em ciências humanas (ou na percepção humana de processos das outras ciências), “melhoria” é um termo tão eventualmente relativo quanto freqüentemente arbitrário. Não se pode falar, por exemplo, de “evolução cultural”, já que inevitavelmente estaríamos usando um padrão de julgamento baseado num sistema de valores elegido (ou promulgado) como um “melhor”. É uma visão preconceituosa que invalida cientificamente um argumento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, costuma-se falar de “desenvolvimento” – simplesmente o modo como as coisas aconteceram, sem atribuir um juízo de valor a este tipo de coisa. Esta perspectiva pode soar meio entreguista ou funcionalista, mas por outro lado pode evitar preconceitos na hora de analisar um certo processo histórico ou cultural. Como sempre, depende de como você aplica a coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, se pensarmos, por exemplo, que o cinema se torna uma forma de arte depois de um avanço tecnológico, baseado numa série de descobertas científicas, e que a relação de apreciação e consumo do cinema vai mudando a cada nova técnica apresentada, é de se esperar que, num contexto em que o fluxo de informação é intenso, efêmero e extremamente veloz, não apenas as técnicas de apresentação, mas os próprios parâmetros de leitura sejam revistos e atualizados. No fim das contas, estamos evidentemente diante de uma mudança geral de pensamento, de como lidamos com nossas relações pessoais, interpessoais e sociais num ambiente de comunicação bastante complexo pra dizer o mínimo. Se isto pode porventura restringir um pouco da apreciação de que falávamos anteriormente, por outro lado pode abrir novas portas. A percepção é outra, e o que toca o sensorial e o sensitivo também vai ser novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre fica a vontade de compartilhar o sentimento de uma experiência mais intensa, sem dúvida (falando sem saudosismo forçado e muito menos proselitista). Mas talvez estejamos mesmo diante de uma mudança histórica, em que o conceito de cinema, como toda arte, independente de nós, muda de forma autônoma, adaptando-se a gerações vindouras, enfim, sempre maior do que nós. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cabe-nos acostumar-se ao fato ou ainda alguma resistência estética/altruísta? Bem, como de costume, o tempo dirá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-115742508808025063?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/115742508808025063/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=115742508808025063' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115742508808025063'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115742508808025063'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/09/amor-livre-parte-1.html' title='Amor Livre (parte 1)'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-115696732679156301</id><published>2006-08-30T14:47:00.000-05:00</published><updated>2006-09-01T09:30:52.226-05:00</updated><title type='text'>Breve numa academia perto de você</title><content type='html'>&lt;em&gt;Novas configurações sócio-culturais mudam a velha perspectiva de que academia e mercado são mundos à parte.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após todo o primeiro semestre de licença, retomei minhas aulas no curso de publicidade da Universidade Católica, na única disciplina que tenho tempo de ministrar: propaganda audiovisual 2. Como qualquer pessoa que teima em fazer zilhões de atividades ao mesmo tempo (comecei também, aliás, a minha especialização em cinema, aguardem novos textos, sempre espero mais constantes), continuo diluindo meu foco, tempo e energia em outras coisas também. Tanto que já desisti de me desculpar pelo meu descaso constante com este espaço – minhas escusas já devem ser consideradas eternas, enfim, whatever...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anyway, de volta às aulas. Na apresentação da disciplina às novas turmas, reforcei o discurso que venho insistentemente defendendo já faz algum tempo, sobre a necessidade de repensar a comunicação contemporânea, as relações de mercado, os formatos convencionais de mídia e et cetera et al (e tal). É um primeiro choque necessário a estabelecer uma postura crítica não apenas em relação ao conteúdo passado em sala de aula, mas sobretudo na questão de visão do próprio mercado que, sim, está mudando, muito, rápida e inevitavelmente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhando estas mudanças e refletindo acerca de como o trabalho em comunicação vai terminar tendo que se comportar diante delas, venho pensando que a solução está em pesquisas; não como se costuma conceber no mercado estabelecido, com objetivos de rastrear segmentos de mercado, gostos de faixas etárias específicas ou aceitação do produto x, y ou z. Falo de pesquisa de linguagem mesmo, possibilidades e potencialidades de comunicação desses novos meios que estão tomando cada vez mais espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí coincidiu que, outro dia, dei de cara com um texto do Silvio Meira sobre pesquisa cooperativa – aquela feita entre as instituições acadêmicas (que teriam o know-how e o ambiente propício para não apenas coletar informações, mas pensar e tirar conclusões sobre elas) e as empresas (que teriam o interesse de mercado, algum capital para patrocínio e a possibilidade de aplicação prática do conhecimento produzido).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece um caminho meio que inevitável, finalmente. Se por um lado tem faltado um certo pragmatismo por parte dos centros de pesquisa acadêmicos (historicamente falando), por outro, falta consistência e durabilidade em certas práticas de mercado, sobretudo nessa parte de novos meios de comunicação e entretenimento, que é onde posso opinar, enfim. Acho que muito da efemeridade de certas tendências e meios advêm dessa falta de otimização de alguns dos meios. Talvez estudos aprofundados e objetivos de linguagem possam permitir que as potencialidades sejam exploradas ao máximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De toda forma, compreender os mecanismos de comunicação envolvidos nesse processo todo é compreender um pouco do ponto está o pensamento humano. Ou suas diversas correntes, estilos e aspectos. Meu próximo post que, pasmem, sai ainda esta semana, deve tocar no assunto. Aguardo desde já contribuições.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-115696732679156301?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/115696732679156301/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=115696732679156301' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115696732679156301'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115696732679156301'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/08/breve-numa-academia-perto-de-voc.html' title='Breve numa academia perto de você'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-115375861092077192</id><published>2006-07-24T11:24:00.000-05:00</published><updated>2006-07-25T07:49:23.450-05:00</updated><title type='text'>Futuros Antigos (Modernidade Ultrapassada - parte 4)</title><content type='html'>&lt;em&gt;Sobre futurismo retrô e hábitos sociais&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que vou ter que mudar o perfil deste blog para “confissões de um tecnófobo deslumbrado”. Não levem a mal, é só que às vezes a gente está tão envolvido numa coisa que certas fichas não chegam a cair. Neste último fim-de-semana, fiz pela primeira vez uso de um programa que há muito tempo deixou de ser novidade: o Skype. Conversei com uma amiga em Londres, e mais tarde com outra em Curitiba, com transmissão em tempo praticamente real de som e imagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, lembrei de algumas séries de ficção que assistia na infância: o tal de “videofone”, em que um coronel do exército americano conversava diretamente com os super-heróis da Sala de Justiça, parecia um aparato avançadíssimo, e no entanto soa tão banal já neste segundo parágrafo. Achei divertido, porém, pensar nessas coisas a este ponto. Nem tanto um deslumbramento, portanto, mas um exercício de reflexão sem maiores conseqüências. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí comecei a lembrar de outros avanços “previstos” na produção ficcional com que tive contato até agora. Alguns foram alcançados, outros não, outros nem chegaram a ser vistos como avanços, obsoletos em conceito antes mesmo de qualquer desenvolvimento apontar em sua direção. Uma adaptação, aliás, que gostaria de ver na tela, é a série de quadrinhos &lt;em&gt;Terminal City&lt;/em&gt; (1997), criada e escrita por Dean Motter e brilhantemente desenhada por Michael Lark. Os carros voadores da realidade estabelecida na história tinham um design com referência das décadas de 30/40. Os cargos administrativos eram todos ocupados por robôs feitos de aço e ferro pesado, corpo cilíndrico enorme e cabeça esférica de lâmpada, bem diferente do conceito de agilidade, leveza e portabilidade das máquinas de hoje. A forma mais abrangente de comunicação eram mensagens enroladas de papel, enviadas por tubos de ar comprimido, o mesmo sistema usado em alguns navios e submarinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viagens interestelares e colonização de outros planetas são outra grande especulação longe de serem concretizadas. Se no encarte do LP &lt;em&gt;With the Beatles&lt;/em&gt; (1964) há uma citação a pessoas em Marte ouvindo a banda na década de 90, hoje vemos esta realidade muito mais à frente – até por conta de desaceleramento da corrida espacial. Viagem no tempo, só se for subjetiva, espiritual ou metafísica. Nem pensar nos termos físicos previstos por Jules Verne ou por séries como &lt;em&gt;O Túnel do Tempo&lt;/em&gt;, da década de 60. Por falar nesse tempo, o que dizer do cinto de utilidades do Batman carnavalesco de Adam West?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E diante da nossa perda geral de ingenuidade tecnológica, penso em como é hoje a concepção ficcional do futuro. Há, em geral, perspectivas meio apocalípticas, em que seremos obrigados a achar soluções de reconfiguração social via algum aspecto científico – genético no caso de &lt;em&gt;Gattaca&lt;/em&gt; de Andrew Niccol (1997), virtual como em &lt;em&gt;Matrix&lt;/em&gt; dos Wachowski (1999), ou até o psíquico-tecnocrático de &lt;em&gt;Minority Report&lt;/em&gt; de Spielberg (2002), entre muitos outros. O interessante é que, com toda nossa aparente desmistificação acerca da tecnologia e dos seus efeitos na sociedade, hoje olhamos o futuro com certo receio, bem diferente do entusiasmo de outrora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consciência crítica ou um outro tipo de mistificação? Fora ou dentro do ambiente científico, essas especulações sempre existiram, com pesos bem diferentes, é claro. Pelo sim e pelo não, sempre achei melhor não pensar na tecnologia como uma entidade à parte, que se constrói independente da humanidade. Essa coisa de um sistema a que devemos simplesmente nos submeter nunca entrou muito bem na minha cabeça. Mas, enfim, talvez isto também seja uma concepção meio retrô das coisas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-115375861092077192?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/115375861092077192/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=115375861092077192' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115375861092077192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115375861092077192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/07/futuros-antigos-modernidade.html' title='Futuros Antigos (Modernidade Ultrapassada - parte 4)'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-115268320001030790</id><published>2006-07-12T00:45:00.000-05:00</published><updated>2006-07-12T01:25:08.696-05:00</updated><title type='text'>O bom, o mau e o feio</title><content type='html'>&lt;em&gt;Aspectos retóricos de outra paixão nacional&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, segundo post esta semana, pra compensar o atraso vergonhoso em relação à minha penúltima contribuição ao blog. E já que estamos em paixões nacionais, vou emendar com um outro hábito social imediato do brasileiro: novela. Isto porque não apenas a copa acabou, mas também a novela das oito. E antes que vocês perguntem se sou, assim como no caso do futebol, um apreciador de novelas, a resposta é não. Mas sou um interessado nos efeitos da mídia no público. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E muita polêmica girou em torno de &lt;em&gt;Belíssima&lt;/em&gt;, de Sílvio de Abreu, por conta do assim dito inusitado fato dos malvados se darem bem no final. Bia Falcão (a personagem, não minha prima Beatriz, que é super do bem), após uma vida de malvadezas, safa-se do Brasil e vai morar feliz em Paris. Alguns expressaram revolta, outros acharam bem-feito diante da mal-planejada estratégia de captura (burra demais pra ser levada a sério, eu diria). No dia seguinte, milhares de espectadores comentavam com conhecidos e amigos o empolgante capítulo final. Comigo não foi diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um amigo citou uma entrevista que o autor deu à Veja (putz, já tive fontes melhores, mas tudo bem), em que declarava estar impressionado com a perspectiva moral da sociedade brasileira. Dizia que, numa das tantas pesquisas populares que definem os rumos deste gênero narrativo, as pessoas estavam mais interessadas nos personagens que se davam bem a qualquer custo do que nos retos de caráter, os bonzinhos que sempre se fodem. E atribui-se à impunidade escandalosa e escancarada dos últimos tempos este tipo de perspectiva. Bem, eu não digo nem que sim, nem que não. Mas tenho minha própria teoria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes, uma advertência, como de praxe: meus comentários estarão imbuídos de uma certa ideologia estética, digamos, e sempre vão ser de um cara que não é um profundo conhecedor do assunto justamente por não ter paciência de romper a primeira etapa do gosto comum ao estilo da obra. Ou seja, não agüento mais ver novelas, porque na minha opinião, elas decaíram muito, justamente nesse processo de deixar de ser uma narrativa relativamente autônoma para ser totalmente influenciada por pesquisas de opinião baseadas na lei do menor esforço. No mais, todo mundo já sabe que eu sou um chato mesmo. Aqui vai:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário de achar simplesmente que essa possível (até provável) opinião popular seja reflexo dos escândalos de impunidade do país, parece-me que o problema ético (sim, existe um problema ético nisto tudo, por mais pós-modernos e relativistas que sejamos) neste caso específico reside mais no fato de que os personagens maus são mais interessantes, justamente por expressarem mais claramente desejos humanos, egoístas e egocêntricos (personagens mais conflituosos e complexos, portanto, como a mente humana é), em contraponto a um bom comportamento socialmente pré-estabelecido, desprovido de sentimentos, questionamentos internos e desejos próprios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que o problema está justamente na construção dos personagens bonzinhos. Eles terminam sendo meras repetições de valores politicamente corretos, ao invés de uma posição ideológica ou moral que se movimente dentro e a partir de uma certa personalidade, com todos os seus dramas internos postos. É a clássica diferença entre arquétipos e estereótipos: no primeiro caso, o comportamento de um personagem é movido por certas características intrínsecas; no segundo, comportamentos externos são atribuídos ao personagem conferindo-lhe não uma personalidade, mas um mero modo de agir. Seria como dizer que a ação de um arquétipo acontece de dentro pra fora, enquanto a dos estereótipos ocorre de fora pra dentro. Arquétipos são profundos e críveis. Estereótipos não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso me faz lembrar, por exemplo, de Rachel Dawes (vivida por Katie Holmes), a personagem mais chata de &lt;em&gt;Batman Begins &lt;/em&gt;(2005), de Chris Nolan – já mencionado neste espaço anteriormente (ver o post &lt;em&gt;Grandes expectativas&lt;/em&gt;). A moral engessada, expressão evidente de um sistema inquestionável, cheio de regras, é totalmente oposta ao conceito do herói autônomo, movido por uma psicose de base extremamente humana, que se coloca à margem da lei. Um mínimo sentimento de vingança que Bruce Wayne possa ter pelo assassino de seus pais é duramente repreendido pela sua amiga de infância, que conheceu seus pais, mas parece não ter tido nenhum tipo de envolvimento pessoal forte o suficiente para ao menos colocar a compreensão acima da sua subserviência à moral estabelecida. Wayne, expressão maior de sentimentos nossos, com toda a sua ambigüidade e força, nos fala mais alto. Dawes consegue apenas reforçar o teor de um discurso imposto e acrítico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me faz pensar que talvez precisemos de melhores personagens bonzinhos, menos ingenuamente construídos, ou simplesmente melhor equilibrados. Isto em qualquer instância narrativa. Sílvio de Abreu levanta, sem dúvida, pontos importantes ao estabelecer o contraditório cenário político-cultural do país como possível causa da inversão de valores do espectador. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que qualquer paradigma de comunicação é simbiótico, é influenciado ao mesmo tempo que influencia. Acredito sempre na profundidade, na crítica, na expressão sincera como chave necessária para nossa formação moral e ética. É quando vemos as coisas por vários lados, e procuramos de fato entender qual a verdade que nos rodeia. Seja ela qual for.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-115268320001030790?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/115268320001030790/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=115268320001030790' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115268320001030790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115268320001030790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/07/o-bom-o-mau-e-o-feio.html' title='O bom, o mau e o feio'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-115266476320674037</id><published>2006-07-11T19:37:00.000-05:00</published><updated>2006-07-12T01:17:59.600-05:00</updated><title type='text'>Cai o pano</title><content type='html'>&lt;em&gt;Aspectos dramáticos de uma paixão nacional&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já deve parecer que qualquer conversa cujo assunto se relacione ao esporte nacional seja um pouco tripudiar sobre um cadáver. Por isto, este vai ser um post estranhamente curto pra quem está acostumado aos meus pretensiosos artigos. Só pra fechar um ciclo que não tive tempo de fechar antes, enfim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se me perguntam se gosto de futebol respondo que sou um apreciador, e não um torcedor. Gosto, portanto, porém tenho expectativas estéticas e dramáticas sobre o esporte; pra mim, trata-se de um espetáculo, e não simplesmente uma mera competição. Entendam, digo espetáculo inclusive no que diz respeito à platéia; seu envolvimento, sua torcida por um dos lados, sua projeção dentro da obra que se constrói diante de seus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fácil saber, portanto, que me identifico com todos os brasileiros insatisfeitos com o desempenho do escrete brasileiro. De fato, não consegui mover um músculo no segundo gol contra Gana, ao fim do primeiro tempo das oitavas de final. E a postura passiva diante da inevitável desclassificação diante da França só fez piorar tudo. Mas, enfim, não é um ranço de torcedor que estou pretendendo com este texto – cada um já tem o seu, imagino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando falamos de narrativa, estamos nos referindo à manifestação de um conflito: sua apresentação, seu desenrolar e, na maioria das vezes, seu desfecho. Tudo coerente com o que é estabelecido. Qualquer jornada narrativa diz respeito a um protagonista enfrentando um certo tipo de desafio. E pra isso, aquele protagonista vai ter que lançar mão de toda a sua energia pra suplantar os obstáculos e resolver seu conflito, tornando-se vitorioso. Joseph Campbell colocaria isto em termos míticos, ou seja, parâmetros genéricos de manifestações culturais expressando valores humanos. Qualquer drama passa por aí. E é isso que faz com que a platéia se interesse, se envolva, se emocione. E se decepcione, caso expectativas mínimas não sejam correspondidas: um bom final, ou, pelo menos, uma boa performance do conflito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No nosso caso, nem uma coisa, nem outra. Deu mais gosto ver Portugal perdendo, porém com toda a raça possível, na semi-final. Deu gosto também o conflito poderoso da outra semi, entre a anfitriã e a finalmente campeã Itália. Resolução no último instante, depois de uma luta incessante de ambas as partes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado, portanto, parece-me tão importante quanto os processos. Na verdade, deve vir diretamente deles, não? Espero que a moral da história ainda esteja presente daqui a quatro anos. Ou antes. Ou depois.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-115266476320674037?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/115266476320674037/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=115266476320674037' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115266476320674037'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/115266476320674037'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/07/cai-o-pano.html' title='Cai o pano'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-114973331360633507</id><published>2006-06-07T21:18:00.000-05:00</published><updated>2006-06-08T07:51:24.673-05:00</updated><title type='text'>Mundo Errado</title><content type='html'>No que se refere à idade das pessoas, costuma-se dizer que o que vale é o espírito. De uns tempos pra cá, tenho me sentido meio velho. Na verdade, caquético e ranzinza, pra ser mais preciso. O que me faz pensar que o problema sou eu, e não o mundo – pois  é, tenho tido crises de humildade também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já escrevi neste espaço sobre o perigo de gerar expectativas sobre um filme, sobretudo adaptações (vide os posts &lt;em&gt;Grandes Expectativas&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;A máscara apenas sorri&lt;/em&gt;), e tenho me flagrado meio intolerante com algumas das coisas recentes que tenho visto. Novamente, uma outra adaptação de quadrinhos, desta vez evidentemente blockbuster, &lt;em&gt;X-Men 3 – O confronto final&lt;/em&gt;, de Brett Ratner. O que me chamou a atenção é que não há em torno do filme uma unanimidade negativa como no caso de &lt;em&gt;Código Da Vinci&lt;/em&gt;, de Ron Howard – muito pelo contrário, muitos amigos meus, inclusive com gostos afins, gostaram muito do que viram. Enquanto via o filme, porém, não pude deixar de me aborrecer (muito!!!) com as costumeiras frases feitas e tiradas cômicas no meio de uma situação dramática significativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas todos já conhecem bem o gênero blockbuster de ação e sabem que isto faz parte. Então, por que o meu evidente desconforto? Bom, veio-me à cabeça um outro exemplo, este até mais blockbuster ainda: &lt;em&gt;Tróia&lt;/em&gt;, de Wolfgang Petersen. O filme é, na opinião deste espírito antigo que insiste em falar, fuleragem do começo ao fim – com um notável intervalo, porém, que vale todo o sacrifício do resto do filme; uma cena esplêndida tanto do ponto-de-vista técnico quanto dramático mesmo: a fatídica batalha entre Heitor e Aquiles (vividos, respectivamente, por Eric Bana e Brad Pitt). Quem ainda não viu o filme e deseja saborear a surpresa não-existente do desfecho, pode pular o próximo parágrafo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquiles, o maior guerreiro de todos os tempos (alguns diriam “depois de Jack Bauer”, talvez), imbatível em qualquer combate, se porta diante dos muros de Tróia, reivindica com ódio saindo pelos poros do corpo seu direito à vingança pela morte do seu irmão nas mãos de seu oponente mais habilidoso, Heitor. Este último, figura fundamental para a defesa de seu povo, sabe que o direito é lícito e que não tem outra escolha senão aceitar o desafio, mesmo sabendo estar caminhando para a morte certa: nenhuma criatura mortal teria a menor chance num duelo individual com Aquiles. De fato, é o que acontece: mesmo apresentando uma resistência admirável, Heitor é morto por um Aquiles ileso, no máximo um pouquinho mais suado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é interessante notar é que nesta batalha não são feitas concessões: sem piadinhas, sem alívios, sem a mínima incoerência no sentido de dar as costumeiras esperanças ao público, muito embora este esteja aparentemente desesperado por elas. A cena é montada como deve ser: intensa, séria, definitiva, caminha numa única e inevitável direção. Ninguém, personagens ou espectadores, está a salvo, numa situação confortável. É isso que me fez pensar que valeu a pena pagar o ingresso e resistir ao resto do filme. Ponto pro Petersen (para Romero, talvez?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comparando com outros filmes do gênero, tipo X-Men ou, como já escrevi, &lt;em&gt;Batman Begins &lt;/em&gt;(certamente um filme melhor do que todos os exemplos aqui citados), de Chris Nolan, vemos que a problemática se baseia nessa lógica, essa do conforto. É como se a platéia só pudesse ficar tensa até um certo ponto, a partir dali coisas ruins poderiam acontecer e ela poderia começar a babar e querer morder-se a si mesma, sei lá - o que equivaleria a sair da sala ou não indicar o filme a um amigo, prejudicando sua bilheteria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interessante como a imagem da arte está vinculada ao entretenimento, que por sua vez está vinculada ao conforto. Quando Picasso exibe para Braque a sua &lt;em&gt;Les Demoiselles d’Avigon&lt;/em&gt;, pintura que inaugura o cubismo, este reage com nojo. Logo, ao observar e tentar entender melhor, percebe a beleza por trás da forma bizarra, e se torna o outro grande nome do estilo pictórico. O mecanismo de procurar atribuir sentido ao que a obra oferece termina dando a Braque uma possibilidade ímpar não apenas de se expressar, mas de entender o mundo por um outro ponto-de-vista, e de elaborar para si um outro meio de percepção de beleza. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste caso, um hábito de tentar ver algo de uma maneira mais complexa termina, ao contrário do que pensa a maioria, aumentando as possibilidades de apreciar uma obra ao invés de restringí-las. É claro que, numa outra chave de leitura, pode-se pensar o contrário: tudo que não seja minimamente complexo termina soando banal, lugar-comum, medíocre, raso e, portanto, ruim. Talvez seja isso que esteja acontecendo comigo, no fim das contas. Fico eu aqui, nadando contra a maré, achando que os filmes estão cada vez piores, os programas de TV cada vez piores, os breaks comerciais e outdoors cada vez piores, enquanto que, dentro da lógica “é disso que o povo gosta”, tudo isso termina sendo a inegável regra, e não a execrável exceção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí fico sonhando com um mundo onde talento redunda em sucesso, onde a lógica é do compartilhamento e não da imposição, do respeito à diferença e não da obrigatoriedade da padronização, enfim. Um mundo onde a arte é feita sem frases feitas fora de contexto, sem melodramas desnecessários, sem o consumo acrítico de uma ideologia maliciosamente entranhada em cada peça de comunicação. Um mundo onde as pessoas consomem arte, e não apenas se distraem com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, é claro, um mundo sem rabugice tipo esta minha, enfim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-114973331360633507?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/114973331360633507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=114973331360633507' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114973331360633507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114973331360633507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/06/mundo-errado.html' title='Mundo Errado'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-114843055323309593</id><published>2006-05-23T19:24:00.000-05:00</published><updated>2006-05-23T23:35:16.996-05:00</updated><title type='text'>Realidade, Ficção e Meios-Termos (Modernidade Ultrapassada - 3ª parte)</title><content type='html'>Costumo dizer que há vantagens em tomar ônibus, demorar mais tempo pra chegar nos lugares – desde que você esteja confortavelmente sentado e em horários pouco movimentados, digamos. Você tem tempo de pensar, contemplar um pouco as coisas externas e internas. E, ultimamente, tem sido o lugar em que tenho tido mais tempo de ler. Pois é, tenho tentado achar os horários mais suaves, sentado mais ou menos no meio do veículo para não enjoar com os solavancos, e me dedicado às leituras necessárias de cada dia. Numa dessas, comecei a ler um artigo de Umberto Eco (sempre ele!) sobre a função da literatura. De onde eu moro até a Universidade Federal é um bom tempo, principalmente próximo à hora do rush, então pude lê-lo e pensar muito, além de fazer algumas anotações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosamente, os pontos levantados pelo filólogo-semiótico-esteta-escritor italiano tocam um pouco o texto anterior do blog. Isto porque, a um certo ponto, Eco estabelece que uma das funções do texto literário é estabelecer pequenas verdades, encerradas em universos próprios, pré-formatados e acessíveis ao conhecimento público. Mais adiante, contrapondo isso à acessibilidade e interatividade quase absoluta proporcionada pelo ambiente pós-moderno da comunicação virtual – pelo mundo virtual em si, enfim – ele toca em como é possível subverter esses contextos, através de uma composição hipertextual, misturas de uma obra com outra, intervenção numa certa história, e por aí vai. No entanto, ele sempre ressalta que, no fim das contas, a literatura, a obra pura e já imortalizada, termina nos lembrando daquelas verdades literárias, e de certa forma, nos educando que as coisas têm um fim, independente das nossas vontades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, viagens existencialistas à parte (ando batendo muito nesta tecla ultimamente, desculpa aí, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;mea culpa&lt;/span&gt;), foquei minha leitura mais nessa parte do conceito de realidade e ficção, uma pequena problemática que tenho tido particular atenção depois do contato com alguns filmes recentes, classificados ou apresentados dentro do gênero “documentário”; além de outros filmes de ficção que, além de serem “baseados em fatos reais” (ou, simplesmente, “baseados em fatos”, que me soaria menos redundante), usam imagens de arquivo plenamente integradas à sua narrativa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este último caso, aliás, é já bem comum na história do cinema. Mais recentemente, vimos filmes como “Boa Noite Boa Sorte” (Good Night and Good Luck”, 2005), de George Clooney, contrapondo documentos históricos da TV americana com cenas produzidas para o filme. Num exemplo mais pop, “Forrest Gump” (1994), de Robert Zemeckis, ia mais longe e chegava a subverter o próprio contexto dessas imagens originais, fazendo a “ficção interferir na realidade”, digamos assim. Mas isso é algo que já vínhamos tendo contato há algum tempo em programas humorísticos de TV, ou filmes anteriores, enfim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu acho mais interessante para a discussão é justamente o primeiro caso. A reflexão me veio pouco depois de assistir ao cubano “Suite Habana” (2003), de Fernando Pérez, que retrata um entardecer em Havana sob os pontos-de-vista de vários personagens, aparentemente “reais”, porém evidentemente atuando para a câmera. Não muito tempo depois, tive a oportunidade de ver, seguido de um debate com o próprio diretor Eduardo Coutinho, “O fim e o princípio” (2006). Ambos são “documentários” que estão mais interessados em registrar a performance de não-atores diante das câmeras, dentro do contexto de suas rotinas, mais do que a mera cobertura de um fato dentro de uma certa perspectiva jornalística. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coutinho afirma, inclusive, que estava, desde o início do processo de filmagem, disposto a se submeter ao que a realidade tinha a lhe dizer, através daqueles não-atores falando de suas vidas diante da câmera. Dentro desta perspectiva, o mais interessante no filme não é o cotidiano de uma comunidade de parentes idosos no interior da Paraíba, mas a originalidade e a teatralidade daqueles personagens. Creio que não se trata de um documentário concebido nos moldes jornalísticos de busca pela verdade, mas por outro lado certamente não se trata de ficção pura. Arrisco, mesmo sem ter estudado o assunto a fundo, dizer que se trata de uma “realidade expressiva” - a realidade interferindo na ficção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engraçado que, neste último fim-de-semana, participei de um encontro de estudantes de relações internacionais. À parte que conheci pessoas maravilhosas e me diverti muito com as constantes festas, foi legal ter tido um primeiro contato com um campo acadêmico bastante vasto e interessante. Para a nossa discussão aqui, foi particularmente rico ter presenciado um debate entre um roteirista e um historiador acerca de um filme chamado “O pesadelo de Darwin” (“Darwin’s Nightmare”, 2004), de Hubert Sauper. Um crítico amigo meu o havia definido como um “documentário de terror”, com imagens e personagens bizarros que não deixam a desejar a alguns planos de George Romero. A discussão terminou girando em torno da veracidade de algumas informações contidas no filme, apuradas como generalizadas ou exageradas por repórteres do Le Monde. Porém houve um consenso final em reconhecer o filme como fortemente expressivo ao levantar questões que, independente da total fidedignidade imparcial dos fatos (algo que certamente não existe, já que tudo passa por filtros subjetivos de quem conta a história), são pertinentes ao cenário geopolítico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomando aquele conceito de Umberto Eco levantado no início, o documentário poderia ser definido, em termos literários, como o encerramento de uma daquelas verdades expressivas. O que o distanciaria da ficção enquanto gênero? Bem, poderíamos dizer que não muita coisa, poderíamos jogar no processo da construção do discurso, ou poderíamos, simplesmente, relevar a questão de gênero, aceitando que a convergência de linguagens diversas neste ambiente pós-moderno é definitiva, e que é assim que cada vez mais lemos a realidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-114843055323309593?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/114843055323309593/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=114843055323309593' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114843055323309593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114843055323309593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/05/realidade-fico-e-meios-termos.html' title='Realidade, Ficção e Meios-Termos (Modernidade Ultrapassada - 3ª parte)'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-114660088465140416</id><published>2006-05-02T15:12:00.000-05:00</published><updated>2006-05-02T15:19:40.156-05:00</updated><title type='text'>Meios para os fins (Modernidade Ultrapassada - 2ª parte)</title><content type='html'>Neste fim-de-semana, fui a uma festa intimista com alguns amigos. Entre outras atividades nós nos divertimos escutando a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;mash-ups&lt;/span&gt;, remixagens de bases de músicas relativamente conhecidas com linhas harmônicas de outras músicas relativamente conhecidas também, resultando em misturas ora interessantes, ora bizarras, sempre engraçadas. Uma das bandas mais exploradas para a brincadeira eletrônica eram os Beatles, a maior banda pop de todos os tempos, na opinião deste escritor e de boa parte da população mundial. O dono da festa tinha a preocupação de se desculpar para com alguns fãs confessos, boa parte da população da festa, em mexer com algo que seria quase religioso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, os fãs presentes no recinto eram o tipo de fãs um pouco mais comedidos, realmente admiradores da vasta obra dos rapazes de Liverpool, porém não extremistas o suficiente para considerar qualquer tipo de brincadeira uma blasfêmia excomungável, ou para odiarmos incondicionalmente Paul McCartney e Yoko Ono por terem tido a atribuição de responsabilidade pelo fim da banda. Na verdade, um outro amigo chegou a dizer que era grato a eles, justamente por terem colocado fim à banda quando ela tinha mesmo que acabar. Apesar de idolatrar os Beatles desde criancinha e seguir com muito interesse as carreiras solos dos seus ex-membros, não pude deixar de dar razão a este meu amigo. Ele tinha toda a razão: os Beatles acabaram no momento certo. Justamente por terem terminado num momento tão bom, em aspectos artísticos, expressivos e culturais, eles conseguiram se eternizar e ganhar o status de mito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que esta é uma posição pouco aceita pela maioria daquela boa parte da população mundial que é fã dos Beatles. A máxima &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Beatles 4 Ever&lt;/span&gt; deveria ser aplicada de forma física mesmo, muito mais do que metafísica. Isto porque não fomos treinados, no decorrer da nossa vida, a aceitar e lidar com a idéia de fim. Mesmo conscientes de que é pra onde tudo caminha, de que a realidade é fugaz, de que a morte faz parte da vida, e blá-blá-blá, estamos pouco preparados para isto. É fato. Ou melhor, é quase clichê de tão fato que é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas minhas viagens usuais, liguei estes pensamentos com aquela discussão que estabeleci, alguns textos atrás neste espaço, sobre o aspecto fugidio das relações entre os diversos elementos da cultura pós-moderna, em todos os seus aspectos. Mesmo lidando com fins praticamente instantâneos, o próprio conceito de término parece gerar uma contradição em si, acentuando o conflito de novas realidades sendo formadas freneticamente contra outras já formatadas e consagradas no tempo histórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das principais discussões neste ambiente pós-moderno, por exemplo, é a questão do mercado musical. Talvez já tenha mencionado (aqui ou em conversas) que não me parece fazer muito sentido aplicar uma lógica de mercado capitalista mercantil a um ambiente virtual. Por isto, mesmo diante de tantas tentativas de embargo e taxações das grandes gravadoras, as pessoas continuam baixando música free da internet e não se sentem minimamente culpadas por conta disto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No “fim” das contas, parece mesmo que o próprio sistema capitalista está com dificuldades de lidar com seu fim, ou com o redimensionamento de seus mecanismos de existência, se quisermos ser delicados e não falar tão diretamente no assunto. Não estamos diante de uma simples mudança de mercado – isto é apenas emblemático. Estamos diante de uma revolução paradigmática, em que a lógica social, política e econômica deve mudar, para poder chegar a um pensamento que comporte as inevitáveis mudanças (internas e externas) e o impacto dessas mudanças no nosso cotidiano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece-me uma atitude possível nos colocarmos numa posição de revisão constante de nossas vidas, e uma postura constante de fins e recomeços, para tentar entender a dinâmica de uma sociedade que parece se constituir de forma quase alheia. Encontrar, enfim, um “meio”, um método de lidar com essa infindável quantidade de fins a que estamos expostos. E que nunca vão acabar, exatamente por serem fatos da vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-114660088465140416?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/114660088465140416/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=114660088465140416' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114660088465140416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114660088465140416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/05/meios-para-os-fins-modernidade.html' title='Meios para os fins (Modernidade Ultrapassada - 2ª parte)'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-114566502430698893</id><published>2006-04-21T19:15:00.000-05:00</published><updated>2006-04-24T00:02:29.623-05:00</updated><title type='text'>As razões do embargo</title><content type='html'>&lt;em&gt;Porque resolvi boicotar o Cine PE este ano.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta semana encontrei vários amigos pela rua ou nas habituais farras recifenses – um pouco escassas por conta do recente volume intenso de trabalho – e todos me perguntam sobre o evento-mor da cidade esta semana depois do Abril Pro Rock: o Cine PE – Festival do Audiovisual, antigo Festival de Cinema do Recife, praticamente em sua décima edição se não levarmos em conta a mudança do nome. Para todos, respondi que estava boicotando o Cine PE este ano; statement que coloquei também como nick no Messenger. E a próxima pergunta sempre era, naturalmente,  “por quê”? Ou variações disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, aqui vão as razões, muito embora se trate de um embargo um pouco atrapalhado, já que o ideal seria escrever este texto e divulgá-lo antes do evento. Mas como não tive mesmo tempo e como já tinha decidido que não modificaria minha vida por conta do festival, estou escrevendo hoje mesmo – mais como dever cívico, como homem de cultura procurando ser atuante e defendendo uma visão ideológica específica, do que como alguém que se sente na obrigação de prestar esse tipo de justificativa social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de tudo, queria deixar claro que respeito o trabalho dos organizadores do evento, e que não desmereço o esforço feito nestes dez anos; o trabalho, o fato em si. O que eu discordo, aí sim, radicalmente, é de como esse trabalho é conduzido. Basicamente, acho que o Festival acontece pelos motivos errados – como muitos festivais ao redor do mundo. Mas como cineasta e cinéfilo, não posso ficar satisfeito diante de uma postura claramente voltada para o único aspecto da atividade artística que não me interessa: a glamurização. Já é evidente a pouca preocupação com o que é exibido nestes dez anos. Seleções cheias de concessões para contar com este ou aquele convidado, ligações políticas a que estamos já habituados, enquanto um cuidado maior com a programação e a própria qualidade da exibição fica meio capenga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, deixo uma crítica, espero que construtiva, à própria postura dos organizadores em relação à concepção de cultura, inclusive a pernambucana. A impressão que eu tenho é que se aceita um modelo tipo exportação de manifestações culturais, coisa para turista médio ver. Na boa, acho que Pernambuco tem muito mais a oferecer do que isso. Tem, inclusive, uma comunidade significativa de cinéfilos críticos, da qual poderíamos tirar partido e chegar num meio-termo (que seja!) de programação como um importante papel de formação de público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À parte disso, há também um cenário de realização audiovisual ímpar, com pessoas de diversas tendências de estilo, diversidade expressiva de uma cultura por si diversa, o que poderia redundar numa nova concepção de formatos, mas que também pressuporia uma maior diversidade de peças selecionadas para as mostras, para permitir um intercâmbio cultural mais rico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma gafe que evidencia a pouca ciência que o evento tem disso é uma declaração que a diretora do evento fez na coletiva para a imprensa local: “O Festival só começa mesmo na segunda, quando chegam os convidados”. Bom, o detalhe é que o festival, inclusive sua competitiva de curtas, já iria começar um dia antes, no domingo, sem a presença de um dos jurados, inclusive. Acho isso um desrespeito para com os realizadores, e conseqüentemente com o público, sobretudo os que estiveram presentes no domingo. Por sinal, os dois curtas pernambucanos em competição passaram, de fato, naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que há uma preocupação maior em não fazer feio diante de celebridades, bem como tirar partido da presença delas, do que propriamente proporcionar ao público e aos realizadores uma programação de qualidade em todos os aspectos. E como público e realizador que sou, preciso dizer que me sinto meio agredido às vezes, e lamento muito ver tanto potencial de alcance cultural desperdiçado numa visão tosca de evento artístico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que tudo isso é chatice da minha parte, e talvez não deva ser tomada como nada além disso. Quem quiser tirar algo disso que tire. Eu só acho que não temos que repetir parâmetros ao pensar um festival nosso, representativo do que queremos ver e fazer na tela. E esses parâmetros eventualmente estabelecidos por nós devem ser coerentes com o que somos; devem refletir, portanto, diversidade, profundidade, expressividade, trabalho, e tantas outras coisas que nos venhamos a considerar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-114566502430698893?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/114566502430698893/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=114566502430698893' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114566502430698893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114566502430698893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/04/as-razes-do-embargo.html' title='As razões do embargo'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-114529449140149180</id><published>2006-04-17T12:19:00.000-05:00</published><updated>2006-04-17T13:19:07.026-05:00</updated><title type='text'>A máscara apenas sorri</title><content type='html'>&lt;em&gt;Este texto foi escrito a convite de Júlio Cavani para o Diario de Pernambuco e publicado no sábado, 15 de abril de 2006.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou purista a ponto de achar que aspectos da obra original não devem ser mudados numa adaptação. Pelo contrário – a adaptação de uma obra está longe de ser ela mesma; é outra coisa. É célebre a conversa entre Jean-Jacques Annaud e Umberto Eco após &lt;em&gt;O Nome da Rosa &lt;/em&gt;(o filme) ficar pronto. “Está aqui o seu livro”, disse o cineasta segurando uma fita, ao que o escritor se obriga a replicar, dirigindo-se à sua estante: “Não, esse aí é o seu filme; meu livro está aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reflexões como esta me vieram à cabeça depois que assisti a &lt;em&gt;V de Vingança&lt;/em&gt;, produção americana dirigida por James McTiegue e escrita e produzida pelos Irmãos Wachowski, adaptada da série criada pelos britânicos Alan Moore e David Lloyd nos anos 80. De cara, eu nem me incomodaria muito com os diálogos excessivamente didáticos, reduzindo a densidade do teor anarquista da obra original ; ou pelo fato de terem mexido melodramaticamente na essência dos personagens, deixando tudo mais passível de ser aceito pelo &lt;em&gt;American Way of Thinking&lt;/em&gt; e portanto de não ser rechaçado por um público médio; e nem mesmo a contextualização política fictícia ao extremo, cruel ao extremo, caricata ao extremo, sem guardar uma possível projeção mais direta com os cenários totalitários da Inglaterra (da época dos quadrinhos) e ou dos EUA (da atual época do filme). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que incomodou mesmo foi, além da soma desses pontos, ver que a história do filme era o incoerente em si. Metáforas visuais, como o herói anarquista saindo do cativeiro em chamas erguendo os braços em sinal de força, são clichês intrinsecamente contraditórios: como um personagem anarquista, partidário do não-poder, pode celebrar sua liberdade numa pose emblemática ao poder? Nos quadrinhos, a cena é retratada de forma parecida, porém o homem que sai das chamas mantém os braços baixos, apenas olhando seus captores com desprezo, e sumindo em seguida: um herói das sombras, articulador dos fatos – não um pretenso mestre deles. Essa essência é proposta no filme e não é respeitada por ele – problema do roteiro em si, não do simples fato de ser uma adaptação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E acho até que o buraco é mais embaixo – parece mesmo uma questão de “compatibilidade de mercado”: o &lt;em&gt;V de Vingança&lt;/em&gt; de Moore e Lloyd é praticamente uma obra punk, feita para um mercado alternativo dos anos 80, anti-establishment mesmo. Essa incoerência toda pode parecer meio óbvia se pensarmos que essa obra foi jogada no cinema por um dos maiores estúdios da maior indústria do maior modelo de establishment do mundo. Tudo parece estar apenas mascarado por esse ar de sofisticado, transgressor e original, mas vem reforçar os valores de sempre: a uma força opressora, ao perigo de um regime totalitário, justifica-se a oposição de outra força opressora, de outro regime que pouco é diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo meu raciocínio em aberto, pra não ser eu mesmo tão totalitário. E concluo com um trecho da obra original: “O pano de fundo se rasga, os cenários desaparecem e o elenco é devorado pela peça. Há um assassino na matinê, há cadáveres na platéia. E os produtores e os atores não estão certos se o show terminou. Com olhares oblíquos, esperam suas deixas. Mas a máscara apenas sorri.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-114529449140149180?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/114529449140149180/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=114529449140149180' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114529449140149180'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114529449140149180'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/04/mscara-apenas-sorri.html' title='A máscara apenas sorri'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-114365507354962695</id><published>2006-03-29T12:55:00.000-05:00</published><updated>2006-03-29T12:57:53.570-05:00</updated><title type='text'>Modernidade Ultrapassada</title><content type='html'>Recentemente me descobri tecnófobo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra quem não sabe, trabalho com um meio que era tecnologia antes de se tornar arte: o Cinema. E por curiosidade intelectual, pragmatismo de produção e vontade de viabilizar coisas, terminei me envolvendo com um conhecimento um pouco mais aprofundado de certos procedimentos técnicos, em várias etapas da complexa cadeia de produção cinematográfica. Essa “fama” que eu terminei criando advinda dessa curiosidade – ou necessidade de tomar as rédeas dos meus projetos artísticos – terminou me tornando, entre outras coisas, professor universitário e diretor de desenvolvimento e tecnologia do Sindicato Audiovisual de Pernambuco. Vai entender por quê...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De toda forma, isso não tira o fato de que, apesar de compreender os processos e até ter um domínio tal que me permita dar pitaco, a transição para certas rotinas assim ditas “pós-modernas” ainda é lenta e dolorosa. Isso de baixar música, filmes e tudo o que der na telha, por exemplo; isso de ter um celular, de cadastrar fulano por fulano com fotos e toques personalizados a cada ligação; isso de dar um upgrade no meu velho IBM Aptiva 97, que vinha  funcionando perfeitamente (pelo menos para o pouco de tecnologia que exploro) por conta de novos e ameaçadores vírus e por conta das mil e uma possibilidades que só as tecnologias recentes oferecem; isso de criar uma auto-disciplina que garanta a atualização freqüente do seu blog sem a pressão útil de um editor cobrando seu texto ( mea culpa, prometo tentar ser mais assíduo nos novos posts);  enfim, toda essa lógica de obsolescência inevitável a que estamos cotidianamente submissos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é, confesso essa minha condição. Isto porque não se trata apenas de compreender os novos processos técnicos – esta é a parte fácil. Complicado mesmo é organizar os novos processos pessoais para lidar com isso, para aproveitar isto da melhor forma possível. Enfim, trata-se de algo bem mais difícil para a espécie humana: reformular seus hábitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí coincidiu, paralela, perpendicular ou tangente a esta minha descoberta (sempre fiz confusão também com geometria), que eu estava também reformulando minhas atividades profissionais. Pensei, valendo-me de algum estudo, trabalho e interesse nas mídias e formatos (técnicos e de linguagem) que estão surgindo, tentar aplicar meu conhecimento narrativo a este novo contexto de mídia. Também sucedeu que o webzine que abrigava a coluna de mesmo nome que terminou virando este blog foi finalizado e que eu, como se não tivesse mais nada pra fazer, decidi tentar meu mestrado este ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e dada a notória velocidade do fluxo de informações e acontecimentos do que alguns convencionam chamar de pós-modernidade terminaram me fazendo pensar que não vou dar conta do recado. Achei que a desculpa de ser tecnófobo ia me confortar – afinal de contas, é questão de hábito, é só fazer um texto menor, conceder algumas licenças de linguagem, simplifica, Leonardo! Mas o conflito pra adquirir esses hábitos acabou me deixando mais inquieto ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra relaxar, fui começar a estudar pra elaborar meu projeto de mestrado – sendo sobre narrativas mais convencionais, não parecia ser tão ruim. O negócio é que, justamente pra entender linguagens narrativas no contexto em que estamos hoje, é inevitável compreender os mecanismos culturais dessa tal de pós-modernidade. Aí lá vou eu me perder em leituras sobre o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das primeiras características que descobri foi que, do ponto de vista de observação e produção de um eventual conhecimento, a modernidade está constantemente se reinventando. Isto cobra do cara do lado de cá que está estudando uma postura eterna de avaliação e auto-avaliação. Quais minhas referências culturais que ainda sobrevivem neste contexto? Como elas são aplicadas a ele? O que acrescentam e de que se acrescentam? Enfim, em busca de respostas, parece que nos fazemos mais perguntas, e talvez seja mesmo melhor não pensar muito a respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como venho de uma geração (ou de um contexto cultural, por escolha ou herança) que necessita concluir pelo menos momentaneamente as coisas, vou tentar escrever mais um ou dois parágrafos, procurando não encher muito o saco. Nem que a conclusão seja a constatação de que não há uma conclusão, que esta é a lógica pós-moderna, essa cultura de conceitos líquidos que se tornam sínteses antes de formarem princípios. Afinal, logo enfrentaremos problemas práticos. Um exemplo: se a TV chegar a se tornar uma mídia tão interativa como se espera, que utilidade terá o investimento num comercial de 30 segundos de um pequeno, médio ou mesmo grande anunciante? E mesmo em contextos de mídia já existentes, como as TVs por assinatura, como definir o perfil do receptor da mensagem? Enfim, para que público falamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engraçado que hoje de manhã conversava com um amigo sobre essa questão de público. Ele acredita piamente que o público pode ser “formado”, mais do que “rastreado”: remake de “Sinhá Moça” com textura digitalizada de cinema, intercâmbio de elementos de linguagem e o diabo a quatro. No entanto, ao invés de isso tornar mais fácil o trabalho dos emissores da mensagem, acho que pode ser mais laborioso – e é bom que assim seja. De toda forma, qualquer linguagem parece ser possível, desde que comunique algo expressivo e significativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se for assim, bem, sem querer ser idealista ou ingênuo, acho que essa coisa toda pode ser interessante, mesmo para um tecnófobo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-114365507354962695?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/114365507354962695/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=114365507354962695' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114365507354962695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/114365507354962695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/03/modernidade-ultrapassada.html' title='Modernidade Ultrapassada'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113873103130180328</id><published>2006-01-31T13:09:00.000-05:00</published><updated>2006-02-01T09:45:58.110-05:00</updated><title type='text'>O irmão do meio</title><content type='html'>Aristóteles já postulava há alguns milhares de anos que o número três era retoricamente perfeito. Esta lógica pode ser percebida de forma até simplória em argumentações corriqueiras (ponto, contraponto, conclusão), dialéticas (tese, antítese e síntese) e na própria narrativa (começo, meio e fim). As peças de teatro a partir do Renascimento começaram a se organizar em três atos. No mais, o roteirista e professor Jean-Claude Carrière cita a tradição oriental do “Ho-kai-jun” como uma constante em cada cena de um roteiro, abrangendo para a estrutura completa da história: início, desenvolvimento e brilho. Em narrativa, ou qualquer tipo de argumentação retórica, três nunca é demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fácil entender portanto porque algumas histórias são concebidas como trilogias. Quando uma narrativa se desdobra além de uma peça única, a tendência é que ela ocorra em três partes. Analisando cada episódio em separado, no entanto, normalmente chegamos à conclusão de que há diferenças, notadamente de ordem qualitativa, no que diz respeito a um deles. E, na grande maioria dos casos, essa queda se aplica ao segundo episódio. Isso, o do meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este pensamento sobre a natureza do segundo episódio me veio depois de ter visto “Manderlay”, segunda parte da trilogia “U, S &amp; A”, de Lars Von Trier, iniciada pelo impressionante “Dogville”. E então, lembrei-me imediatamente de outras trilogias mais ou menos recentes, como “Matrix”, de Larry e Andy Wachowski, e “O Senhor dos Anéis”, de Peter Jackson, e, considerando mais a parte moderna da série, “Guerra nas Estrelas”, o eterno brinquedo do George Lucas. Vamos por partes. Ou melhor, por três partes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já escrevi sobre “Dogville” neste espaço (ver “A regra da exceção”, caso interesse). Ali, há tanto uma subversão radical não apenas no que diz respeito ao visual evidente (a história transcorrendo sem cenários) como também no mecanismo da linguagem cinematográfica em si, como abordei no meu texto anterior. Mas o que muita gente deixa de evidenciar é a história extremamente forte que está sendo contada daquela forma. Uma crítica a um sistema hegemônico que se expressa através do próprio conteúdo narrativo e se expande para a própria imagem, com ausência de cenários objetivos, apelando para a subjetividade estranha a uma forma de fazer cinema tão hegemônica quanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em “Manderlay”, a impressão geral ao sair da sala foi que as pessoas pensavam ter estado diante de uma obra inferior. Será que Nicole Kidman fez tanta falta assim? Ou foi outra coisa? Bem, à parte que Nicole Kidman faz falta de fato, arriscaria dizer que esta não seria a causa principal. Isto porque, mantendo a estética iniciada na parte anterior, “Manderlay” não traz nenhuma novidade na forma e, por mais que a história esteja bem amarrada e seja bastante intensa e expressiva, o conceito narrativo ainda está em desenvolvimento, e será completo apenas quando a terceira parte, “Wasington”, for lançada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Matrix Reloaded” sofre mais ou menos da mesma síndrome: seqüência de um filme que conseguiu deixar boquiabertos espectadores já habituados a efeitos visuais extremamente impressionantes, traz pouca inovação visual e a história parece um pouco vazia à maioria, pelo que pude perceber em algumas conversas. Lembro que na época eu viajei em comparar “Matrix Reloaded” a um solo do saxofonista John Coltrane, em que a proliferação extrema de notas formava um outro tipo de apreciação musical, que pouco perto passava de um sentido melódico mais objetivo. A viagem era na alta ‘densidade demográfica’ dos sons. Da mesma forma, o filme me parece ser um experimento extremo de seqüências de ação e efeitos visuais, apenas com o intuito de dar ritmo à série do que fechar uma história autônoma. Este raciocínio, de fato, me pareceu correto quando “Matrix Revolutions” foi lançado no ano seguinte. Atenção para a cena do arquiteto na segunda parte, colada na cena final da terceira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vi “Guerra nas Estrelas: Episódio 2 – O Ataque dos Clones”, tive praticamente certeza de que tinha acabado de ver o pior filme da série. Lento no pior sentido, atuações fracas em cenas pífias e tudo mais que pode advir daí. No entanto, depois de ter visto o “Episódio 3 – A Vingança dos Sith”, reconsiderei um pouco, e vi que naquele momento da narrativa (concebida enquanto trilogia) talvez fosse mesmo preciso dispor de momentos menos ‘intensos’, digamos assim – o famoso ponto de respiro da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já na trilogia de “Senhor dos Anéis”, achei que tudo tinha sido uma exceção à regra. A segunda parte, “As Duas Torres”, era, na minha opinião, a melhor das três. Isto porque o primeiro se resumia a apresentar um universo muito complexo, semeando os elementos para várias linhas narrativas e dramas individuais dos numerosos personagens envolvidos; e o terceiro, bem, o terceiro tem problemas narrativos mais sérios, como os vários finais segmentados, ao invés de tentar convergir todas as linhas narrativas para um único (este problema de montagem está comentado em “Ferraris, replicantes e frankensteins”). A história se desenrolava expressiva mesmo na segunda parte, o que é natural se pensarmos na complexidade do universo dramático da série. Não é fácil adaptar mitologias tão conhecidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas famílias de três filhos, há uma recorrência de casos em que o irmão do meio é o mais perdido. Isto porque ele não é nem a forte representação do orgulho da casa (no caso do mais velho) e nem a frágil criatura a ser protegida (no caso do caçula). Ele termina se colocando num limbo, num conjunto de incertezas e frustrações, carente da atenção devida. Bom, não sei até que ponto isto seria uma regra, mas faz sentido ao pensarmos em sentido narrativo e retórico: primeiro se apresenta o contexto, depois tenta-se desenvolver um conceito para só depois concluir-se com um pouco mais de segurança o que se quer dizer. A parte transitória, o meio do caminho, se isolado, encontra-se meio perdido mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me faz pensar que talvez eu tivesse ter usado apenas três exemplos, ao invés de quatro. Pode ser, portanto, que eu tenha deixado alguma coisa em aberto neste meu raciocínio. Então façamos assim: escolham um dos quatro que vocês achem menos pertinente e elimine toda a sua referência do texto. Talvez a coisa toda faça mais sentido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113873103130180328?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113873103130180328/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113873103130180328' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113873103130180328'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113873103130180328'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/o-irmo-do-meio.html' title='O irmão do meio'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113632626206683722</id><published>2006-01-03T17:02:00.000-05:00</published><updated>2006-01-03T17:11:02.076-05:00</updated><title type='text'>Da limitação e suas possibilidades ilimitadas</title><content type='html'>&lt;em&gt;(publicado no blog coletivo Oito Nós)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, além deste blog aqui, fui recentemente convidado a fazer parte de um blog coletivo conhecido como Oito Nós (&lt;a href="http://oitonos.blogspot.com"&gt;http://oitonos.blogspot.com&lt;/a&gt;), cujos temas semanais propostos por membros do grupo são explorados por oito pessoas através de textos. Depois, não sei bem o que acontece, vamos ver como tudo se comporta. Bom, o tema da semana é "Imperfeição". Em princípio, achei ruim. É meu primeiro texto pro grupo e já começamos com isso. Puxa, seria legal falar sobre os méritos ao invés dos deméritos, pra começar, não? Ou sobre Cinema, estética, narrativa, enfim, alguma coisa que domino – se bem que de imperfeição eu acho que entendo, assim como todo mundo. Afinal de contas, ninguém é perfeito mesmo, o que talvez signifique dizer que todo mundo é imperfeito, se adotarmos a assertiva anterior como verdade. Mesmo assim, se a condição humana for a imperfeição, e seja isto que porventura nos diferencie dessa coisa chamada Deus que ninguém viu, mas jura que existe, então ser imperfeito é a condição humana perfeita e por aí vai. Hmm... Talvez seja o caso simplificar, e partir do senso comum, o mesmo que estabelece lá que ninguém é perfeito, ou que todo mundo é imperfeito, enfim. Dessa concepção aí, tinha iniciado a escrever um artigo para a minha coluna ‘Leitor Ótico’ no webzine Vitrolaz (que a esta altura pode ainda existir ou não, mas que de toda forma virou meu primeiro blog: &lt;a href="http://leitor-otico.blogspot.com/"&gt;http://leitor-otico.blogspot.com&lt;/a&gt; ). Aproveito, então, pra retomar o texto. Lembrando só que sou novo nessa história de blog e que provavelmente este texto vai ser super-extenso – vou tentar encurtar, mas sabem como é, ninguém... Oh, well, vocês sabem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, acho que se a gente pudesse colocar a história da arte num gráfico que medisse simetria, estrutura e rigor (por muito tempo, características que condicionavam a perfeição na arte), haveria uma curva vertiginosa para cima, um pico ali por volta do Renascimento, depois um período de estabilização até chegarmos ao Neo-Classicismo, em meados do Século XIX. Aí, a partir de alguns pintores românticos como Bacon e do advento do Impressionismo, a coisa começaria a degringolar, a linha indo abaixo vertiginosamente. Primeiro, vão-se os traços limitadores das formas, deixando as pinceladas mais soltas – valendo-se da certeza científica de que enxergamos luz, e não os objetos em si. Logo em seguida, temos, só pra se ter uma idéia, Seurat pintando com pontos, Gauguin e Toulouse-Lautrec com suas distorções e estilizações anatômicas e Van Gogh com toda a sorte de hiperbolização estilística. Daí pra rediscutir-se tudo sobre proporções, matizes, contrastes, temáticas até, foram pequenos pulinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cito só uma concepção artística proposta por Piet Mondrian pouco mais de meio século depois: a perfeição da obra de arte pictórica está em explorar os extremos das formas (contraste, composição, matiz). Foi aí que ele chegou naquelas composições em vermelho, amarelo e azul, limitadas por linhas pretas dispostas em ângulos retos sobre fundos brancos, que depois foram vulgarizadas em tecidos para vestidos e cortinas. Passado o interesse e a aplicação da novidade, a arte perfeita segundo Mondrian podia rapidamente ser muito chata. De toda forma, se compararmos com o conceito de perfeição artística vigente durante o período do Neo-Classicismo, em que as proporções das formas figurativas deveriam ser rigorosamente respeitadas segundo modelos convencionados, e que as cores deveriam ser suaves, para não chocar o olhar, e que as composições levavam em consideração o equilíbrio entre ângulos retos e linhas diagonais fundando as perspectivas, bem, constataremos que há uma diferença extrema.&lt;br /&gt;Sem dúvida, o alto rigor estético de outrora foi cedendo lugar a formas menos rígidas, porém dotadas de uma alta força expressiva. A “imperfeição”, por assim dizer, termina guiando a intensidade da expressão humana, justamente porque faz cair os padrões que abrandam as emoções, e trazem à luz o novo, o inusitado, o peculiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo processo pode ser presenciado nas outras formas de arte. O Cinema, por exemplo, esta forma de arte que desde o início estava ligada a um apuro técnico ímpar (o domínio de um aparato tecnológico era indispensável), sem falar na aplicação equilibradíssima de outras formas de arte, hoje temos toda a parte de cinema digital revelando um pequeno universo de histórias que se contrapõe à linguagem clássica, estabelecendo parâmetros cada vez mais próprios e variantes. Em relação à música, só pra exemplificar, enquanto escrevo este texto estou escutando a banda britânica Belle &amp; Sebastian, com vocais que estão o tempo todo no limite da afinação aplicados a um range de técnicas instrumentais bastante limitado, se formos pensar no único aspecto do virtuosismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coloca-se, aí, um dilema: os erros, imperfeições, digamos, dessas peças, esses mesmos que as tornam altamente expressivas e são cada vez mais permitidos para deixarem-nas cada vez mais expressivas e por aí vai, bem, até que ponto eles vão chegar? Como diferenciar uma quebra lícita de parâmetros de uma evidente inconsistência de estilo? Enfim, abrangendo esta pergunta para um esquadro um pouco maior: o que se configura, neste atual ambiente de relações e sensações tão efêmeras, como uma imperfeição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não queria cair no clichê conclusivo de que tudo é permitido, até porque, estabelecendo isto como verdade, enfrentaríamos problemas éticos em certas instâncias (a Ética, aliás, é um dos paradoxos filosóficos contemporâneos em meio a toda esta concepção exagerada de ‘respeito ao indivíduo’). Como fazer, então? Voltar aos parâmetros anteriores, em que uma formação mínima era requerida para atuar aqui ou ali? Mas como estabelecer estes parâmetros mínimos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que nos colocamos numa puta encrenca quando falamos sobre imperfeição. Dentre tantas outras contradições, parece que a imperfeição, de cara, nos coloca a necessidade de ter parâmetros próprios. E aí voltamos a discutir gosto, e comparar parâmetros, talvez. Falamos de coisas como deslocamentos de virtuosismo, dissonância conceitual, erros propositais expressivos, enfim. Talvez a tônica seja mesmo a coerência contextual, que por si só é extremamente difícil de estabelecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra não perder muito a linha, talvez o ideal seja mesmo juntar um monte de amigos num blog coletivo e discutir o assunto. Ou postar comentários depois de ler um texto anacrônico qualquer...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113632626206683722?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113632626206683722/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113632626206683722' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113632626206683722'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113632626206683722'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/da-limitao-e-suas-possibilidades.html' title='Da limitação e suas possibilidades ilimitadas'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621761885349024</id><published>2006-01-02T10:57:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T11:00:18.860-05:00</updated><title type='text'>Grandes Expectativas</title><content type='html'>Então, antes de entrarmos no assunto em si, vamos recapitular. O primeiro texto que escrevi para esta coluna se chamava “Universos Restritos” e tomava uma certa adaptação de Quadrinhos para Cinema (“A Liga Extraordinária”) como uma linha-guia para analisar aspectos da linguagem cinematográfica contemporânea submetidas totalitariamente a princípios de marketing, e os possíveis equívocos decorrentes dessa submissão acrítica. Curiosamente, este artigo também parte de uma adaptação dos Quadrinhos para o Cinema, esta de um personagem mais do senso comum – falo da mais recente versão cinematográfica do eterno Cavaleiro das Trevas, “Batman Begins”. E, a partir disto, sobre expectativas e como lidamos com elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma última observação antes de continuar: sim, sou fã do Batman desde criancinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia perfeito. Depois de dois fiascos by Joel Schumacher, um filme dirigido por Christopher Nolan, um jovem diretor no máximo brilhante e no mínimo competente (acho “Amnésia” excepcional e “Insônia” mais ou menos, respectivamente), contando com um ator não-estrela no papel principal (sem uma imagem a manter intacta, portanto) e uma série de grandes estrelas nos papéis coadjuvantes (com imagens já intactas o suficiente, portanto), finalmente o bom e velho Batman teria um filme digno de sua longa tradição dramática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta “longa tradição” começou em 1939, com uma história escrita e desenhada por Bob Kane. Um ano antes, havia acontecido a estréia de um outro personagem célebre da DC Comics, o Super-Homem – um arquétipo moderno para o herói poderoso, altruísta e descerebrado, pronto para colocar sua incrível força à disposição do Sistema. Todos conhecem a história desse alienígena que cai na Terra e é acolhido e educado pela generosidade de um casal de camponeses americanos. As centenas de teorias possíveis tanto para a criação quanto para a aceitação do personagem podem ser exaustivamente discutidas, mas eu fico com a versão de algo que vem do alto como dádiva de Deus aos homens pronto para manter a ordem e o progresso. Qualquer semelhança com uma versão pop de Jesus Cristo pode não ser uma coincidência tão mera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Batman, ao contrário, é fruto de um pressuposto quase oposto, extremamente humano, algo que vem da Terra mesmo: o trauma de um garoto de 8 anos que vê seus pais serem mortos por um criminoso sem rosto bem à sua frente. A primeira história, inclusive, é algo bem mais sombrio, muito mais parecido com os quadrinhos e filmes de referência noir da época do que no glamouroso estilo clean do outro super-herói, o divino lá. E todo o universo desenvolvido a partir de então é repleto de paranóias e psicoses – tanto da parte do vigilante quanto da parte “do mal” (dentro da já fadada visão maniqueísta do mercado quadrinístico americano).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia, estava conversando com um amigo que o Batman é o único personagem totalmente plausível dos quadrinhos. Trata-se, afinal, de um psicótico: um cara tem um puta trauma na infância, e aí passa vinte anos de sua vida treinando pra se vestir de morcego e bater em criminosos à noite. Tudo dentro de um senso rígido de justiça, porém que não é o senso comum: vigilantes independentes não são admitidos na sociedade – conceito que não funciona numa cidade tão corrupta quanto Gotham. Enfim, uma cidade louca, com vilões loucos e um herói igualmente louco – um universo diversificado, coerente e consistente, e como tal extremamente rico de possibilidades narrativas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, como vimos, o aspecto psicológico deste universo é fundamental para entendimento e desenvolvimento do personagem – pelo menos enquanto potencial. E aí vem Joel Schumacher dizendo no último filme que era hora do Batman perder essa psicose pra ser mais ‘paizão’ do Robin McDonnel e da BatGirl Silverstone (“Batman &amp; Robin”, 1997). Apesar de ser de índole pacífica e não gostar de conflitos, confesso que fiquei com vontade de bater nele com o mesmo taco de beisebol que Michael Douglas usou num filme anterior seu, “Dia de Fúria” (“Falling Down”, 1993).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, enfim, vieram os primeiros rumores de que a próxima adaptação seria entregue ao time que mencionei. E aí, veio uma expectativa imensa, porque admirava o trabalho de todos eles. Porém, novamente, esbarramos em alguns aspectos que penso serem de ordem mercadológica. Trata-se, afinal de contas, de um blockbuster, com retorno comercial exigido e, portanto, toda aquela série de formulinhas para fazer de um filme um sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou entrar muito no mérito do filme em si para não estragar a expectativa de ninguém por conta da minha frustração. É um filme que merece ser visto, afinal, e com certeza muito mais digno do que os anteriores – o talento da equipe citada faz de fato diferença. De toda forma, vou apenas mencionar que achei que todo o potencial psicológico ficou restrito a se encaixar numa conduta moral meio pastiche, contraditória e hipócrita em si, de acordo com uma visão maniqueísta, assistencialista e até, por que não dizer, intervencionista americana. (Cuidado! Teoria paranóica de conspiração à vista! Releve quem puder!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, vem a pergunta: se existe tanto essa percepção de que, no fim das contas, estamos diante de um mercado, somente um mercado e nada mais que um mercado, por que continuamos a nutrir tantas expectativas em torno de uma obra que sabemos nascer nesse contexto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que tem a ver com a história de vida de cada um. No caso deste espectador aqui, um aprendiz de cinéfilo que cresceu fã de um dos personagens mais densos das HQs, é natural esperar muito de qualquer adaptação que seja. Mas sempre apreciei um Cinema intenso, profundo e consistente – na verdade, não apenas um Cinema assim, mas qualquer forma narrativa que me dissesse algo tão forte quanto. E ver todo essa força sendo enfraquecida pela obrigatoriedade de explosões pirotécnicas espetaculares, gags caindo de pára-quedas e cenas românticas praticamente burocráticas é algo que vai além de conhecer ou não um personagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto me remete a uma outra experiência de adaptação recente, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (“Charlie &amp; the Chocolate Factory”), de Tim Burton, roteiro de John August. Na primeira adaptação do livro de Roald Dahl (que então assinava também o roteiro), “Willy Wonka &amp;amp; the Chocolate Factory” (1971), dirigida por Mel Stuart, tínhamos uma perspectiva quase bizarra de um universo infantil improvável. Conhecendo a perspectiva autoral do próprio Burton, seria natural esperar que um remake do filme fosse dirigido com ele. Novamente, no entanto, houve uma série de concessões para tornar o filme um pouco mais “família”, politicamente correto mesmo. Não acho que isso chegue a prejudicar o trabalho, porém me peguei meio aborrecido às vezes. Pode ser só minha chatice mesmo, mas novamente cheguei perto de mais uma expectativa frustrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quanto àquela pergunta de dois parágrafos atrás, bem, creio não ter a resposta. As expectativas existem, inevitavelmente existem. Não há como escapar delas, em qualquer instância, muito menos quando nos envolvemos um pouco mais pessoalmente nas coisas. Há talvez como pegar mais leve, reconhecer que estas grandes esperanças que nutrimos podem resultar em grandes frustrações ou pequenas boas surpresas, sempre nos sujeitando ao que o destino, ou o acaso, nos propõe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na dúvida, sempre tenha uma pastilha de magnésia bisurada à mão – ou qualquer outra forma de alívio imediato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621761885349024?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621761885349024/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621761885349024' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621761885349024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621761885349024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/grandes-expectativas.html' title='Grandes Expectativas'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621742726405134</id><published>2006-01-02T10:48:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T10:57:07.270-05:00</updated><title type='text'>Algumas verdades</title><content type='html'>Nestas últimas semanas tive a oportunidade de participar de festivais e, mais importante, ver muitos filmes, dos mais diversos gêneros. Também fui convidado a ministrar uma nova palestra sobre arquétipos e estruturas míticas. Como o tema já foi exaustivamente exposto em diversas ocasiões, resolvi usar de uma abordagem diferente da que vinha usando: escapar um pouco dos manuais de narrativa, na verdade, da própria perspectiva puramente narrativa, com categorizações e aplicações práticas, para falar de uma maneira mais genérica sobre mito e suas personificações. Aí retomei as fontes, Aristóteles na Poética Clássica, a teoria arquetípica de Jung e, é claro, os estudos mitológicos de Campbell.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engraçado que este trabalho de reorganizar o conhecimento com referências mais antigas bateu com o que vinha sentindo ao ver filmes de ficção e documentários, bem como com algumas coisas que vinha conversando com meus alunos na Universidade, algumas de suas impressões sobre filmes, e tal. Aí, comecei a viajar nessa história que existe muito antes de Pedro perguntar a Cristo “Mestre, o que é a verdade?”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Partindo da concepção de Aristóteles, em estabelecer a Poesia (à época, qualquer forma de manifestação artística) como “imitação” da vida, é natural pensar que alcançamos um nível de expressão da verdade, dos fatos e atitudes do ser humano, bastante intenso quando nos dispomos a comunicar através de uma forma estética. De fato, o próprio filósofo propõe que a Poesia contém em si mais elevação do que a História (postulada como o relato fiel de acontecimentos), pois aborda “verdades gerais” ao invés de se ater a “fatos particulares”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta linha de pensamento nos leva imediatamente aos estudos de Campbell sobre mitos. O mito seria uma forma narrativa tradicional que expressa valores e posturas éticas de um povo. Originalmente de cunho religioso ou ideológico, o Mito experimentou um paulatino processo de retroalimentação. Ou seja, hoje, temos diversas histórias que se manifestam e se complementam, estando mais ligadas a valores gerais humanos do que a religiões específicas. O mito se alimenta de si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no nosso cotidiano estamos continuamente expostos às velhas estruturas narrativas míticas. Principalmente, abstraindo para o conceito de arquétipos de Jung, uma espécie de personificação do mito em certos aspectos da personalidade humana – um conjunto de atitudes comuns da nossa espécie frente a certas situações. Quantas vezes nos vemos diante de um chefe ou professor que é ora cruel ora paternal? Isso são manifestações, máscaras de um velho mentor sábio revezando com o de um rígido guardião de fronteira. E quanto a relações amorosas, quantas vezes nos colocamos numa posição de dependência da pessoa amada? O que é isto senão à espera de um príncipe encantado, que por pior que seja nossa situação sempre vai surgir do nada para nos salvar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se os arquétipos e os mitos estão presentes no cotidiano, que dizer das histórias a que somos expostos? Implícita em qualquer conto que lemos, ou uma reportagem que vemos na TV, ou uma música que escutamos, um filme a que assistimos, está a antiga forma de contar histórias. Algumas vezes, estas histórias são mero relato de fatos particulares; outras, expressam uma verdade geral, comum a todos, por uma forma estética. “Imitando” a vida, como colocaria Aristóteles, esta visão se propõe, sim, a apresentar uma verdade, um ponto-de-vista sincero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em contraponto à percepção desta verdade geral, que se percebe subjetivamente, nos vemos diante de um mundo extremamente concreto e materializado. Aí chegamos a algo que parece meio sintomático hoje em dia: a incapacidade de abstração de leitura, diante de um outro conceito retórico que é o da verossimilhança. A história, por mais fantástica e impossível que pareça, deve simplesmente apresentar consistência dramática, coerência com as regras do universo onde se passa, e estas regras, sim, devem estar claras. Tudo para expressar algo, a verdade expressiva do artista, ou simplesmente a verdade expressiva da obra, que é (ou deve ser) até maior que a do artista. O próprio Aristóteles, ainda na sua “Poética” (cap. 19), diz que “quando plausível, o impossível deve se preferir a um possível que não convença”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um exemplo bom disso em filmes recentes de ação: "&lt;em&gt;Matrix&lt;/em&gt;" (1999), de Larry &amp; Andy Wachowsky, e "&lt;em&gt;Missão Impossível 2&lt;/em&gt;" (&lt;em&gt;Mission: Impossible II&lt;/em&gt;, 2000), de John Woo. Na ficção científica dos irmãos americanos, temos impossibilidades evidentes: pessoas dando saltos numa rua inteira, caminhando pelas paredes, movimentando-se numa velocidade extraordinária. Mas tudo é justificado por um sistema de regras bem claro: trata-se de um mundo virtual, no qual algumas mentes são capazes de abstrair e subverter as regras que na verdade apenas simulam àquelas que estamos acostumados. Tudo, portanto, é verossímil. No caso do filme “Super Cruise Me”, o mundo em que a história toma lugar é o nosso, com todas as regras da física plenamente válidas. Aí algumas das manobras fantásticas com motocicletas, os incríveis golpes acrobáticos e tudo mais são, além de impossíveis, implausíveis, pois não há nenhuma justificativa narrativa que embase essa quebra de regras. A trama, portanto, fica inconsistente, deixando de se tornar uma história concisa para se tornar um mero espetáculo de possibilidades estilísticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o público parece ter sido acostumado a uma posição passiva diante disso tudo. Não identifica um universo poético em cada obra, porque isso não lhe é oferecido – um universo, enfim, que seja verdadeiro em si, que expresse suas próprias verdades e convide o público a se envolver. E aí, as pessoas parecem simplesmente confundir ou tratar a verdade artística com a verdade cotidiana, misturando, segundo os conceitos clássicos, a Poesia com a História. Vou usar um outro exemplo pra ver se me explico melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia, tinha ido assistir ao "&lt;em&gt;Kill Bill – Vol. 1&lt;/em&gt;", de Quentin Tarantino, no Teatro do Parque. O público do Parque é bem particular, reage muito à flor-da-pele ao filme. A um certo momento, você parece estar numa partida de hóquei, ou algo do gênero. Engraçado que, quando a Noiva (personagem de Uma Thurman) cortava o membro e fazia da artéria jorrar sangue, o pessoal gritava: “Eita, que mentira!”, ou “É chuveirinho, é?” Isso sem falar quando os personagens quase flutuavam sobre espadas, corrimãos e beiradas de telhados. Mesmo diante de um ambiente evidentemente estiloso, com um universo bem particular usando de uma poética bem clara e específica, as pessoas ainda esperavam que regras da física se aplicassem e que as últimas gotas de sangue não fossem bombeadas pra fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja mais fácil perceber a problemática da abstração de leitura se tomarmos dois filmes de um mesmo autor, cronologicamente próximos um do outro, e que têm um mesmo universo de conteúdo. Pensei em Michael Moore e seus dois últimos filmes: "&lt;em&gt;Tiros em Colombine"&lt;/em&gt; ("&lt;em&gt;Bowling for Colombine&lt;/em&gt;", 2002) e "&lt;em&gt;Farenheit 11 de setembro"&lt;/em&gt; ("&lt;em&gt;Farenheit 9/11&lt;/em&gt;", 2004). De um lado, temos uma estrutura de roteiro extremamente engenhosa, e nos envolvemos mais em nível estético-expressivo mesmo, pois as situações que Moore nos propõe são cômicas, porém cheias de significado, expondo a visão do autor de uma forma bem coerente e intrínseca à própria obra. O discurso anti-armamentista é exposto não como um texto informativo ou ideológico, porém diluído numa série de seqüências criativas e variantes. No segundo filme, temos um conteúdo evidentemente panfletário, sem muita preocupação com variação expressiva, no sentido de criação das seqüências. É o texto que comanda tudo, e as imagens se colocam num lugar meramente ilustrativo. O discurso é coeso, expressando claramente uma posição política, e extremamente bem-construído. Mas Moore não usa das possibilidades estéticas tanto quanto no seu filme anterior. Aristóteles talvez classificasse &lt;em&gt;Colombine &lt;/em&gt;como Poesia, e &lt;em&gt;Farenheit &lt;/em&gt;como História.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em termos expressivos, todos os casos (com exceção do &lt;em&gt;Missão Impossível 2&lt;/em&gt;, cuja inconsistência já detectamos) são verdadeiros em si, ou seja, estabelecem um universo narrativo para o espectador e se mantêm fiéis a este universo. E esta “verdade expressiva” reflete alguns aspectos das nossas verdades cotidianas, os fatos particulares que ocorrem no nosso dia-a-dia. Justamente por, expondo-se sinceramente, discute uma verdade geral, mítica, que está presente em maior ou menor medida em cada um de nós. Creio que precisamos apenas criar o hábito de estarmos sensíveis a estas verdades, e ver que tipo de verdade geral ela está exprimindo e como essa verdade geral se aplica na nossa verdade cotidiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Poesia encerrando a História, e uma posição crítica e reflexiva sobre ela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621742726405134?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621742726405134/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621742726405134' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621742726405134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621742726405134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/algumas-verdades.html' title='Algumas verdades'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621688860844763</id><published>2006-01-02T10:44:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T10:48:08.610-05:00</updated><title type='text'>Universos restritos</title><content type='html'>(&lt;em&gt;Este foi o primeiro artigo que escrevi para o Webzine Vitrolaz, acho que em outubro de 2003. Ele pode ser útil para entender um artigo que devo postar nos próximos dias, chamado "&lt;/em&gt;Grandes expectativas&lt;em&gt;". De toda forma, abstraiam os comentários específicos e guardem os atemporais&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semana passada, passei por três experiências extraordinárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira foi encontrar, para minha grata surpresa, na edição da Cosac &amp; Naify para A narrativa de A. Gordon Pym, único romance de Edgar Allan Poe, um prefácio de ninguém menos que Fiodor Dostoievski, dando uma visão sua da obra deste que é um dos maiores escritores norte-americanos de todos os tempos. Entre outras coisas, Dostoievski classificava Poe de “estranho”, pois sua obra não é, pelo menos numa análise mais profunda, autenticamente fantástica. Ele (Poe) apenas admite a possibilidade extrema de eventos sobrenaturais, mas procura justificar tudo dentro de um sistema de regras tão coerente quanto convincente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda experiência foi assistir uma adaptação cinematográfica para uma obra de Allan Moore, um dos nomes mais importantes no mundo das Histórias em Quadrinhos. O filme, homônimo à obra original, é A Liga Extraordinária, do diretor Stephen Norrington. Talvez vocês já tenham lido algo a respeito, ou mesmo chegado às suas próprias impressões em relação ao filme. Não estou querendo aqui falar mais coisas óbvias a respeito do filme, mas apenas discutir um pouco sobre a realidade de mercado do Cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegando carona no comentário de Dostoievski, na obra original de Moore havia também, a exemplo de Poe, um universo coerente e convincente dentro de suas próprias regras. Em todos os seus trabalhos e como qualquer escritor sério, Moore embasa muito bem estas regras, e as deixa bem claras para o leitor. E que trama bem construída, dentro deste universo! Que bela história os produtores tinham nas mãos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, quando se trata de adaptação dos quadrinhos, os roteiristas normalmente esbarram neste problema: há um universo muito bem construído por trás de cada obra – uma construção muitas vezes impossível de se repetir ao longo de duas horas (quando muito) de filme. E aí normalmente o que acontece é uma decepção do público fiel de quadrinhos, e uma certa incompreensão do público médio que não conhece o universo da história original. OK, realmente é um complicado conseguir absorver a essência de um universo construído em anos para então desenvolver um único filme, uma obra única e independente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isto não é desculpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é desculpa porque o trabalho do cineasta, assim como outros artistas que trabalham com narrativa, é contar uma boa história, seja ela original ou adaptada. E da melhor forma possível. Muitas vezes, o mais difícil é conseguir exatamente esta boa história, esta trama que permite tantas possibilidades, tantos desdobramentos surpreendentes e instigantes para quem assiste. Pois bem, se é uma boa história na sua forma original, por que não pode ser um bom filme?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, as fichas têm começado a cair na cabeça dos produtores. Os filmes, mesmo respeitando um universo pré-existente, são obras autônomas, com necessidades próprias. O problema das recentes adaptações reside provavelmente na inconsistência da trama em si, que na maioria das vezes não é culpa do roteirista e nem do diretor (não estou aqui eximindo minha classe da responsabilidade, em todo caso), mas do direcionamento comercial que é dado ao filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso específico de A Liga Extraordinária, o que houve foi uma série de equívocos – mercadológicos, inclusive. Isto porque, numa história povoada de personagens literários, cuja própria trama depende dos atributos e das histórias de cada um deles, seria preciso pressupor uma mínima familiaridade por parte do público com o universo apresentado. E esta fatia de público que melhor teria condições de consumir o filme está mais interessada numa narrativa consistente do que em cidades indo pelos ares (uma coisa não invalida a outra, a propósito).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao invés disto, seguiu-se um espetáculo de clichês do gênero “ação”. Clichês estes, aliás, que já não funcionam tanto quanto antes. O público, mesmo dentro de um contexto de cultura de massa, em que os elementos estéticos são mais ou menos padronizados, não tem mais tanto entusiasmo por fórmulas feitas – o que é fácil notar quando vemos filmes que abusam de clichês fracassarem vertiginosamente nas bilheterias recentes. Pelo menos, aquelas fora dos Estados Unidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inevitável pensar no caso de Matrix. Dentro do gênero “ação”, com coisas explodindo, seqüências de luta memoráveis e até um pouco de romance para humanizar a história, a base de tudo era um conceito complexo, extremamente abstrato, mas que pôde ser bem exposto desde o primeiro episódio. E mesmo com todos os excessos da segunda parte, existe um universo extremamente coerente e convincente, aos moldes de Poe, se quiser pensar assim. Tanto que ainda nos envolvemos e nos deixamos penetrar neste universo, que se apresenta a nós de forma clara e sólida. E os filmes têm sido um sucesso de público, mesmo com toda a sua complexidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto significa que, no fim das contas, vale mais contar uma história coerente do que tentar adivinhar o que o público quer. Se há algo que pode ser dito a respeito disto, é que o público quer ser surpreendido pelo que está sendo mostrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí chegamos, finalmente, à minha terceira experiência extraordinária desta semana. No domingo, cheguei do Cinema da Fundação, aqui no Recife, de uma sessão lotadíssima para As bicicletas de Belleville, de Sylvain Chomet. Trata-se de uma animação bem fora do convencional, com uma história que demanda esforço não apenas dos personagens, mas do próprio público. Mesmo assim, ao fim de 80 minutos de exibição, a sala não se conteve, e aplaudiu entusiasticamente o que havia visto – algo raríssimo para uma sessão de Cinema. Foi bonito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621688860844763?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621688860844763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621688860844763' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621688860844763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621688860844763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/universos-restritos_02.html' title='Universos restritos'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621653660866734</id><published>2006-01-02T10:33:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T10:42:16.616-05:00</updated><title type='text'>Por que ver os clássicos?</title><content type='html'>(&lt;em&gt;Esta eu publiquei no Vitrolaz faz uns dois anos, mas me parece válido republicar agora que tenho um blog. Talvez por conta de estar lidando com um brinquedinho novo, não sei. Mas, lembro que na época os comentários feitos ao texto culminaram em listas bem interessantes de filmes clássicos. Então, enfim, aqui vai:&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Janeiro é teoricamente um mês mais tranqüilo, em que se começa a planejar tudo para o ano que chega. Desde projetar as metas de desempenho de uma empresa ou cair no velho clichê de tomar decisões pessoais do tipo “este ano eu paro de fumar”. Geralmente, coisas que raramente são cumpridas, por mais entusiasta que seja a nossa esperança. Mesmo assim, é um exercício válido este de se planejar para ter uma vida melhor, para ser uma pessoa melhor. Sendo assim, também atendendo ao pedido de uma aluna minha, eu gostaria de adicionar à lista de intenções para o novo ano um outro aspecto de crescimento pessoal: ver filmes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre achei muito difícil estabelecer um elenco de filmes favoritos, de músicas favoritas, de livros favoritos, enfim, de coisas favoritas em geral. A humanidade produziu muitas coisas boas nestes séculos em que tomou consciência de si, e todos nós temos muitas lacunas a serem preenchidas. Mas como o tal pedido pedia para indicar “filmes clássicos e inteligentes”, resolvi fazer uma brincadeira com o título do ensaio de Italo Calvino. Ao invés de “ler”, referindo-se à literatura, usei o “ver”, logicamente com o intuito de propor uma lista de filmes. E queria aproveitar pra convidar vocês a usar o espaço de comentários para sugerir uma lista própria, como forma de trocar idéias e “promover uma maior integração entre as pessoas” e toda esta conversa de ano novo. E além do mais, bom, pode ser divertido, certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OK, eu começo. Mas antes, vamos instituir algumas regras para a formação das nossas listas, para que todos possam jogar em iguais condições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, vamos combinar um número máximo de obras sugeridas, pra esta coluna não se tornar um catálogo de sugestões. Digamos, muito arbitrariamente, vinte (20). Acho um bom número, nem grande, nem pequeno, e dá pra juntar um bom volume de “trabalho” para o nosso tempo eventualmente livre nestes primeiros meses do ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em segundo, vamos discutir um pouco o conceito de “clássico”. Dos verbetes que encontrei no Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, considerei que dois deles melhor correspondiam ao conceito que quero propor. Segundo eles, “clássico” é “(...) obra ou autor que, por sua originalidade, pureza de expressão e forma irrepreensível, constitui modelo digno de imitação”, ou “que é considerado como modelo do gênero”. Sendo assim, não vamos nos restringir à leitura “clássica” do conceito de “clássico” (perdoem o trocadilho), ou seja, um célebre do passado que obteve destaque histórico – algo “antigo”. De fato, se formos nos ater às classificações das locadoras e canais de TV, chegaremos mais nesta definição do que propriamente neste conceito que estou propondo: qualquer filme “antigo” é um filme “clássico”. Eu considero que, no entanto, podemos usar exemplos mais recentes que consideremos “modelo”, e que, claro, tenham alcançado um nível de destaque que pelo menos faça com que mais de um nós se lembre deles. Aí, vale usar o bom senso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em terceiro, e depois disto deixo de suspense e revelo minha lista, vamos determinar que precisamos justificar a presença de cada filme na nossa lista – porque ele nos tocou, porque o consideramos importante na história do cinema, enfim, porque é fundamental vê-lo. Assim, nossa escolha deixa de ser puramente instintiva e passa a ser consciente, o que pode até ajudar a nós mesmos a saber o que nos atrai num filme. Os clássicos, no caso, servem não apenas de influência para as gerações futuras de “fazedores de filmes”, mas também (e sobretudo) para o público formar um repertório de apreciação e leitura e trazer sua exigência em relação a filmes para um nível mais apurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto, sem mais delongas, posso finalmente revelar minha lista. Com uma última ressalva, porém: certamente deixarei de fora algumas grandes obras, seja por falta de espaço, puro esquecimento ou uma lacuna cultural minha mesmo. Também procurei sugerir alguns autores, em filmes menos óbvios deles. Mas, como disse antes, a participação de vocês vai fazer com que esta lista de sugestões cresça e vá ficando completa aos poucos. Aqui vai, então, em ordem cronológica:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1- A VIAGEM À LUA (“Le voyage dans la Lune”, 1908), de Georges Méliès. Falando de clássicos influenciando gerações futuras, começo sugerindo a obra mais famosa do homem que é tido como responsável por tornar o cinema uma arte narrativa; neste curta de pouco mais de 10 minutos, Méliès abusa da ficção científica, sem o medo e o pudor que muitos de nós herdamos hoje com a perda da ingenuidade tecnológica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2- O ENCOURAÇADO POTEMKIN (“Bronienosets Potemkin”, 1925), de Sergei Eisenstein. Não poderia deixar de fora da lista um representante do grupo que estabeleceu princípios deste elemento específico da gramática cinematográfica, a montagem. Cada plano é extremamente expressivo, inserido em meio a seqüências memoráveis, fluidas e plenamente integradas na narrativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3- TEMPOS MODERNOS (“Modern times”, 1936), de Charles Chaplin. Embora seja lembrado pelas comédias ingênuas e minimalistas, Chaplin tem seus momentos sérios e comoventes. Este filme apresenta um pouco a condição do social do americano médio na crise pós-quebra da bolsa de Nova York, quase esboçando uma posição política, sem deixar de ser engraçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4- CIDADÃO KANE (“Citizen Kane”, 1941), de Orson Welles. Conjugando como poucos as possibilidades técnicas e expressivas da arte cinematográfica, Welles compõe este retrato do homem de sua época – pelo menos em termos de desejo. Outra boa pedida deste mesmo autor é “A marca da maldade” (“Touch of evil”, 1958), que dentre os seus vários atributos tem uma das melhores seqüências de abertura da história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5- FELICIDADE NÃO SE COMPRA (“It’s a wonderful life”, 1948), de Frank Capra. Alguns poderiam considerar este filme um melodrama ingênuo; eu o vejo mais como um maduro exercício narrativo de um diretor com um número impressionante de filmes realizados. Envolve pela emoção, é verdade, porém de forma inteligente e coesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6- JANELA INDISCRETA (”Rear window”, 1954), de Alfred Hitchcock. O Mestre do Suspense não poderia ficar de fora desta lista. Porque ele é muito mais do que simplesmente este título. Sua obra é tão diversa quanto inconfundível, um caso raro de domínio técnico e narrativo. Este filme, particularmente, impressiona por se passar praticamente num único lugar (com o protagonista imóvel numa cadeira devido a uma fratura na perna), e manter a tensão o tempo todo, o que, aliás, é uma marca registrada do autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7- QUANDO VOAM AS CEGONHAS (“Letjat zhuravli”, 1957), de Mikhail Kalatozov. Não há muita gente que conheça este diretor, que não apenas surpreende pelo experimentalismo técnico, mas sobretudo por aplicar com muita propriedade os recursos de câmera e montagem a serviço de uma obra extremamente expressiva. Este filme, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes (em 1958, se não me engano) é um exemplo evidente disto. Além de ser belíssimo, é claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8- A AVENTURA (“L’Avventura”, 1960), de Michelangelo Antonioni. Eis um de meus cineastas favoritos. Sua narrativa é sutil, consistente, sofisticadíssima. O ritmo aparentemente lento causa uma tensão que faz a gente esquecer do tempo. Quando vê, a história acabou, e você é capaz de lembrar de cada detalhe dela. Respire fundo antes de começar, e se esqueça por algumas horas que existe um mundo lá fora. Vale a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9- OITO E MEIO (“8½”, 1963), de Federico Fellini. Quem leu um artigo anterior meu, “Sobre direção de cinema”, já deve ter notado que eu adoro filmes que falam sobre fazer filmes. No caso deste, ressalto apenas que se trata de Fellini, outro dos meus favoritos. Ele constrói o roteiro de um jeito tão desconexo e tão integrado ao mesmo tempo, que o filme vai nos conduzindo por todas as sensações possíveis dentro da cabeça de um diretor em conflito. Tem momentos que a gente se sente invadindo a privacidade do personagem. O fim é apoteótico, não apenas do ponto de vista de forma, mas sobretudo do emotivo mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10- DR. FANTÁSTICO (“Dr. Strangelove or How I learned to stop worrying and loved the bomb”, 1964), de Stanley Kubrick. Outro que cito um filme apenas para instigar assistir a outros. Kubrick parece deixar a platéia sempre pra trás, sempre perseguindo a narrativa. É uma tensão constante, quase cansativa, mas daquelas que a gente se sente recompensado pelo esforço ao final. Falando especificamente deste filme, foi um dos mais divertidos que eu já vi. Ao mesmo tempo, fala da perspectiva bélica norte-americana e da tensão política mundial de uma maneira surpreendentemente atual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11- PLAYTIME (“Playtime”, 1967), de Jacques Tati. Quem não viu “Meu Tio” (“Mon Oncle”), deste francês minimalista, assista. Quem já viu, pode pular para este outro filme dele, que mostra uma Paris bem diferente da visão “clássica” (por assim dizer). Pra mim, não é apenas uma obra agradável de ver; parece-me um homem que se reconhece ultrapassado em seu próprio tempo, e percebe que a única coisa que pode ainda acrescentar ao mundo é dar uma visão sua de todo este seu processo. Muito verdadeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12- A NOITE AMERICANA (“La nuit americaine”, 1973), de François Truffaut. Acho que já estou me repetindo, mas se trata de outro filme sobre fazer filmes. Particularmente pra mim, que tenho tido vivências em sets de filmagens já faz algum tempo, morro de rir com as situações propostas. Paralelamente, Truffaut faz uma profissão de fé, com personagens consistentes e bem particulares, e há momentos em que parece sintetizar todas as coisas que podem dar certo ou errado numa produção. E olhe que não são poucas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13- MOTORISTA DE TÁXI (“Taxi Driver”, 1976), de Martin Scorcese. Acho que foi um dos primeiros filmes de Scorcese a que tive acesso – outro que vale a pena ver várias obras. O mito do herói americano é posto à prova o tempo todo, quando vemos o personagem controverso de Robert de Niro perdendo-se ao mesmo tempo em que se encontra. Tudo caminhando para o que diz Carrière sobre sua perspectiva do final de um filme: tão surpreendente quanto inevitável. Pra quem não conhece bem o diretor, espero que este seja o início de uma grande amizade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14- NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (“Annie Hall”, 1977), de Woody Allen. Que dizer de Woody Allen, então? Especialmente deste filme, que na minha modesta opinião é um dos mais engraçados e expressivos dele. Ele faz de tudo o que se pode fazer num roteiro, indo de uma narrativa fluida e sólida até trechos de metalinguagem evidente. Tudo isto sem forçar a barra, muito pelo contrário, aliás. No mais, diálogos deliciosos, como de costume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15- APOCALIPSE NOW (Id., 1978), de Francis Ford Coppola. É clichê dizer isto, mas se trata mesmo da obra máxima do Coppola. O início é impressionante, bem representativo da estética dos anos 70 (“clássico”, portanto), já convidando o espectador a se abandonar na história. A platéia segue o ritmo do filme, tomando cada vez mais conhecimento do conflito do protagonista na medida exata em que este vai se aproximando do seu objetivo. Além do mais, a produção é impecável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16- O SHOW DEVE CONTINUAR (“All that jazz”, 1979), de Bob Fosse. Falar de seu próprio universo pode parecer uma tarefa fácil. Mas poucos conseguiram tornar isto realmente interessante de forma tão criativa, sincera e coerente. Coreógrafo e escritor de vários musicais, Fosse fez esta bela quase-autobiografia, numa estrutura de roteiro original e envolvente. Rob Schneider está maravilhoso e Jessica Lange linda de morrer – vocês logo vão entender o que eu quero dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17- O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (“Blade Runner”, 1982), de Ridley Scott. Falando em obras máximas, um clássico da primeira metade dos anos 80. A estrutura de roteiro é toda de filme noir, com o detetive atormentado fazendo intervenções em voice over o tempo todo, enquanto a ação policial vai rolando num universo inusitado e muito bem construído. De longe, o melhor filme de Ridley Scott, mostrando que domina bem a gramática cinematográfica por seu trabalho de vários anos na direção de comerciais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18- RAN (Id., 1985), de Akira Kurosawa. Citei esta obra já de fim de carreira, por se tratar do caso de um artista oriental apresentando sua visão de uma célebre obra ocidental (Rei Lear, de Shakespeare). Ao mesmo tempo que universal, mostrando emoções humanas de forma escancarada, a forma de contar esta história é bem específica: profunda, tensa, lenta apenas o bastante para nos trazer totalitariamente para dentro da trama. Kurosawa é um dos mestres que consegue fazer com que sua cultura local se abra para uma perspectiva completamente aberta e acessível a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19- DELÍRIOS DE HOLLYWOOD (“Barton Fink”, 1991), de Joel Coen. Eu sou suspeito pra falar deste filme por, basicamente, dois motivos: primeiro, sou roteirista, como o protagonista do filme, e tenho dramas, conflitos e desejos parecidos com os dele; segundo, sou fã meio incondicional dos Irmãos Coen, que estabelecem universos e situações fantásticas de uma forma como se fossem a coisa mais natural do mundo, o que é inquietante. Só quando paramos pra pensar é que percebemos o efeito que os filmes deles têm em nós. Aqui, particularmente, eles nos mostram o quanto escrever pode ser perigoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20- MATRIX (“The Matrix”, 1999), de Larry &amp; Andy Wachowski. Gosto de analisar as duas coisas em separado, o primeiro Matrix e a trilogia completa – e gosto das duas, de certa forma. É legal perceber que, numa época em que os efeitos digitais alcançaram o máximo da perfeição técnica, este filme quase alternativo conseguiu renovar o padrão, voltando às bases óticas do cinema. É um exemplo de como o cinema pode ser coletivo, com cada área contribuindo para a criação algo uno, orgânico e expressivo. Um inegável marco na história do cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só pra terminar, não queria deixar de citar um filme que considero meio hors concours nesta lista: DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1964), de Glauber Rocha. Não sou o único a achar este filme um dos mais expressivos de um dos cineastas mais expressivos da história do cinema que, por acaso ou não, é brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos diretores e obras igualmente importantes ficaram de fora, mas estabeleci apenas 20, como falei. De toda forma, aguardo as contribuições de vocês para incrementar nossa lista, e desejo um ótimo 2004 (*) a todos. E, é claro, bons filmes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) &lt;em&gt;Adaptando o artigo para os dias atuais, ótimo 2006 e excelentes anos subseqüentes. Olhando à distância, eu acrescentaria à lista o maravilhoso "&lt;/em&gt;Crepúsculo dos Deuses" ("Sunset Boulevard", 1950),  &lt;em&gt;de Billy Wilder, mas não saberia qual tirar fora. De toda forma, fica o registro, e o aguardo.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621653660866734?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621653660866734/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621653660866734' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621653660866734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621653660866734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/por-que-ver-os-clssicos.html' title='Por que ver os clássicos?'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621599267558162</id><published>2006-01-02T10:30:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T10:33:12.680-05:00</updated><title type='text'>Santo Sacrifício</title><content type='html'>Este é mais um artigo bem pessoal. Quem estiver a fim de verdades mais absolutas, melhor parar por aqui mesmo. Isto porque há certos tipos de temas, eu acredito, expressos por pontos-de-vista específicos, que só podem ser expostos de forma pessoal. É como cantar a própria aldeia para ser universal, ou expressar-se de uma maneira tão sincera que é capaz de fazer com que alguém completamente estranho se identifique e se envolva numa obra sua. E no mais, bem, a coluna é minha, sou eu que estou escrevendo, e dane-se, vai ser assim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, há pouco mais de um mês, concluímos as filmagens do meu mais recente projeto cinematográfico, A vida é curta, que conta à história de um cara que precisa ir a uma cidade reconquistar o amor de sua vida, mas só tem quinze minutos pra isso. Estamos num ambiente virtual de fácil acesso à informação, então, quem quiser saber mais sobre o projeto, pode procurar por aí. O pressuposto que se deve saber para este texto é que se trata de um projeto ambicioso, não porque queremos dizer o quanto somos bons ou ruins, mas porque a história pede isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Delimitadas as limitações de sempre, partimos para a aventura que é rodar um filme. Tínhamos um grande desafio pela frente: rodar cerca de 183 planos em apenas 5 dias, em 4 locações diferentes. Numa delas, tínhamos que desmontar todo o cenário de manhã cedinho e remontar no período da tarde para poder filmar a noite. Aliás, era a locação mais complicada, com cerca de 50 figurantes, todos vestidos e maquiados com referências da década de 50. Pra quem não está acostumado a dados de produção, posso garantir que são condições de trabalho extremamente difíceis, mesmo para uma equipe experiente. Mas acreditávamos que podíamos dar conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A realidade se apresentou bem diferente. Esbarramos nos eternos contratempos comuns a pequenas e grandes produções: os imprevistos. Terminamos tendo que repensar muita coisa, cortar planos, encontrar de improviso outras soluções, enfim, adaptar as idéias às reais condições da realização. Não foi um processo fácil, é possível imaginar. Terminamos deixando de rodar uns 20 planos. Se pararmos pra pensar e colocarmos na média das produções, até que não foi tanto assim. No entanto, dois desses planos eram fundamentais não para satisfazer meu estilo de muitos planos, mas para a história em si. Foi aí que pegou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o último dia de filmagem, uma exterior em meio a um canavial na Zona da Mata Norte do Estado de Pernambuco. Não veio a chuva, que é uma das maiores casualidades de uma filmagem externa, mas o dia estava bem nublado – o que terminou deixando a luz irregular e fazendo com que perdêssemos muitos minutos preciosos. Priorizamos, como sempre, contar a história, e nos concentramos em garantir os diálogos. No entanto, um plano fundamental ainda deveria ser feito: o protagonista correndo para pegar um ônibus. Bem no limite da luz – o sol já prestes a se pôr – preparamos a cena, posicionamos o ônibus no lugar e estava tudo pronto para rodar. Quando ativamos a cena, no entanto, o ônibus, de antigo que era, deu de não pegar. Justo naquela hora, justo no limite, justo numa ladeira, que nem pra empurrar dava. Tentamos ainda por angustiantes 20 minutos garantir o último plano fundamental do filme, mas todos os esforços foram em vão: o veículo só sairia dali rebocado. Eu, desolado, tive que reconhecer que não havia mais nada a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu assistente ainda gravou algumas locuções que poderiam ser úteis, mas eu conhecia bem o roteiro, sabia que tudo aquilo era inútil àquela hora. Isolei-me por alguns instantes, contemplando o fim do pôr-do-sol no meio da estrada do canavial, o vento passando suave pelas palhas secas, produzindo um ruído monódico. E nessas horas que você fica só (horas freqüentemente necessárias), tudo vem à cabeça. Quanto azar tivemos que enfrentar nesta produção, pensei. Azar? Não sei. A impressão que tenho é que o próprio Cinema estava me dando uma lição: não importa toda a preparação técnica que se tem, todo o domínio de ferramentas, todo o planejamento que dê a sensação de controle; no fim das contas, o Cinema, a obra que está sendo feita, é maior que tudo isso. Reconhecer isto é o primeiro passo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo passo é saber que uma produção não é uma guerra contra a obra, contra a idéia da obra. Tudo deve culminar para que a idéia se materialize da melhor forma. É só que a idéia deve ser encarada com afinco e humildade, um filme está sendo feito, afinal de contas, e você tem um papel nisso tudo. Se não é possível fazer tudo de acordo com o planejado e a idéia pede isso, é hora de refazer os planos. Ver de onde tirar verba para mais uma diária (isto me aconteceu pela primeira vez na vida, aliás), verificar os planos que faltam e planejá-los novamente se for necessário e viável. Mas, sobretudo, ter a certeza de que o filme vai acontecer. É maior que nós, maior do que as virtudes e conquistas da produção, porém também maior do que as dificuldades e contratempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que nos leva ao terceiro passo, que aí depende da uma certa crença: considerar que o Cinema é (ou talvez seja), como qualquer forma de Arte, uma entidade que se cria do espírito humano, que toma uma forma e uma autonomia própria. E aí vira uma espécie de Deus (ou uma analogia à divindade, como preferirem), que pede submissão, devoção e sacrifício, não para ser exaltado, mas para que suas obras sejam feitas e toda a humanidade, profundamente amada por ele, possa partilhar de sua natureza. Quantas vezes eu, enquanto espectador, pude desfrutar dessa natureza? Quantas vezes não senti o impulso de me curvar em reverência diante de uma tela (um altar) antes de deixar uma sala (um templo)? E quantas vezes como realizador não me senti pequeno, indigno e incapaz de despertar isso? Mas nem isso importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a oficina de atuação anterior ao filme, eu repetia sempre aos atores: esqueçam o ego e submetam-se à obra – servimos a uma causa maior. Qualquer atributo que nos é confiado num set de filmagem deve ser encarado como uma função, não como um privilégio. O que deve ficar depois que o filme estiver pronto não são as atuações extraordinárias deste ou daquele ator, não é a consistência do roteiro, não é a excelência da fotografia ou o dinamismo e adequação da montagem; nem mesmo o cuidado da direção de arte ou a riqueza criativa dos figurinos; a música não deve chamar tanta atenção, e os efeitos visuais não precisam ser fantásticos; por fim, os planos criados não devem ser maiores do que a história. O que deve ficar é o filme, é o sentimento que uma pessoa completamente estranha vai ver nascendo em si após tê-lo visto. É ali que o processo artístico se completa; é ali que se ligam intimamente autores, obras e espectadores; é ali que se faz mágica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dessa mágica, nós somos meros instrumentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;publicado originalmente no Webzine Vitrolaz, em fevereiro de 2005&lt;/em&gt;)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621599267558162?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621599267558162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621599267558162' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621599267558162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621599267558162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/santo-sacrifcio.html' title='Santo Sacrifício'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621565384498861</id><published>2006-01-02T10:25:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T10:27:33.846-05:00</updated><title type='text'>Cineastas não gostam de água</title><content type='html'>Não faz muito tempo, numa outra noite de sábado, saí bem cedo de uma festa. Não que não estivesse boa – muito pelo contrário. Era só que, bom, eu tinha outra coisa a fazer. Um amigo meu estava rodando mais um de seus curtas e me convidou a participar da gravação. Era um esquema meio “guerrilheiro”, quatro caras com duas câmeras digitais encarando a noite, chegando nos lugares e filmando as cenas, sem estrutura de produção, autorizações prévias ou planejamentos mais complexos. Puro instinto artístico, e só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começamos numa loja de conveniência e fomos bater na praia para rodar a última cena da noite. No filme, o ator deveria entrar na água e dizer seu texto (não vou revelar mais detalhes – o filme será lançado em breve). Estávamos tão envolvidos no trabalho que não pudemos perceber quão estranho eram cinco marmanjos com apetrechos fotográficos numa praia em pleno amanhecer de domingo. Eu mesmo só fui notar isto quando, para exercer minha função, tive que entrar no mar até o joelho – não tive tempo de tirar as botas e nem arregaçar minhas calças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, pra quem não me conhece, eu não sou exatamente um cara que vai à praia sempre (na verdade, isso deve se resumir a, no máximo, duas ou três vezes por ano, infelizmente). E estar ali com trajes evidentemente inapropriados seria algo no mínimo incômodo. Quando nos vimos obrigados a entrar na água junto com o ator, comentei com meu amigo (igualmente incomodado): “cineastas não gostam de água”. Isto pode ser aplicado a dois workaholics noctívagos como nós, mas na verdade pode ser considerado também uma grande metáfora para a realização cinematográfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo uma produtora amiga minha, os americanos elaboraram um ranking de graus de dificuldades de filmagem, e cenas de água estão em segundo lugar, só perdendo para as de selva (a título de curiosidade, são seguidas de perto por seqüências com crianças e bichos, nesta ordem). Realmente, se a gente for pensar bem, é complicado mobilizar uma equipe com atores, câmeras, técnicos, equipamentos de iluminação e maquinaria, som, objetos de cena, etc., para um lugar onde o chão se move, as coisas se molham e puxar uma extensão para fiações elétricas é no mínimo arriscado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As filmagens de “Tubarão”, de Steven Spielberg, por exemplo, deveriam ter durado 3 meses. Mas foi somente depois de 7 que equipe deu conta de todas as cenas. Um dos planos teve que ser filmado na própria piscina do diretor, pois o produtor não queria gastar grana e neurônios para realiza-la no fundo do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Waterworld”, de Kevin Reynolds, teve o orçamento mais caro da história do Cinema – o que não foi revertido nem em bilheteria e muito menos em satisfação da crítica. O filme foi todo feito em cenários construídos sobre a água e eu arriscaria um palpite que uma parte significativa do dinheiro foi gasta em tentar adequar as seqüências a esta realidade de produção. Faltou pagar melhor o roteirista, me parece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em “Náufrago” (não o longa-metragem de Robert Zemeckis, mas um curta-metragem cearense anterior ao filme americano), de Amílcar Claro, como qualquer filme cuja trama é ambientada em alto-mar, a equipe tinha que esperar horas num barco ancorado até o horizonte ficar completamente limpo de outros barcos ou outros sinais de civilização. Quando finalmente o mar estava sem ninguém, a luz não estava boa, e quando a luz finalmente ficava boa, aparecia um pontinho navegando lá ao longe: mais um barco indesejável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há ainda um sem número de curiosidades sobre filmagens feitas na água, mas, enfim, o que eu quero dizer vocês já entenderam: filmar na água é fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que isso tudo me faz pensar é que, naquela madrugada de domingo, a gente não estava nem aí para a água. Tudo o que interessava era filmar a cena, naquela hora, com aquela luz, com aquele clima, com aquela sensação de estar fazendo uma coisa que vale muito mais do que todo o seu desconforto, do que todos os seus hábitos pouco saudáveis, do que toda a sua história de aversão às coisas do mar; algo que transcende você: um filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se tem algo muito importante a dizer, não importam os meios. Muito menos os obstáculos, e as outras coisas da vida que eventualmente nos desviam do nosso caminho. No fim de tudo, ter a chance de se expressar e compartilhar sua essência com outras pessoas é o que realmente importa. As dificuldades só dão um sabor especial ao processo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de acabamos, saímos exaustos, molhados e imundos de areia. Minhas botas estavam pesadas e encharcadas e minhas meias cheias de areia e minhas calças geladas até a altura das coxas e eu ainda precisava dirigir até em casa. Mas não podia esconder um sorriso que começava bem dentro e se abria invencível do lado de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradecimentos a Andrezza de Faria pelas informações e a Kleber Mendonça Filho pelo convite à bela experiência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621565384498861?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621565384498861/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621565384498861' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621565384498861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621565384498861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/cineastas-no-gostam-de-gua.html' title='Cineastas não gostam de água'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621548032644224</id><published>2006-01-02T10:22:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T10:24:40.330-05:00</updated><title type='text'>Pecando pelo excesso</title><content type='html'>O ano é 1998. No meio de uma sala escura, um homem ingênuo e cheio de expectativas se entrega totalitariamente ao impressionante conjunto de imagens que passa diante de seus olhos, ocupando quase que completamente a parede à sua frente. Ao seu redor, pessoas parecidas com ele, algumas bem familiares, cercadas por potentes monitores de som, regulados para distribuir informações suaves e sísmicas de forma perfeitamente harmônica por toda a sala, atribuindo-lhes uma tridimensionalidade jamais vista – ou melhor, ouvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom, pra encurtar a história, o homem ingênuo era eu, a sala escura era um multiplex e o espetáculo artístico-técnico em questão era um certo filme de Steven Spielberg chamado “O resgate do Soldado Ryan”. No meio daquelas explosões – pirotécnicas e dramáticas – eu esqueci toda a parte inicial (com exceção da bandeira americana contra o sol que me deu a impressão de estar vendo-a num negativo fotográfico), a do presente, em que o velho Ryan procura pelo túmulo de seu capitão. E aí me envolvi pra valer na história, chegando perto do êxtase quando o Tom Hanks lançou um último olhar ao Matt Damon e reuniu as últimas forças que lhe restavam para balbuciar um “Deserve it...” (algo como “faça por merecer”). Aí, de repente, um efeito “morphe” transforma o jovem Ryan no velho Ryan, e este diz com todas as letras, levando cerca de 30 segundos, tudo o que eu tinha pensado em apenas um instante, logo após a fala do personagem moribundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto foi o bastante pra me fazer sair muito puto da sala. Só fui me acalmar quando me convenci de que o filme começava no desembarque da Normandia e terminava logo após aquela frase, com as tropas americanas invadindo o pequeno vilarejo acabando com os últimos resquícios da resistência nazista. Mas depois fui pensar um pouco no assunto. Spielberg tem essa mania, de nos proporcionar um delicioso show cinematográfico, unindo como poucos possibilidades técnicas com fluência narrativa, para depois entregar o conceito – aquele ao qual nós deveríamos chegar – mastigado numa bandeja pra gente. Eca!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transportando isso para termos mais gerais – e considerando que o diretor de “ET”, “Tubarão” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” é, sem dúvida, um dos mais geniais diretores americanos –, creio que isto é um reflexo do “American way” de ver as coisas. Pela produção artística e jornalística a que temos acesso, parece mesmo que tudo tem que vir muito bem explicado, pragmaticamente definido, como houvesse uma incapacidade geral de abstrair, de chegar às suas próprias conclusões. O fim deste e de outro filme de destaque de Spielberg, “A lista de Schindler”, explica exatamente o que a platéia já percebeu, ou poderia perceber caso o filme simplesmente acabasse. Redundância, para dizer o mínimo. Mau gosto, para dizer o máximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já me explico. Umberto Eco caracteriza o mau gosto como algum elemento estético que força a atenção do expectador/leitor/apreciador para um aspecto específico da obra. Ele toma um vestido feminino para ilustrar seu ponto-de-vista: uma mulher que aparece com um decote exagerado, numa festa em que todos estão vestidos recatadamente, força atenção para os seus seios, causando constrangimento para uns e deleite para outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O público médio talvez não identifique esta causa, mas certamente definiria o vestido como de mau gosto. Não porque o decote em si é feio, mas porque está fora do contexto daquela festa em particular. De outro modo, um outro modelo de vestido, mesmo que ressaltasse as belas formas físicas da mulher, porém sem forçar a atenção para um aspecto específico, permitindo que ela fosse lida em sua totalidade (inclusive revelando sua própria personalidade), aqui estaríamos diante de uma obra definida esteticamente como bela, que chamaria a atenção por sua integridade e por nos permitir uma leitura livre, segundo as características de cada um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho interessante esta percepção do mau gosto, pois tem a ver com a função estética de uma obra de arte aberta, que convida o espectador a fazer parte do processo artístico, dando à leitura da obra uma importância tão grande quanto a sua produção. Eco sugeriu isto por volta de 1964, no seu antológico “Apocalípticos e integrados”. De lá pra cá, muita coisa mudou, inclusive em termos estéticos, padrões de comportamento e tendências de moda. Talvez o exemplo tenha até caducado (muito embora ache que a “dívida histórica” do homem para com a mulher se reflita também nesta exploração do corpo feminino), mas acredito que o princípio possa continuar o mesmo – o excesso de exposição de um elemento ou aspecto específico, mudando-se apenas a contextualização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, analisando um contexto narrativo dentro deste princípio, o excesso residiria justamente na redundância, na ênfase que um autor dá a um aspecto de sua própria interpretação, subestimando, mesmo que involuntariamente, o tempo de leitura de cada espectador, sua capacidade crítica de chegar às suas próprias conclusões, mesmo que sejam diversas do que se pensou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que há obras que se valem do excesso para existir. A alta “densidade demográfica” de notas musicais num solo de John Coltrane me vem à cabeça agora. Só que aí se trata de um outro contexto estabelecido, onde a proliferação de notas faz parte do cenário. No caso de uma obra narrativa, a história pode até ser guiada dentro de uma linha estética, mas o cuidado está em deixar o espectador seguí-la do seu jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando ao nosso exemplo, continuo considerando Spielberg um dos mais brilhantes autores do cinema contemporâneo. Mas ele está inserido num contexto em que a narrativa é subestimada. Dentro destes deslizes de redundância – ninguém é perfeito –, no entanto, ele consegue fazer-nos atingir momentos de puro deleite, o que o coloca dentro de um outro nível de artista, cujo mau gosto se restringe a momentos bem específicos, e não à sua essência. Afinal, aqui não se trata apenas de redundância narrativa, mas também de falta de cuidado estético. Spielberg peca apenas pelos seus excessos eventuais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que gosto não se discute – se lamenta. Não sei se dá pra colocar nesta forma, mas se estivermos dispostos a reexaminar nossos preconceitos e absorver uma obra de uma maneira diferente, podemos crescer muito na nossa leitura artística, e aumentar nossas possibilidades de prazer estético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a obra, é claro, tem que permitir isto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621548032644224?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621548032644224/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621548032644224' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621548032644224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621548032644224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/pecando-pelo-excesso.html' title='Pecando pelo excesso'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621521932428125</id><published>2006-01-02T10:16:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T10:20:19.330-05:00</updated><title type='text'>O imortal e o efêmero</title><content type='html'>Anteontem fui assistir a uma ótima peça no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, aproveitando a rara folga do fim-de-Semana-Santa: “Homem-Objeto”, espetáculo de João Falcão a partir da obra de Luís Fernando Veríssimo. Foi uma experiência ótima — os atores estavam maravilhosos, a encenação era complexa e acessível ao mesmo tempo, e o texto era simplesmente extraordinário. Lembro-me particularmente da cena final, em que os atores, diante de uma luz mínima que os deixava praticamente na penumbra, iam vestindo peças de figurino fosforecente, aos poucos dando forma aos seus próprios corpos, construindo a sua existência à medida que construiam o contexto através do texto. Um desses momentos que certamente você guarda por muito tempo, porque lhe é significativo não apenas o que é dito, mas a forma como é dito. Já dissemos, o sabor (a forma) é importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na saída, encontrei alguns amigos, e ficamos por alguns minutos conversando sobre o que tínhamos acabado de ver. Todos tínhamos adorado a peça, e estávamos evidentemente felizes com o que a peça nos tinha proporcionado. A um certo ponto, alguém (e isto provavelmente expressaria o desejo de outra pessoas) comentou algo do tipo: “Cara, isso tem que virar um filme”. Como cineasta, seria natural eu simplesmente achar a idéia boa. Mas minha cabeça terminou se voltando pra uma outra reflexão. Bom, eu tinha acabado de ver um teatro de alta qualidade – não digo nem qualidade técnica, mas expressiva mesmo. Aquela peça me disse muito, em conteúdo, forma e atmosfera. E dentro de elementos bem característicos da linguagem teatral: cenas concebidas tridimensionalmente, apoiadas diretamente na reação do público, desenrolando-se em conjunto com o texto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí, fiquei pensando, será que conseguiríamos alcançar aquele potencial expressivo naquele ponto final da história (daquela cena que mencionei)? Será que a linguagem prioritariamente de imagens do cinema faria jus a uma construção tão integrada com o maravilhoso texto original? Enfim, valeria mesmo a pena? Porque, pôxa, tudo era tão legal dito através do Teatro que considerar outra forma de expressar aquilo quase parecia tentar traduzir uma música do Chico Buarque para o esperanto. Pensei então um pouco no meu amigo: se a experiência tinha sido tão boa no Teatro, por que, então, o impulso imediato ao ver algo bacana é querer vê-lo transformado em Cinema? Caí direto em especulações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será que é o simples fato do Cinema lidar com um registro objetivo das imagens? Mas aquelas imagens transcendiam nossa percepção cinematográfica, pois eram expressas em 3 dimensões, complementavam-se com o texto, que tinha todo um significado dito ao vivo. Não sei se poderíamos reduzir isto ao simples registro – até porque isto reduziria a obra (em pelo menos uma dimensão), pois a linguagem teatral tem especificidades diferentes da linguagem cinematográfica. Basta pensar nas experiências de teatro filmado: a obra se torna um meio-termo, algo que não é nem Teatro, nem Cinema, é um limbo de linguagem. Por isto que obras de outras artes (Teatro, Quadrinhos e sobretudo a Literatura) têm que sofrer adaptações quando transformadas em filmes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez, então, seja porque o Cinema tem um alcance maior, um poder de abrangência que o Teatro não tem, infelizmente ou não. Porque o Teatro deve ser feito ao vivo, em interação direta com o público, que interfere na obra naquele dia, naquele momento. E isto, é claro, limita bastante sua possibilidade de reprodução, tal como bem analisou Walter Benjamin quando o contexto da Cultura de Massa começava a surgir perto da metade do Século XX. E já que tínhamos passado por essa bela experiência, seria natural querer compartilhá-la com o maior número possível de gente. Só que esta outra hipótese rapidamente caiu por terra quando lembrei que o mesmo tema da peça já tinha sofrido uma adaptação para a televisão, cujo potencial de abrangência é ainda maior do que o Cinema, pois é transmitido em condições semelhantes para um grande número de pessoas advindas de públicos dos mais diversos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O efeito foi bom, evidentemente bem “traduzido” para a linguagem de TV, que é bem diferente da de Cinema, mas não chegou a permitir uma profundidade de leitura que uma experiência como o Teatro e o próprio Cinema proporcionam. Isto porque a TV é evidentemente um veículo da Cultura de Massa, cuja função é entreter ou informar de forma mais superficial, por estar diluída em outras atividades do nosso dia-a-dia em situações que de MacLuhan a Morin já foram examinadas e descritas com muito mais propriedade. Enfim, se não era a TV que faria aquele momento menos efêmero e mais compartilhado com as pessoas, então não faria muito sentido esperar isto do Cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que, então, meu amigo desejava tanto ver aquele momento especial no Cinema? Em que isto tornaria aquele momento tão universal, tão transcendental e, principalmente, tão eterno? Minhas opções de especulação estavam acabando, e elas tinham respondido apenas parcialmente à pergunta. E eu não queria dar o braço a torcer e simplesmente perguntar. Então, fiz uma última tentativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Cinema, no decorrer do Século XX, rapidamente se tornou a mais importante forma de arte, talvez em grande parte por seu caráter de entretenimento. De todo modo, como diria Panofksy, foi o Cinema quem tirou a arte dos museus restritos e devolveu às pessoas – na verdade, tornou novamente evidente a necessidade que as pessoas têm da arte. Pois, diferente da TV, ele pressupõe um esforço e uma intenção de consumir estética: a pessoa se arruma, sai de casa, pega um ônibus ou estaciona um carro ou anda até a esquina, paga uma entrada, e então passa pelo menos uma hora e meia do seu dia trancado numa sala escura, normalmente com dezenas de desconhecidos, dependendo do que se dispôs a ver. Há, portanto, um desejo de passar por uma experiência estética, ainda que este desejo nem sempre seja consciente. Mas está lá, exposta a uma tela gigante, à mercê das suas imagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, há um algo a mais que as minhas duas especulações anteriores: esse caráter de ser não por acaso a principal forma de expressão artística, a mais popular forma de arte, ao registrar no tempo e espaço uma expressão autônoma, imortal praticamente, dentro de uma linguagem passível de ser reconhecida como artística. E habituados e expostos que estamos à linguagem cinematográfica, terminamos nos contentando com ela, pois nossas necessidades estéticas estão, senão completamente satisfeitas, parcialmente saciadas. E aí não criamos o costume de ler a arte em outros termos – outras línguas, podemos dizer. Línguas que somos plenamente capazes de compreender e até de dialogar. Risco imediato: achar que somente o Cinema é capaz de nos conduzir por esta experiência plena de tornar esse momento efêmero de prazer estético algo inesquecível, eterno enquanto dure.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a verdade é que somos nós, com nossa história de vida, com estado de espírito e com o nosso próprio domínio da linguagem artística (domínio que é um aprendizado contínuo, e não algo que a gente já nasce sabendo), que tornamos esse momento imortal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621521932428125?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621521932428125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621521932428125' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621521932428125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621521932428125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/o-imortal-e-o-efmero.html' title='O imortal e o efêmero'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113621496378164415</id><published>2006-01-02T10:01:00.000-05:00</published><updated>2006-01-02T10:16:03.790-05:00</updated><title type='text'>Fórmula e Ferramenta</title><content type='html'>Creio que já foi mencionado aqui que uma boa idéia não basta. Pelo menos não no que diz respeito à expressão artística. Não basta porque, se esta idéia não se comunica com alguém, ela morre em si mesma, e permanece apenas como uma boa idéia, sem se tornar, efetivamente, algo que fará diferença na realidade, uma obra que toca a vida de alguém e se transmite em toda a sua integridade. A expressão não se encerra no pensamento – ela apenas se inicia ali, e se completa ao ecoar do outro lado, tornando-se comunicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, ao observar a produção artística contemporânea, sobretudo na área audiovisual, freqüentemente me deparo com comentários do tipo “a idéia era ótima”, que sempre são complementados com algum tipo de lamentação pelo que deixou de ser feito, seja por falta de comunicabilidade (“só não entendi bem aquela parte final...”) ou de recursos (“pena que a produção era pobre”). E aí acontece, na minha opinião, a maior tragédia dentro de uma produção estética: o desperdício de uma boa idéia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por isto é que a boa idéia deve ser clara, e não apenas, envolvente, interessante, atrativa. Senão aquele pensamento a ser compartilhado com as pessoas pode encontrar uma resistência que não é, em essência, uma falta de receptividade, mas simplesmente uma dificuldade de decodificá-lo na mensagem. Ao mesmo tempo, esta idéia não pode – não pode mesmo, é preciso ressaltar – perder seu impulso expressivo, sua verdade, sua integridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No receio de que esta perda ocorra (seria quase uma fobia, eu diria), muitos isolam o processo criativo no que seria uma pura inspiração, um primeiro impulso da criação, “a idéia como ela é”, digamos assim, atirando-se a uma produção visceral e instintiva, sem muitas racionalizações ou ponderações. Pois se tem a impressão de que qualquer técnica aplicada vai macular a idéia, deixando-a suscetível a leis de mercado e a padronizações de percepção e leitura. É uma preocupação plausível, lícita, porém, na minha opinião, ingênua. Porque, dependendo de como são usadas, as técnicas não tiram da obra sua verdade. Ao contrário, ajudam a obra a chegar até a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sempre, gostaria de usar o cinema como guia para avançarmos nesta discussão. E tomando como ponto de partida o roteiro, a idéia de um filme antes de se submeter ao seu complexo processo de produção. A concepção da obra, portanto, e não a obra em si.Quando examinamos a bibliografia disponível sobre roteiro cinematográfico, encontramos dois grandes expoentes que representam linhas bem distintas na forma de conduzir um processo criativo – na verdade, na forma de direcionar este processo em seus respectivos mercados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste lado do ringue, todo o pragmatismo norte-americano, cheio de recursos e ferramentas não necessariamente maléficos mas geralmente restritivos, personalizado em seu mais famoso defensor, autor dos maiores best sellers sobre o assunto, o consultor e professor Syd Field. E no corner oposto, a tentativa de uma antítese a esta perspectiva de mercado, cujo peso está mais no conteúdo artístico procurando não ignorar completamente os aspectos técnicos, eis o roteirista de alguns dos mais célebres filmes e diretor da primeira escola de cinema francesa: Jean-Claude Carrière.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de tocarmos a sineta para o primeiro round, esta é a hora em que entra uma bela garota correndo pela platéia, gritando que tudo não passa de um engano, e que os dois não precisam brigar. Todo este mal-entendido pode ser resolvido com uma boa conversa, desde que as duas partes saibam reconhecer o que há de positivo e de negativo mal dentro de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Field acha que a história contida no roteiro deve ser centrada na estrutura narrativa, com um senso de timing bem apurado, no qual eventos significativos são distribuídos com cuidado e precisão no decorrer do filme – inclusive definindo o número da página em que cada evento desses deve acontecer. Para isto, contamos com outros recursos como apoio, como o uso dos arquétipos e estágios de uma jornada mitológica (já previamente estudados e estabelecidos). Se conseguirmos cumprir mais ou menos com fidelidade este modelo proposto, o envolvimento e a atenção da platéia estarão garantidos até o fim do filme. Mas será que estará garantido depois? Já Carrière enfatiza a necessidade de pensar cada cena com profundidade e tensão dramática, procurando retirar significado de cada vírgula do roteiro. O desenvolvimento da história é baseado na “regra” do Jo-Hai-Kiu, em que todo ato, cena, frase deve ser dividida em três tempos fundamentais, que são mais ou menos traduzidos em “preparação, decorrer e brilho” – algo bem mais profundo do que começo, meio e fim. Guiados por esta sabedoria milenar, basta nos mantermos sensíveis na observação da realidade e à nossa própria imaginação que estaremos produzindo algo extremamente expressivo e significativo, sem dúvida. É claro que isto é muito subjetivo e pode não ser alcançado por todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se nos distanciamos um pouco da ideologia por trás destas duas perspectivas – é claro, estamos falando de linhas de criatividade adequadas aos mercados específicos de cada um dos autores – veremos que elas não são necessariamente antagônicas. Os arquétipos e as estruturas míticas, frutos de estudos sérios de gente como Jung e Campbell, e a erudição, sensibilidade e transpiração criativa ressaltadas pelos sábios orientais (e europeus) não são opostos em si, mas possivelmente (provavelmente) complementares. O problema não reside em simplesmente tomar partido de uma das direções, mas em considerar todas estas técnicas disponíveis como fórmulas prontas, ao invés de ferramentas que podem ser utilizadas a serviço da expressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fórmula consiste em algo rígido, em que as variáveis servem apenas para aplicar diferentes valores numa estrutura que permanece imutável. Em termos narrativos: estaremos presenciando não apenas variações das mesmas histórias, mas as mesmas histórias em si. As variáveis podem mudar o ambiente, os personagens, mas tudo segue o mesmo caminho, sem surpresas. Tudo está encaixado na fórmula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, ao invés, tomamos estas mesmas variáveis e a conduzimos por caminhos diferentes, sem a preocupação de mantê-las numa estrutura rígida para obtermos um resultado esperado, então estaremos produzindo algo único. Temos a possibilidade de subverter sua ordem, desviar seu caminho, mudar sua natureza, de acordo com o que a própria obra nos sugere. Não se define o jeito de guiar o pincel numa pintura, mas se deixa o pincel livre, embora este permaneça ali, disponível ao traço do artista. Da mesma forma, as técnicas narrativas podem servir para diagnosticar e prover o que a história precisa para ir adiante. São os instrumentos, as ferramentas de um roteirista, assim como o pincel o é para o artista plástico. Se mantivermos esta perspectiva, estaremos escapando da fórmula, do caminho previsível, e poderemos mergulhar no inesperado, no surpreendente. Sem uma estrutura rígida, ou mesmo a expectativa de um resultado esperado, ficaremos livres para utilizar estas ferramentas sem medo, pondo-as a serviço de nossa necessidade de expressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande desafio de qualquer artista é encontrar este equilíbrio entre sua verdade intrínseca e sua externalização. E, mesmo que não tenhamos a ambição, a pretensão ou nem mesmo o desejo de sermos grandes (de chegarmos a este extremo), precisamos ter este mínimo equilíbrio como meta, pois é através dele que a arte se completa – é quando ela consegue ser lida na medida justa de sua essência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113621496378164415?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113621496378164415/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113621496378164415' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621496378164415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113621496378164415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/frmula-e-ferramenta.html' title='Fórmula e Ferramenta'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113617675637599995</id><published>2006-01-01T23:33:00.000-05:00</published><updated>2006-01-01T23:39:16.380-05:00</updated><title type='text'>Ferraris, replicantes e frankensteins</title><content type='html'>Jean-Claude Carrière é um roteirista no sentido mais expressivo. É um cara que parece não ter pretensões de dirigir, só escrever histórias, submetê-las às visões de vários diretores. Já trabalhou com Buñuel, Brook, Forman e muitos outros. Além disto, é um ensaísta, com um estilo bem particular, sem uma construção linear de raciocínio – porém capaz de deixar bem claro sua opinião sobre os assuntos que se propõe a discutir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seu “A linguagem secreta do cinema”, ele coloca uma questão que, no fim, diz respeito à direção. Defendendo que a história deve ser contada de maneira simples, para envolver ao máximo o público com a trama, planos inusitados e cortes vertiginosos deveriam ser evitados, pois chamariam a atenção para si, ao invés de continuar expondo a narrativa de forma clara e fluida. É como um ator entrando com uma peça excessivamente extravagante no meio de uma cena realista de uma peça de Tchekov. Aí, haveria uma quebra de estilo, que aqui nesta coluna certa vez já caracterizamos como mau-gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até aí, tudo bem: enquanto quebra de estilo, a inserção de planos e seqüências menos “comportadas” num filme que aponta o contrário resultaria, a princípio, num problema de fluência narrativa. No entanto, Carrière termina levantando uma outra questão, que diz respeito a linhas mais abrangentes de caminhos de estilo. Toda a história pode ser contada em planos simples? É só isto que importa? O espectador deve se interessar exclusivamente pela história, e não pela exploração dos limites de sua percepção? Ou será o contrário: dada a nossa maturidade de leitura audiovisual, precisamos de estímulos cada vez mais complexos, extremos e totalitários, ampliando mais e mais a nossa capacidade de apreciação estética, e com ela, a absorção plena de uma narrativa mais expressiva, em aspectos cada vez mais diversos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei minha atenção, como sempre, para experiências mais ou menos recentes, e cheguei à conclusão (nunca necessariamente correta) de que há um aspecto no Cinema que conduz essa problemática: a montagem. Justamente por ser tão específica da gramática audiovisual, chegando muitas vezes a ser a linguagem cinematográfica em si, a montagem foi um dos aspectos que mais se complexificou à medida que a indústria fílmica foi se desenvolvendo e conquistando o mundo. Basta pensar nos planos fixos da sua gênese (das fotos em movimento dos Lumière ao teatro filmado de Méliès) e no vertiginoso ritmo de montagem dos filmes e videoclips atuais. A diferença de ritmo, estilo e significação é evidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interessante que, quando estava relendo alguns trechos do livro de Carrière, foi justamente na época do Oscar, cada vez mais irritantemente previsível. No entanto, sendo expressão máxima da indústria cultural do Cinema, esta cerimônia pode servir como um prato cheio de análise e tendências de mercado. Dos indicados ao prêmio de melhor montagem, havia três favoritos: “Cold Mountain”, de Anthony Minghella, montado por este senhor magistral e já citado aqui Walter Murch; “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, editado pelo Daniel Rezende (antítese do Murch); e, por fim, o grande vencedor, “Senhor dos Anéis – o Retorno do Rei”, de Peter Jackson, cuja montagem ficou a cargo da dupla Annie Collins e Jamie Selkirk.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, na minha visão, parece-me que há diferenças fundamentais entre as três peças – diferenças de estilo mesmo, que podem até clarear alguns pontos da nossa discussão até aqui. Para guiar meu raciocínio, resolvi criar metáforas para expressar as três diferentes formas de concepção da montagem. O que me veio à cabeça foram três máquinas (na verdade, três sistemas automatizados) em particular: uma Ferrari, um Replicante e o Frankenstein.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ferrari, para aficionados por Fórmula 1 como eu (sim, apesar de não ser muito ligado em carros, resisto bravamente ao Galvão Bueno e não perco uma corrida), consiste numa máquina próxima da perfeição, um organismo quase infalível de funcionamento cuja performance é confiável e extremamente versátil. Neste tipo de máquina, não há um aspecto específico que salta forçando a atenção para si (não tem o motor mais potente, nem o melhor sistema de largada e muito menos a melhor composição dos pneus), mas o equilíbrio é a tônica, fazendo com que tudo funcione sincronicamente de modo a minimizar as falhas e aprimorar o resultado final. Nesta categoria metafórica, encaixa-se “Cold Mountain”, ou melhor, o grande profissional de cinema que é Walter Murch. À parte um certo melodrama por trás da história, o filme não tem uma montagem espetacular, não carrega em si a cara de inovação e ousadia própria da oficial mentalidade semi-adolescente que dita as percepções midiáticas atuais. Ao contrário, a exemplo do que propunha Carrière, nos proporciona belas seqüências, comunicadas na sua plenitude, priorizando justamente a história e seus sentidos dramáticos. Ganha pelo equilíbrio, pela sutileza e sofisticação dos cortes. Domínio técnico não é o bastante, precisa de muita sensibilidade narrativa – coisa que o Sr. Murch tem de sobra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Replicante é uma referência ao melhor filme de Ridley Scott (creio que já disse isto nesta coluna), “O Caçador de Andróides” (“Blade Runner”, 1982). No filme, o termo se aplica a andróides ultra-avançados, construídos para serem escravos dos humanos. Para tanto, foram feitos praticamente à sua imagem e semelhança, exceto por apresentarem aptidões físicas bem mais apuradas e teoricamente serem desprovidos de emoção. Apesar de evidentemente destoantes dos humanos normais, sua semelhança básica – tão organicamente integrada com a essência humana de buscar a liberdade, ou o livre arbítrio, que a teologia judaico-cristã define como principal diferença entre os homens e as demais criaturas – os impele a usar de suas habilidades peculiares para tentarem se fundir ao universo que foram colocados à parte. Têm essa característica, portanto, de buscar o essencial da existência através de atributos espetaculares – numa disposição, inclusive, de se extinguir no processo (existe algo mais humano que isto?). Transpondo para a nossa discussão, classifico como “replicantes” os filmes que foram concebidos dentro de uma estética “espetacular”, porém que trazem em si essa clara busca pela essência, numa narrativa concisa e plenamente integrada ao estilo. Vêm à minha mente filmes de Tarantino como “Pulp Fiction” (1996?), Kalatozov com o excelente “Quando voam as cegonhas” (“Letjat zhuravili”, 1957) e, mais recentemente, o “Cidade de Deus”, do Fernando Meirelles. Isto porque a estética assim chamada “publicitária” (planos precisos e expressivos, ritmos de edição variantes, porém tendendo a algo mais dinâmico, e outros aspectos estilísticos impecavelmente planejados e dispostos na tela), está, na minha modesta opinião, plenamente integrada à estrutura narrativa, ajuda a contar a concha de retalhos narrativos que se monta para formar uma história única e consistente. O Daniel Rezende conseguiu apresentar um estilo bem particular que se integrou perfeitamente à função narrativa que a montagem deve desempenhar, muito embora disto muitos pareçam procurar esquecer hoje em dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao grande vencedor da noite, o óbvio “Senhor dos Anéis – o Retorno do Rei”, coube o posto de Frankenstein da nossa discussão. Isto porque a montagem, evidentemente espetacular, não só pelos efeitos visuais mas também pelo seu próprio estilo (o que é escancarado nas seqüências de batalha), contrasta com o compromisso de contar uma história complexa e conhecida. É justamente no ponto narrativo que peca a montagem da adaptação de Tolkien, o que é expresso numa das piadinhas iniciais de Billy Crystal na própria cerimônia do Oscar: “Nada mau, onze indicações, uma para cada final”. Há, então, uma quebra de estilo do que se propõe o filme e do que se é imposto como estilo visual. A narrativa deixa eventualmente sua coesão para dar lugar a um estilismo exacerbado, muitas vezes não contribuindo para a clareza dramática da história. Assim como filmes deste tipo, a figura do personagem de Mary Shelley é algo apenas próximo de um ser humano, com alguns aspectos funcionais, porém, como um todo, inconstante, cheio de quebras (tanto no aspecto externo quanto no funcionamento do seu próprio organismo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O engraçado disto tudo é que, por aquela problemática colocada por Carrière no início, filmes “Ferrari” seriam os mais fiéis à linguagem cinematográfica enquanto forma narrativa de arte. No entanto, é preciso levar-se em conta nosso contexto histórico contemporâneo, sobretudo nosso atual ambiente midiático mesmo. Nele, nossos sentidos pedem algo próximo do limite, rápido, expressivo, enfim, espetacular. Neste sentido, há mais espaço para Replicantes e, principalmente, para “Frankensteins”, já que o conteúdo parece já não ter mais tanta importância em relação ao estilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pena, porque é justamente entre os filmes com montagens “Ferrari”, não-espetaculares, que encontramos maior consistência narrativa. E independente de qualquer outra coisa, nelas está contida a consciência que qualquer profissional de Cinema deve ter: a obra é o que importa Tudo deve estar a serviço dela, e não se deve ressaltar um aspecto em particular. Neste sentido, se uma montagem replicante se mostra necessária ao filme, então que seja feita uma montagem replicante. Senão, então é porque a própria história pede pra você segurar a onda e não destilar estilo sem razão. Melhor ser uma Ferrari comportada do que correr o risco de se tornar um Frankenstein. Afinal, nem sempre é um piloto brilhante quem temos que ajudar a cruzar a reta de chegada. E todo piloto merece ter ao menos essa chance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor então contar com a melhor máquina possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;publicado originalmente no Webzine Vitrolaz&lt;/em&gt;)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113617675637599995?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113617675637599995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113617675637599995' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113617675637599995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113617675637599995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/ferraris-replicantes-e-frankensteins.html' title='Ferraris, replicantes e frankensteins'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113617637831354098</id><published>2006-01-01T23:29:00.000-05:00</published><updated>2006-01-01T23:32:58.323-05:00</updated><title type='text'>A regra da exceção</title><content type='html'>Já faz algum tempo que descobri minhas grandes paixões: cinema, literatura e música. Não necessariamente nesta ordem, mas elas são tão definitivas na minha vida que terminei arrumando um jeito de trabalhar com as três. E estudá-las a fundo. Na verdade, particularmente duas delas, pois a terceira que mencionei, a música, prefiro deixá-la num fascínio mais distanciado, que me permita ser um pouco menos racional com as coisas. Mas as outras duas, bom, estas eu sempre tive uma percepção sensorial que ia junto com técnica – o tipo de experiência pela qual só pessoas que curtem a técnica como forma de expressão podem passar. Não sei se existe muita gente assim, aliás, mas isto têm me proporcionado coisas boas nos últimos tempos. E outras dores de cabeça, preciso admitir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que algumas destas dores de cabeça são daquelas que dói gostoso. Explicando melhor, antes que alguém ache que eu sou um masoquista pervertido, já ouvi um tenista falar uma vez deste prazer com a dor, sobretudo depois de um fim-de-semana vitorioso; parece que nós, atletas intelectuais (Argh! Eu falei “atletas intelectuais”?), podemos sentir a mesma coisa com o nosso músculo principal. Quando não encarada isoladamente, simplesmente como uma sensação ruim, mas como parte de um processo maior em que as dificuldades fazem parte, dão sabor às conquistas, a dor pode ser extremamente positiva, na verdade. Ela pode nos fazer crescer, apontar para a felicidade, ou pelo menos para o aprimoramento das nossas habilidades e sua aplicação para a busca de uma vida mais feliz. A dor pode ser, portanto, o caminho da felicidade. Mas disso falarei melhor depois, num artigo futuro. (Acho que esta é a primeira vez que alguém usa uma referência futura, e não passada).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é apenas o primeiro dos nossos paradoxos neste artigo. Mas não o principal. Isto porque queria falar de uma dor de cabeça em particular: “Dogville”, o mais recente trabalho do dinamarquês Lars von Trier. Muito já se falou deste filme, muita controvérsia foi criada em torno dele, muito da temática já se esgotou, até. Só que eu gostaria de falar de um outro aspecto, chamar a atenção para algo que diz respeito mais à técnica – à técnica narrativa, à linguagem e ao estilo expostos na peça. Queria falar, enfim, da imagem que von Trier propõe na sua obra.Antes de tudo, preciso introduzir dois conceitos que venho desenvolvendo em reflexões recentes (que talvez um dia se tornem algo de útil, como uma dissertação de mestrado ou coisa parecida): imagem objetiva e imagem subjetiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ser humano é sobretudo imagético; percebe o mundo principalmente através das imagens. Pegue um indivíduo de nossa espécie que tenha todos os sentidos dentro da curva de normalidade e tire um sentido por vez. Certamente, aquele de que mais sentirá falta será a visão – mal vai se mover. Tire-lhe a visão, e cause qualquer barulho, expila qualquer cheiro, jogue-lhe na mão qualquer tecido, faça-o provar qualquer iguaria. Ele sempre irá remeter a uma imagem daquilo que está experimentando: um vaso caindo na sala, uma pétala de rosa, uma tira de seda vermelha, um pedaço de marzipã. A visão é uma necessidade sensorial constante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem falar em nível estético: das oito artes reconhecidas (aí incluindo as histórias em quadrinhos como a oitava), pelo menos seis são apreciadas prioritariamente no aspecto visual – e as restantes, Música e Literatura, vão igualmente remeter a algum outro tipo de imagem. Aí chegamos nos conceitos de que falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um lado, temos a imagem objetiva, aquilo que é colocado objetivamente diante de nossos olhos para apreciação direta, imediata, para que absorvamos sentido através da sua simples visão. Isto acontece quando apreciamos a maioria das artes, mesmo que estas venham acompanhadas de outros aspectos. De toda forma, é à imagem que atribuímos sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado, temos a imagem subjetiva, uma imagem sugerida por um outro nível de informação (sonoro ou textual), que é remetida a nós e que, portanto, tem sua própria construção diretamente dependente de cada expectador. Quando falo ou leio “mão fechada”, por exemplo, cada um vai visualizar uma mão fechada diferente. Da mesma forma, quando escuto uma melodia sem letra, aquilo pode me fazer ter qualquer tipo de lembrança, sensação e imaginação – o que vai ser diferente da pessoa que está junto de mim, mesmo ela tendo uma formação e educação parecida com a minha. O Cinema dispõe de imagens colocadas objetivamente diante de uma câmera. Quando colocadas em seqüência, elas adquirem sentido, ou melhor, atribuem sentido ao filme. Este sentido pode ser subjetivo, mas as imagens não. Estão lá, registradas através de uma máquina incapaz em si de modificá-las subjetivamente, vistas em plano geral, médio ou fechado, do detalhe específico à contextualização aberta. O texto, por sua vez, faz com que a imagem construída a partir dele seja de uma forma diferente na cabeça de cada um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso de “Dogville”, há uma quebra radical nesta lógica: a maior parte das imagens de contextualização do filme são sugeridas: das portas e paredes das casas às mais belas paisagens do vale e das montanhas em torno da minúscula cidade. E isto é um aspecto íntimo do estilo, e da própria expressividade do filme. De tão ínfima, a cidade tem paredes invisíveis, ao mesmo tempo que não se vê através das paredes invisíveis. E há um mundo ao redor dela, mas um mundo apenas imaginado, como se seus habitantes tivessem imposto a si mesmos uma prisão subjetiva, um sistema quase hermético de vida. Enfim, “Dogville” é um desses filmes anormais que surgem a cada dez anos (se é que existe uma periodicidade tão precisa), que mexe com as estruturas do que se conhece como expressão artística, e que faz pensar como a capacidade do ser humano de expressar e refletir as coisas é aparentemente infindável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este campo, nós continuamos explorando infinitamente, questionando o tempo todo as características que nós mesmos nos esforçamos tanto para identificar, propor e instituir. O que seria natural nos fazer concluir que, se existe alguma regra rígida dentro da expressão artística é a da exceção, da necessidade de não haver regras – e me parece que mesmo esta regra pode ser quebrada. Seria uma espécie de anarquismo necessário à sobrevivência e à vitalidade da linguagem artística, sem o qual ela cairia inevitavelmente numa mesmice eterna, aborrecendo-nos e fazendo-nos procurar outros prazeres ou outras sensibilizações de sentido, provavelmente pervertendo nossas almas, dando-lhes a falsa perspectiva de que o universo tem fim e que nós chegamos até ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na recente exposição de Pablo Picasso em São Paulo, estão expostas, juntamente com suas obras, algumas passagens de vida e frases que lhe são atribuídas. Particularmente uma delas entrou e ficou na minha cabeça: “A Arte não é a verdade. É uma mentira que nos ajuda a entender a verdade.”Acho que esta preocupação em negar a Arte como verdade (ou expressão dela) tem um pouco a ver com esta necessidade da ausência de regras – tanto na criação quanto, e talvez principalmente, na leitura e apreciação de obras artísticas. É tirar do artista a soberba de estar inventando a roda, mas a consciência de estar apresentando uma visão verdadeira e pessoal da roda, fazendo com que as pessoas a vejam de outra forma e a reflitam de outra forma. Talvez seja esta a chave, não sei.Só sei que cada vez mais me parece que a Arte é este sistema anárquico anti-autônomo, eternamente mutante, cuja razão de existir parece estar em questionar constantemente a própria existência. Porque o próprio pensamento humano é contraditório, mutante e auto-questionador, e falando de uma espécie cuja percepção do mundo está intrinsecamente ligada à percepção da beleza, seria natural estabelecer esta perspectiva como uma possível chave de leitura da realidade. Pode até doer, mas vai doer gostoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no final, seremos vitoriosos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(&lt;em&gt;publicado originalmente no Webzine Vitrolaz&lt;/em&gt;)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113617637831354098?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113617637831354098/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113617637831354098' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113617637831354098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113617637831354098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2006/01/regra-da-exceo.html' title='A regra da exceção'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113608153274496541</id><published>2005-12-31T21:08:00.000-05:00</published><updated>2006-01-01T17:16:00.950-05:00</updated><title type='text'>Sobre direção de cinema...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sim. “Hollywood Ending” (traduzido em português como “Dirigindo no Escuro”) é uma comédia ligeira, talvez menos sutil do boa parte dos filmes que Woody Allen já fez. É conduzido com habilidade, algo inevitável para o talento e estrada do diretor, é claro, mas sem muitas novidades para quem conhece sua obra (seja a fundo ou superficialmente).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, tive a impressão de ter visto um dos filmes mais expressivos já feitos. Talvez pelo fato de que parecia, em diversos momentos, estar falando diretamente para mim, vejam só. Uma obra de arte cria esta condição egocêntrica, em que a pessoa-público se desliga do resto do mundo e se entrega a uma viagem subjetiva, impossível de ser plenamente compartilhada na maioria das vezes. E aí essa pessoa tem a impressão de estar diante de algo que, mesmo criado por um outro que nem sabe da sua existência, fez algo especialmente para ela, como se a conhecesse há anos, e melhor do que qualquer amigo, amante ou cônjuge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E já que estamos egocêntricos hoje, vou falar um pouco da minha viagem. Não porque tenha a pretensão de achar que alguém esteja interessado no que digo (quem não estiver, a propósito, pode parar por aqui mesmo). É só por conta deste outro efeito que a obra tem: por mais pessoal que seja a experiência, você quer compartilhá-la de qualquer jeito, mesmo sabendo que se trata de um esforço inútil. De qualquer forma, aqui vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um diretor de cinema. Estou no início da carreira ainda, mas já me chamo assim, não porque tenha feito um par de filmes, isto não é nada, mas porque simplesmente não há outra forma de me chamar. Porque esta relação temporal, de medir o que já fiz e o que ainda vou fazer, parece sem sentido quando penso na minha essência, na minha forma de ver o mundo, de respirar, de olhar para as pessoas, de caminhar na rua, de guiar meu carro, de enquadrar a realidade e imaginar possibilidades, de rir sozinho quando penso numa história, de chorar sem motivo aparente mas certamente com um bom motivo interior. De criar, enfim, um mundo próprio, tão indivisível quanto desesperado para ser compartilhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí me vejo como expectador (este é o papel a que o cineasta mais deve se submeter) de um filme que conta a história de um diretor temporariamente cego, que não tem escolha senão mentir e dirigir um filme na sua trágica condição. Parte disto é uma situação cômica, que tem a ver com as paranóias do autor, e que renderá boas risadas para alguém. Mas também soa uma bela metáfora, esta falta de escolha de ter que se expressar quando todo o universo exterior lhe diz o contrário. E aí as pessoas o acham louco, excêntrico e tudo o mais. Talvez ele seja mesmo mas, e daí? A causa a que serve é maior, e justifica quase toda atitude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio da sala num misto de incerteza. Rio ao mesmo tempo que choro, me entusiasmo ao mesmo tempo que me desespero. Como posso viver assim, nessa angústia de ter que colocar pra fora o que sinto através de uma arte que demanda tanto esforço e envolvimento de outras pessoas? Que tipo de expressão é esta que parte de uma necessidade pessoal mas que depende de tantos fatores externos, na verdade de uma íntima experiência compartilhada com outras pessoas, para ser realizada? Como sobreviver a isto?E como poderia ser diferente? A luz do cinema me deixou cego a qualquer outra coisa.E aí me olho por instante (um olhar exterior, como se pudesse sair do corpo e me enxergar na realidade que não controlo), e percebo que estou caminhando de braços cruzados, bem rente à parede, olhando fixamente a cerâmica do chão. Que visão estranha! No entanto, não tenho nem energia de pensar em ser diferente, meus pensamentos parecem, pelo menos por um momento, mais importantes do que qualquer impressão que possam ter de mim. Deve ser isto que leva alguém ao excêntrico, acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato de estar cego num set de filmagem representa algo inadmissível para um diretor: perder o controle de sua obra. Curiosamente, há alguns anos, pensei na mesma possibilidade: o que eu faria se ficasse cego? Fiquei formulando as possibilidades, e o único questionamento a que cheguei foi em “como poderia passar para a equipe o que estava pensando?” Deixar de fazer cinema nem me passou pela cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No filme, Allen cita o Beethoven surdo que compôs a Nona Sinfornia. Mesmo passando longe de ser gênio, eu acho que encararia o desafio de fazer algo que nunca iria ver, o incerto, o fora de controle – na verdade, a obra, que a um certo ponto é independente de mim. Por que se preocupar, então? Só preciso falar o que está na minha cabeça da forma mais precisa possível, e pronto, o que será, será. A única diferença é que não vou ver o resultado. Mas também não preciso, isso seria apenas um capricho da minha parte, inútil para a obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São essas horas em que eu me entendo mais. Por mais angustiante, difícil, estressante, o que quer que seja, não posso fazer outra coisa. Eu escolhi, e fui escolhido. Não posso ir de encontro à minha essência, nem à causa da minha existência. Foi isto que aprendi desta comédia ligeira: o Cinema é meu ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu não posso viver sem respirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Nome inspirado (aliás, chupado mesmo) no maravilhoso livro de David Mamet.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113608153274496541?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113608153274496541/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113608153274496541' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113608153274496541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113608153274496541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2005/12/sobre-direo-de-cinema.html' title='Sobre direção de cinema...'/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20386403.post-113664872743846605</id><published>2005-12-01T10:45:00.000-05:00</published><updated>2006-01-07T10:48:45.860-05:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/hello/170/9246/640/Leo%20-%20vert.jpg"&gt;&lt;img style="BORDER-RIGHT: #000000 1px solid; BORDER-TOP: #000000 1px solid; MARGIN: 2px; BORDER-LEFT: #000000 1px solid; BORDER-BOTTOM: #000000 1px solid" src="http://photos1.blogger.com/hello/170/9246/320/Leo%20-%20vert.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;. &lt;a href="http://picasa.google.com/blogger/" target="ext"&gt;&lt;img style="BORDER-RIGHT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; BORDER-TOP: 0px; PADDING-LEFT: 0px; BACKGROUND: none transparent scroll repeat 0% 0%; PADDING-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; PADDING-TOP: 0px; BORDER-BOTTOM: 0px" alt="Posted by Picasa" src="http://photos1.blogger.com/pbp.gif" align="absMiddle" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20386403-113664872743846605?l=leitor-otico.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitor-otico.blogspot.com/feeds/113664872743846605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20386403&amp;postID=113664872743846605' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113664872743846605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20386403/posts/default/113664872743846605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitor-otico.blogspot.com/2005/12/blog-post.html' title=''/><author><name>Leo Falcão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://photos1.blogger.com/blogger/1310/198/400/Leo%20profile.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
